17 março 2021

Por outro lado, já quase não uso "resiliência"

Pouco a pouco, sem nada que o justifique, ou talvez porque me dou com as pessoas erradas, "estultícia" vai ganhando terreno como minha palavra favorita, ultrapassando "tergiversar" e aproximando-se de "idiossincrasia".

(as minhas palavras favoritas não são necessariamente as mais bonitas, essas serão sempre "chover", "tertúlia" e "gentil")

16 março 2021

Para memória futura

 As pessoas que se estimam nunca se deviam apartar.

Eça de Queirós, in 'Carta a Emília de Rezende (1885)

13 março 2021

Onze

Todos os anos, por alturas do fim do inverno, este blog aniversaria. É um bom blog, razoavelmente honesto, que cada vez mais me serve para ter a certeza das coisas que aconteceram na minha vida, se está no blog é porque deve ter mesmo acontecido. Há dias em que me desapetece e já sei que tenho que esperar que passe, a maioria dos outros dias é-me útil para deixar aqui explicado como foi realmente que as coisas aconteceram. As pessoas vão e vêm, uns são visitas quase cá de casa, outros regressam para se espantarem por eu ainda por cá andar, sinto-me sempre como aquele parente de vícios antigos que continua a ouvir discos de vinil e a ler jornais em papel, enquanto todos os outros se deslumbram com as luzes, informando-se do mundo  lá naquilo do facebook ou mostrando retratos de almoços por começar no instagram. Há dias em que me parece que já escrevi melhor, há outros que quase acredito que nunca escrevi tão bem como agora. Os blogs ensinaram-me a resumir as ideias, as pessoas têm a sua vida e não se dão bem com textos grandes. Tenho pena de não estar mais vezes à conversa com quem lê o que escrevo e é generoso ao ponto de me dizer se gostou ou não, talvez essa fosse a única coisa que mudaria, se me apetecesse mudar alguma coisa. Acho que não sou mau tipo, apesar de tudo. 

Um blog é só um blog, essa é que é essa.

11 março 2021

As coisas são como são

Do que realmente tenho saudades é pendurar um papel a dizer "Do not disturb" na porta do quarto.

10 março 2021

Dias sim

Tinha saudades destes dias de sol em que parece que só estou desperto para o lado bom da vida, os vapores da maresia que entram pela janela aberta para a Marginal,  que está vazia a esta hora, ouvindo alto grandes músicas (e também os Capitão Fausto), atento ao telefone que não toca, chegue a chamada que, se não me falharem as previsões, chegará lá mais para o fim do ano e talvez se desatem pontas soltas, ou talvez não, afinal pontas soltas, isso é comigo... 

07 março 2021

Teaser

Por razões que se prendem com a aleatoriedade que a minha vida me permite por esta altura, cruzei-me com uma sequência de imagens que reflecte a profundidade de pensamento de Paulo Futre, que tenho evitado a custo desde o memorável momento em que dizia ao sócio que estava concentradíssimo, um desses momentos que nos marca a existência e que nos exacerba a compaixão pelo semelhante, em que colocamos em perspectiva todas as nossas crenças e, finalmente, em que achamos que não há impossíveis, como dizia o anúncio da Nike e nos anunciava Baden-Powell, diz Paulo Futre, com aquela comoção na voz capaz de arrancar do fundo da vida monástica todas as professoras de filosofia do secundário, tão pouco escutadas, a quem Paulo Futre proporciona o seu momento de exegese, não da sagrada palavra, mas de uma mistura da palavra avisada de Chagas Freitas com a flacidez intelectual do cinema de Allen na sua versão de declínio, ou seja, tudo o que lhe ocorreu contar-nos desde "Annie Hall, Futre, após o visionamento das palavras misericordiosas  de um homem bom que pediu à mãe para lhe espalhar as cinzas pelo corredor lateral onde Futre fazia as suas arrancadas, missão impossível porque esse espaço ficou esquecido no tempo, o velho estádio do Atlético de Madrid foi terraplanado e agora existirá por lá, se a probabilidade estatística não me falhar, uma pitoresca mistura de lojas que terá a sua âncora numa cadeia de roupas de má qualidade, coadjuvada pela infalível trilogia "supermercado-loja de bricolage-boutique Nespresso", dizia-nos Paulo Futre, em resumo, "sou português, caralho", isto com grossas lágrimas correndo expeditas e é disto que vos falarei nos tempos mais próximos, da minha própria visão do que é ser português, caralho.

03 março 2021

Pequeno ritual para me desconectar da vida real

Tirar o relógio e colocá-lo na consola central, aliviar o nó da gravata, abandonar o telemóvel no banco traseiro, escolher entre Don Giovanni (se a hora de sair for antes das oito da noite) ou Carmen (se for depois) para me acompanharem nos cinquenta minutos que demoro a chegar a casa.

02 março 2021

Em verdade te digo, Ruben Patrick

Evita as mulheres Barca Velha, Ruben Patrick, são aquelas que reservarás para uma ocasião especial que adiarás sempre, evita também as Château Lafite, lamentarás eternamente serem demasiado caras para o tempo que duram, não te aventures com as Casal Garcia, são as que jamais te atreverás a aconselhar numa reunião de comissão executiva, não escolhas em nenhuma circunstância as Papa Figos, são competentes mas não te lembrarás delas no dia a seguir, escolhe sempre as mulheres Cartuxa, valem o que custam e não envelhecem mal.

25 fevereiro 2021

O livro

O primeiro livro de pessoas crescidas que me ofereceram, li-o pela primeira vez numa casa de férias que tínhamos à altura, num terraço virado a nascente, com vista para a serra, naquele tempo usava-se ler livros sem mais distrações, não havia músicas de fundo nem telefones a dar nota de mensagens novas, o livro tinha um marcador que era um recorte de jornal com uma notícia de jogo de futebol, contas feitas o livro acompanhou-me por sete casas diferentes, nas três últimas já sem o marcador original, esse ficou algures num empréstimo do livro. Recomecei a lê-lo ontem.

24 fevereiro 2021

O problema, Ruben Patrick,

... é que esperamos sempre que elas dancem como na cena da dança de "A Bela e o Monstro", os passos previsíveis, a condução é a nossa, e depois, na vida real, elas são como na cena de dança de "Pulp Fiction" e está armado o sarilho.

17 fevereiro 2021

E agora uma coisa completamente diferente

Meus caros amigos que proclamais que isto da pandemia é coisa inventada, isto são os donos do mundo a meter-nos medo, já os nazis faziam isto, que me convidam a libertar-me destas correntes que me privam da minha liberdade, em verdade vos digo que concordo já com as vossas teorias se me prometerem que, primeiro, vão ali dar uma espreitadela aos contentores frigoríficos do hospital mais da vossa conveniência, há muitos por esse país fora, fazem um fresquinho muito bom, não me perguntem como sei eu destas coisas, basta-vos acreditar que sei, abram uns saquinhos pretos que lá estão e espreitem para dentro, que, segundo, me prometem que, em caso de o vírus ser mesmo verdade, notem que isto é apenas uma hipótese, mas, em caso de ser verdade e vos toque, caso os meus caros comecem a ficar sem paladar ou com uma constipaçãozinha mais forte, que não entrem em pânico e fiquem em vossas casas, sossegados, sendo consequentes e não se deslocando a nenhum serviço público que eu esteja a pagar, aguentando forte e esperando que passe e, terceiro, se eu souber que os meus caros andaram por ai à solta, estando com a tal constipaçãozinha, e pegarem o mal a alguém cá da minha predilecção, eu vos possa sodomizar ou pedir a um amigo meu nigeriano que vos sodomize, dependendo dos casos. Vamos a isto?

(lembrei-me disto no dia em que se finou a mãe de uma boa amiga, dessas que se fotografa sem máscara e a seguir proclama o seu excêntrico conceito de liberdade, e a minha amiga informou-me que a mãe se finou por causa de uns problemas respiratórios desagradáveis e umas queixas de ter perdido o olfacto, nada a ver com Covid)

16 fevereiro 2021

Em verdade te digo, Ruben Patrick

 No dia em aceitarmos, Ruben Patrick, que as escolhas das mulheres são sempre as certas, ainda que nos pareçam bizarras, ainda que não alcancemos o seu brilhantismo, ainda que nos perguntemos como raio irão funcionar, quando esse dia acontecer, Ruben Patrick, dominaremos o mundo. 

15 fevereiro 2021

No cinema, tal como na vida

Longas horas de cinema ensinaram-me que existe um padrão, uma previsibilidade que me faz antecipar o fim do filme só pelos quilómetros de celuloide que me passam pela vista todos os anos, sei que o amigo do herói morre sempre nas alturas em menos jeito dá, as reanimações nunca funcionam no tipo bom e funcionam sempre no tipo mau, sempre que o tipo bom se comove e dá alguma vantagem ao tipo mau acaba sempre por ser atraiçoado, o tipo que manda realmente é o impulsivo e que ganha ao poker, apesar de o chefe ser o tipo que cumpre as regras e é bom pai de família, o tipo racional desmancha-se sempre no fim, resolve mostar o lado emocional e acaba por estragar tudo.

11 fevereiro 2021

O homem colapsado

 Vejo as imagens de Sérgio Conceição a seguir a cada momento de falha e espanto-me com o colapso, já vi muitos homens e mulheres colapsarem, uma palavra mal medida, um amor impossível, uma perda irreparável, e é sempre definitivo, colapsam e não são mais as mesmas pessoas, regressam diferentes, quando regressam, mais frágeis e menos confiantes, colapsar é coisa de não retorno, Sérgio Conceição não, colapsa diante dos nossos olhos, recebe a nossa vergonha alheia, adivinha que mudamos de canal por pudor e, mesmo assim, Conceição regressa como se não lhe importasse a nossa pena, indigno do nosso gesto de olhar para o lado para não ver, e ele a colapsar de novo na semana a seguir, e nós a ter que ver, outra vez.

10 fevereiro 2021

Dos dias em que percebemos que nem sempre as coisas são como deveriam ser

 Perdemos sempre primeiro as melhores pessoas, os que abrem o melhor vinho quando nos recebem em sua casa, os que nos valem nas alturas em que mais precisamos de ser levados às costas de alguém, as que nos aconselham sempre da forma mais capaz, as que nos aparecem ao caminho ainda antes de sabermos que vamos precisar deles, as que sabem dos melhores restaurantes, dos melhores livros e dos melhores mares para mergulhar.

09 fevereiro 2021

Das corridas e outras situações

 E lá seguia eu a bom ritmo, não naquele ritmo a que corremos à beira mar quando estamos certos de que os mulheres que contam nos observam a passada nem naquele ritmo a que corremos quando almoçámos iscas à portuguesa precedido de morcela de sangue frita, tudo acompanhado por um Callabriga de 2016, enfim, um ritmo adequado às circunstâncias da chuva de frente, do chão de lama, cantando alto uma dessas canções que se cantam quando queremos chegar mais depressa a casa, tomar um duche quente e fazer meia hora de meditação, quando, precisamente depois de ver a família de javalis atravessar o caminho, fazendo de conta que eu não estava ali, dei pelo cão a rebolar-se no caminho, esfregando o focinho na terra molhada, sufocando, lá lhe abri a boca, retirei o pedaço de madeira que, perfeitamente encaixado na dentadura cimeira o atormentava, lá seguimos caminho, o cão feliz, com a bocarra aberta, sorrindo por ter escapado a mais esta, eu pensando que às vezes o universo se encarrega de estarmos no sítio certo à hora certa e que isso, mesmo que nos prejudique ritmo da corrida, não é uma má coisa.

04 fevereiro 2021

Mas não

 Talvez as coisas se compusessem se jantássemos no Eleven e fôssemos a seguir ao Teatro, podia ser o Meridional, acabaríamos a noite no Lux e no dia seguinte havíamos de apanhar o avião para o aeroporto mais próximo das Cinque Terre, ficaríamos lá um par de semanas, nadando no mar da Ligúria e bebendo vinho tinto naquela pizzeria de Riomaggiore, regressaríamos de carro, ouvindo Miles Davis e a Carmen de Bizet em sessões contínuas, havíamos de chegar a tempo de jantar no Eleven e, a seguir íamos ao teatro.

03 fevereiro 2021

Compensações

 Não fosse isto de trabalhar sem estar lá, onde as coisas acontecem, e não teria sido possível ir à horta, descalço, para sentir bem a terra húmida de chuva da noite, à uma da tarde, havia de regressar com meia dúzia de folhas de alface frisada numa mão e o focinho molhado de um cão preto e grande na outra, também não teria sido possível acabar às dez da manhã um livro desses que só faz sentido serem lidos em dias de inverno.

02 fevereiro 2021

Retomando uma velha tradição

No dia seguinte a aviarmos o Benfica fico mais introspectivo, há toda uma paz que desce dos confins do universo e me aconchega, de repente tudo parece mais suportável, fico mais disponível para me deslumbrar com a minha romãzeira, tão elegante, ao mesmo tempo tão franzina e tão capaz de se aguentar com o peso de romãs de meia arroba, Gonçalo M. Tavares torna-se quase apetecível de ler e dou por mim a trautear músicas de Mika e a preparar chá de frutos vermelhos, fico mais disponível para me perder de amores com cãezinhos das redes sociais e quase me apetece mandar um miminho às influenciadoras, aquilo é uma vidinha que não deve ser fácil para ninguém

01 fevereiro 2021

Quatro

 De repente tive vontade de voltar à India, tive saudades de sentir que tudo o que sei de nada me valer, de ter o meu mundo de pernas para o ar e estar tudo muito bem assim.