14 outubro 2020

Fronteira

Sei precisamente quando me apaixonei pelas aldeias da raia, foi no tempo em que li os Novos Contos da Montanha e tive vontade de ler “Fronteira” duas vezes seguidas, a beleza do guarda republicano a mudar de vida, aconteceu-me agora nestas férias por lugares lá longe decidir ir a essa Fronteira de Torga e esbarrar com a triste realidade, não existe nenhuma Fronteira nas terras da raia, muito menos existe um austero castelo de Fuentes, há uma Fronteira para os lados de Sousel e um castelo de Fuentes em Palência, nem um nem outro na zona da raia, e, pior, de Fronteira não se vê o castelo de Fuentes e vice-versa, assim destrói Torga o encanto das coisas simples, que são um homem decidir-se, muitos anos depois, a um lugar que o fascinou, um desses sítios onde um homem chega, olha em redor, pensativo, e diz “sim senhores, foi precisamente por estes caminhos que o Valentim e o Sabino se esgueiraram”, acabei em Marvão, que sempre é terra da raia, as coisas são como são. 

09 outubro 2020

A importância de se chamar Anselmo

 Don Anselmo, o melhor assobiador de todas as lezírias, isto segundo afiança o próprio depois de encomendar uma mini ainda antes das oito da manhã no estabelecimento onde servem café da marca Camelo, o meu favorito, Don Anselmo, dizia eu, fala alto, aquele falar alto dos guardadores de certezas e dos que sabem que poucos desafiarão os seus saberes, afinal Don Anselmo é homem para quase dois metros de altura e toda a gente sabe que, para além de melhor assobiador das lezírias, Don Anselmo conduz gado bravo como ninguém e não são poucas as histórias de homens cuja fanfarronice não sobreviveu a duas lambadas bem assentes, cortesia da mão calejada de Don Anselmo, que dizia para quem o quisesse ouvir, ainda não eram oito da manhã, que o que pagava a mulheres da vida não era para elas lhe proporcionassem um bom bocado de festa rija, pagava para que elas se fossem embora a seguir. 

16 setembro 2020

Resumindo

 Filmamos a performance dos que se esqueceram de desligar a câmara em vez de os avisar do deslize, olhamos de viés para os mais velhos que, atrevidos dos velhotes, estão na rua em vez de estarem a ver o programa das televendas, batemos palmas aos da saúde mas evitamos sentar-nos ao pé deles, que isto nunca se sabe, tanto tempo passado no hospital com tanta bicheza pelo ar, deitamos a culpa à miudagem, sempre em festarolas e a beber cerveja depois das oito da noite, amedrontamo-nos com o teatro mas não nos importamos com a fila da loja irlandesa de roupa ruim, reclamamos baixinho do jantar da família do vizinho do quinto esquerdo, onze pessoas à mesa, uns inconscientes.

Isto da pandemia está a fazer de nós uma boa merda de pessoas.

02 setembro 2020

E tu, qual seria a tua palavra de chamada?


O problema de Run, aquilo da HBO que toda a gente de bem anda a ver, em vez de ler bons livros, é que aquilo que parece uma boa ideia, receber uma mensagem de um amor antigo a dizer Run e, caso optemos por responder também Run o protocolo é avançar para a estação de Santa Apolónia e apanhar um determinado comboio que partirá a determinada hora para determinado lugar, parece coisa boa, a aventura, a selvajaria prestes a acontecer,  a adrenalina, o problema, dizia eu, é que eram capazes de não passar da estação de Vila Franca de Xira, os amores que ficaram lá atrás tendem a cristalizar, ninguém envelhece nem diz más piadas, ninguém tem peso a mais nem cabelo a menos, acabamos por nos recordar só dos mergulhos em praias desertas e dos bancos de velhos Ford Escort, não há senão calças Levi’s 501 e t-shirts dos Nirvana, ninguém se lembra que já não seriam as mesmas pessoas e isso, parecendo que não, faz toda a diferença.

22 agosto 2020

Coisas mesmo boas

 O charme dos velhos hotéis de província, com senhoras antigas a servir o pequeno-almoço, que se demoram a saber de onde vimos enquanto nos servem mau café.

A Queijaria Manteigas, um desses casos de pessoas a quem a pandemia empurrou para a montanha, sorte nossa que temos quem nos sirva vinho a preço decente e bom queijo a acompanhar pão mesmo a sério.

A estrada que vem da Nave de Santo António para Manteigas e que à noite nos faz lembrar que afinal ainda gostamos de conduzir.

Sinos de igreja às sete da manhã.

As estrelas vistas do café da nascente do Côa, depois de um gin a desoras.

O museu de Aristides Sousa Mendes, em Vilar Formoso.

18 agosto 2020

A viagem grande possível

Viajar só por estradas nacionais, ligar para uma rádio local, dizer a frase, pedir uma música de Augusto Canário e eles passarem mesmo a música, ficar num turismo rural com a pior decoração de sempre mas com uma proprietária tão simpática que nem apetece dizer nada sobre as senhoras de Fátima e as colchas padrão tigre, verificar que o Audi Q7 é o novo Opel Calibra dos nossos emigrantes, não saber os números do Covid de ontem nem os do Brent de hoje, não fazer ideia de onde vou dormir amanhã, adormecer cansado, deliciar-me com os emigrantes que falam francês entre si quando não querem que se perceba o que dizem, como se usassem um dialeto das tribos perdidas do Borundi, cumprimentar as pessoas na rua e elas responderem.

Uma coisa nova por dia

 

17 agosto 2020

Ainda agora, na judiaria

 “O que é uma sinagoga?”, perguntou a rapariga dos óculos de marca italiana. “É uma igreja, mas de outra cultura “, respondeu o homem com um símbolo de um cavalheiro a jogar polo bordado na camisola.

09 agosto 2020

Muitos anos depois, diante da limitação do confinamento, Pipoco Mais Salgado havia de recordar aquelas tardes remotas

 Bem podemos caminhar no carreiro que liga as Cinqueterre, beber um trago de vinho de palma em São Tomé, sentir no corpo o morno das águas do Índico, desafiar os cumes dos Alpes ou caminhar com tempo em Central Park, o Santo Graal das férias, aquilo de que estamos sempre a correr atrás sem nunca mais o conseguir repetir, são as férias com livros de Enid Blyton lidos à hora do calor, fazendo tempo para ir ao rio numa bicicleta sem travões, roubando figos e uvas pelo caminho e regressando felizes ao pôr do sol, mesmo a tempo de a nossa avó nos preparar o nosso jantar favorito, recomendando-nos que não comêssemos melancia à noite, o dia seguinte seria igualzinho e não havia nenhum problema nisso.

08 agosto 2020

Os efeitos mais nefastos do confinamento, Ruben Patrick...

 ...encontramo-los no areal, à vista de quem não consegue desviar o olhar a tempo.

06 agosto 2020

Talvez a melhor forma de amar uma mulher, Ruben Patrick,...

 ...seja preparar-lhe um pequeno-almoço a sério, cozinhar com altruísmo, com generosidade, levantar cedo e escolher as melhores laranjas da laranjeira pequena e espremê-las com as tuas mãos, sentindo o orvalho fresco da noite na casca, aspirando o aroma cítrico, depois o pão, um bom pão de mistura acabado de cozer a lenha, em sendo época colhe uns morangos pequenos e apanha amoras selvagens, depois faz uma boa omeleta, perfeitamente cozinhada, uma omeleta com queijo da ilha de São Jorge, finalmente, Ruben Patrick, leva-lhe o fruto do teu labor e do teu tempo à cama, acorda-a afastando-lhe os cabelos do rosto, ela sentirá o odor da boa comida e há-de perguntar-te se por que não lhe trouxeste iogurte magro e tostas integrais

28 julho 2020

A que cheira a tua cidade?

O cheiro de Dublin é relva acabada de cortar e o Madrid cheirará sempre a Ducados sem filtro, Paris cheira ao que cheirar o Sena e Nova Deli cheira a caril, San Sebastian cheira a uma mistura de pimentos assados e barcos de pesca, Roma cheira a café curto e a Suiça cheira a estrume de vaca.

Lisboa cheira a refogado, um cheiro antigo de cebola, azeite e louro.

21 julho 2020

Podes...

... chegar deslumbrante num conjunto clássico Dior, podes olhar-me nos olhos enquanto me explicas o que te fascinou no último Tarantino, podes encostar a tua cabeça no meu ombro enquanto ambos seguramos um bom Bordéus, podes falar-me de Bach e de Boticelli, de Mayra Andrade e de Jorge Palma, podes perguntar-me por terras que não conheces e recantos onde fui razoavelmente feliz, podes confiar-me segredos enquanto eu cozinho o meu melhor risotto.

Mas, por quem és, não estragues tudo apaixonando-te por mim.

13 julho 2020

E se Deus?

E se Deus não estiver no inexplicável, no pôr do sol na linha do horizonte, nas forças que pensávamos não ter, na doença que afinal se cura, no cimo da montanha acabada de subir, no pormenor que nos desvia do mau caminho no último momento, na grandiosidade que nos atinge no meio de um oceano?

E se Deus estiver nos livros?