16 julho 2021

Mais logo

Se eu me posicionar na relva fresca com o corpo deitado numa hipotenusa entre as linhas imaginárias da figueira ao sobreiro e da figueira à macieira, às onze da noite terei a ursa maior exactamente por cima de mim, se me apetecer encontrar o norte, que não apetece,  é contar seis distâncias das guardas e lá está, onde sempre esteve, a estrela polar, o som de fundo é dessas noites de estio sem nortada, cortado por uma ou outra coruja, cheira a uma mistura de resina e lavanda, à distância da minha mão direita tenho um copo de Jameson, ao alcance da mão esquerda a cabeça do meu cão grande, se isto não é o momento perfeito, então não sei nada de momentos perfeitos. 

15 julho 2021

Em verdade te digo, Ruben Patrick

Se um dia te apetecer apresentares-te a elas sem malabarismos nem cartas na manga, Ruben Patrick, coisa que, estou certo, jamais se te afiguraria ideia vencedora, mas, por redução ao absurdo, se tal bizarria te ocorresse como sendo de valor, só tu e as tuas fraquezas, os teus medos, a admissão do que não sabes, enfim, sem defesas, só a tua essência, a ideia de aquilo seres tu, veste um desses coletes que servem para que te passem desses tratores de rodas grandes, os das pedreiras de Carrara, ou então qualquer coisa que te proteja dos piores ácidos, desses de pê-agá inferior a um, porque elas não te perdoarão a ousadia de não as iludires, de nada trazeres que as entretenha, considerarão uma desconsideração não teres trazido ao menos um número de circo, umas palavras de sentido dúbio, um truque desses de cartas na manga, enfim, alguma coisa que demonstre que te preparaste em condições, que pensaste nelas a montante.

11 julho 2021

Chegamos sempre tarde à vida das pessoas

"Tentamos mostrar-nos amáveis e gratos e inteligentes, e merecemos uma palmada nas costas - do nosso amor um beijo ou aquilo que costumava vir a seguir a este, ou pelo menos um olhar que prolongue um pouco mais a esperança -, e não percebemos como é que existem indivíduos estridentes ou bisbilhoteiros ou deficientes ou muito limitados que, aos nossos olhos sem merecimento algum, obtém gratuitamente aquilo que a nós nos custa tanta inventiva e tanto brio e tanto alerta. É frequente a única resposta ser o facto de essas pessoas virem de antes, de nos precederem desde há muito na vida do amor ou do amigo ou do mestre; ignoramos aquilo que se forjou entre elas e talvez o ignoremos para sempre; percorreram muito caminho juntas, quiçá sujando-se na lama, sem que nós estivéssemos lá para as acompanhar nem presenciar. Chegamos sempre tarde à vida das pessoas"

In "Assim começa o mal", de Javier Marías

10 julho 2021

Em verdade te digo, Ruben Patrick

 De todas as coisas importantes que deverás saber sobre mulheres, Ruben Patrick, a mais importante é que saibas que há ocasiões em que elas chegam, como se estivessem de passagem, e quando dás por isso elas ocuparam espaço vital, como se fosse por usucapião, e não há maneira fácil de as convidar a sair, é por isso, Ruben Patrick que este ensinamento é dos que deves reter, nunca se deve deixar entrar uma mulher nos teus pensamentos, nem um único dia, a menos que estejas disposto a que fique para sempre.

(claramente inspirado na página duzentos e um de "Assim começa o mal", de Javier Marías)

03 julho 2021

Come chocolates, pequena; Come chocolates!

Foi o que me pareceu que diziam os pais da miúda redondinha que seguia à minha frente na fila das compras, enquanto aceitavam embevecidos tudo o que a miúda redondinha lhes estendia com as mãozitas gordas, refrigerantes variados, uns cereais achocolatados, duas bolas de Berlim, a miúda redondinha com os olhitos atentos às prateleiras, em estado de alerta como se a sobrevivência semanal dependesse das provisões que conseguisse colocar no carrinho de compras, os pais sorrindo e aceitando o que as mãos da miúda redondinha lhes estendiam, felizes com o poder de decisão da miúda redondinha, e eu, que sou uma pessoa muito influenciável, lá fui devolver o Häagen Dazs Cookies&Cream que me acompanhariam os resumos dos jogos do europeu.

25 junho 2021

Asas servem para voar

Quando se escolhe não chegar depressa e se usa a velha estrada para o Sul, a que atravessa a serra, bem entendido, a cada vez o caminho é único, por mais vezes que se faça a estrada velha ela nunca é igual à última vez, quer se faça de prego a fundo e com a electrónica desligada para que nunca nos esqueçamos de como se conduz, ou devagar, com uma sonata para piano a marcar o compasso e com os vidros abertos a deixar entrar os ares secos que fazem apetecer uma cerveja fria à chegada, as estradas que se fazem devagar são como aquelas ocasiões em que mulheres raras encostam a cabeça no nosso peito e é só aquilo, sem agitações nem promessas que ninguém vai cumprir, apenas uma mulher com os olhos fechados no nosso peito, sem defesas nem truques.

24 junho 2021

Do sul

 De todos os protocolares afazeres destes dias de Sul,  o jantar com os amigos que vivem na serra e de onde regresso noite alta com a lua cheia por estradas que me fazem ter saudades de um velho carro italiano que já não tenho, o gin tónico no restaurante que fica onde acaba o Guadiana e se observa o melhor fim de dia do Sul ou os dias feitos de mar e livros, o que mais me afadiga é o lendário almoço anual chez Don Gigi, o protocolo de atravessar a ponte de madeira, a curiosidade de saber que árias serão cantadas, a certeza de o peixe chegar no ponto certo de grelha, a conversa sobre o que a vida nos oferece de bom, afinal o assunto maior das nossas vidas.

10 junho 2021

Adolfo Dias

Adolfo Dias, de seu nome de baptismo Adolfo de Meirelles, renomeado pela lei da rua para lhe fazer justiça e celebrar os feitos, já que, em movimento contrário ao de Zé Alexandre, bem se podia gabar de ter alguma coisa a ver com o debute nas artes do amor das vizinhas das redondezas, era aquele género de rapaz de quem cedo soubemos que vida lhe iria calhar desde o dia em que o vimos chegar ao Charles Lepierre para jogar à bola e o vimos descalçar uns formosos sapatos castanhos com atacadores e tirar do saco de desporto uns ténis, ou sapatilhas para quem é lá de cima, da marca Le Coq Sportif, em azul, e quando comentámos que era a marca da selecção de futebol de França, Adolfo Dias nos informou que era a marca que calçava Yannick Noah, velha lenda do ténis, que só não era o meu favorito porque nesse tempo jogava ainda Ivan Lendl, um homem que chega de sapatos de atacadores, calça uns Le Coq e sabe quem é Yannick Noah tem tudo para vingar na vida, e vingou, Adolfo Dias trabalhou de barman em barcos de cruzeiros nas Caraíbas, isto no tempo em que Tom Cruise nos fazia sonhar com malabarismos de copos e cocktails tão exóticos que nem sequer se viam no Bora-Bora nem no Tangaroa, duas casas ali para os lados do Técnico onde se levavam as namoradas na primeira saída, dizia eu que Adolfo Dias cedo começou a ganhar a vida em barcos de cruzeiro, enamorando-se perdidamente por senhoras mais velhas, digamos que bastante mais velhas, dizendo a quem não lhe perguntava que amealhava para estudar nos States, como ele dizia, mas esbanjando forte e acabando como motorista de Uber em Perth, na Austrália, de onde me dá sinais pelo menos uma vez por mês, mostrando-me a boa vida que leva mas dizendo que eu é que a sei toda, que ele sempre soube a vida que me havia de calhar.

05 junho 2021

Zé Alexandre

 O Zé Alexandre era um daqueles tipos a quem acontece todas as vizinhas das redondezas iniciarem-se nas artes do amor e ele não se poder gabar de ter alguma a coisa a ver com o processo, andávamos nós a esforçar-nos por trabalhar à noite num bar de praia que nos pagasse a volta pela Europa de comboio em Agosto e o Zé Alexandre a carregar caixotes de fruta no mercado antes das seis da manhã, uma coisa sem jeito nenhum mas que estranhamente lhe garantia ser sempre o primeiro, quase sempre antes de Março, a comprar o bilhete de inter-rail, disse-lhe um dia, quando ele se escapou no último dia de escalada na Suíça para comprar umas botas de montanha em condições que substituíssem uma lendárias botas de trabalhar nas obras com que ele tinha arriscado duas semanas ficar sem dedos dos pés, e nunca mais chegava de comprar as botas e quase nos fez perder o comboio para Paris, tendo que se mudar em Berna, disse-lhe, dizia eu, as sábias e sobranceiras palavras "Zé Alexandre, daqui a dez anos estarás a viver em Massamá, num rés-do-chão de onde verás o pessoal mijar à noite na parede do teu prédio, com um Fiat Uno azul cobalto comprado em segunda mão estacionado à porta e com Lava-me Porco escrito a dedo no vidro traseiro, sairás de manhã para trabalhar na propaganda médica ou num balcão de um banco, terás duas semaninhas de férias no Inatel de Ferragudo, ou lá onde é qua há Inatéis, onde andarás todos os dias de calções de jogar à bola e uma camisa às riscas, de manga curta, terá dois filhos, um vai-se chamar Fábio e à miúda chamarás Soraia".

Enganei-me bem.

04 junho 2021

Das coincidências

Eu, que não creio em coincidências, quando elas acontecem mesmo e não são uma manipulação bem encenada tendo sempre a atribuir-lhes alguma coisa de místico, um cruzamento sobrenatural de situações inexplicáveis que se encontram no tempo, mas ontem aconteceu mesmo uma dessas coincidências, um desses acasos que ficamos sempre a pensar que são coisa lá do grande algoritmo, estava eu em ambiente de franca confraternização com amigos de poucas exigências, servi-me de gin Gordon's, era o que havia, nem meia hora passada apareceu na confraternização uma velha conhecida que, num tempo muito lá ao fundo, me ensinou coisas variadas, a mais importante das quais foi que havia vida para além da beberagem inventada pelo senhor Alexander Gordon e eu, que não creio em coincidências, fiquei a cismar com tão perfeito alinhamento de situações.

02 junho 2021

Eu...

... que depois de um terceiro gin já dancei como o Travolta no Pulp Fiction, que já agarrei uma mulher pela cintura como o Di Caprio na proa do Titanic, que já apresentei um cão ao mundo como o macaco apresentou Simba no Rei Leão, que já perguntei a um homem que mandava mais do que eu se ele estava a falar comigo como o De Niro em Taxi Driver, que digo várias vezes por semana Mostrem-me o dinheiro como o Cruise em Jerry Maguire, que já cantei à chuva como o Gene Kelly em Singin' in the Rain, que já rasguei páginas de relatórios inúteis como o Robin Williams em O Clube dos Poetas Mortos, que já fiz propostas irrecusáveis como o Marlon Brando em O Padrinho, ...

...nunca me aconteceu ver uma mulher cruzar as pernas como a Sharon Stone no Basic Instinct.

01 junho 2021

Às vezes chegam notícias

Chega-me a boa nova de os meus bilhetes para o espectáculo de John Cleese serem válidos para Junho de 2022, ora , sucedendo que eu já nem sequer me lembrava de ter ser proprietário de dois bilhetes para John Cleese, caiu-me bem a notícia, agora é esperar que John Cleese colabore...

A única coisa que interessa saber

 O teu cheiro, ainda é o mesmo?

31 maio 2021

Quatro e meia

Que importa se são quatro e meia, põe-te a pé, está certo que não há voos das sete para não perder, agora quase não fazes voos das sete, na verdade nem das sete nem nada, mas quatro e meia é uma hora tão boa como outra qualquer, avança, sempre despachas dois episódios do "Método Kominsky", temporada três, antes do sol nascer, depois escolhes correr o caminho para poente, terás o sol de frente na volta, talvez te ajude a decidir se é desta que compras o barco a remos para aproveitar melhor a barragem em fim de dia, ou então lês o que te falta dos livros que tens meio lidos e espalhados pela casa, afinal parece que vais ler um livro de respeito, é melhor enfrentá-lo sem contaminação, em não te apetecendo correrias com o cão ao lado, podes decidir por sentar-te em posição de flor de lótus e deixar que nada mais importe senão respirares, podes escolher uma voz que te guie e que invariavelmente te sugira, sem impor, que os teus pensamentos se passeiem pela empatia e pela quietude, desistirás ao fim de trinta segundos, bem-entendido, e escolherás afinal a correria, não há nada pior que os teus pensamentos deambulem por verdes prados e por terras de leite e mel, são sete da manhã, o tempo passa a correr, prepara um bom sumo das tuas laranjas e selecciona a Bartoli, não há melhor combinação do que Bartoli e sumo de laranja, isto tirando bola e bifanas ou imperial com camarão da costa.


(inspirado pela Flor e pela Susana, que não vislumbram a beleza que há em acordar às quatro e meia)

30 maio 2021

Em que seu pai o levou para conhecer o gelo

 Às vezes, quase nunca, falham-me todas as artes da fuga e não tenho como escapar, eu e a flute de champanhe a ter que ficar até ao fim, felizmente não me falham as palavras, valha-me deus, continuam a ocorrer-me as mais adequadas às circunstâncias.

29 maio 2021

Havia de recordar aquela tarde remota

Estou prestes a abalar para o Sul, faço-o como as abetardas ou os flamingos, ou lá como se chama a passarada migradora que volta todos os anos, excepto nos anos de pandemia ou nos anos de viagens grandes que calham na mesma altura em que me sabe bem o Sul, um par de anos são muitos anos, bem sei que hei-de estranhar o que mudou, talvez o bar onde se via a bola esteja fechado, talvez Don Ramiro não esteja lá para me perguntar se prefiro lingueirão ou ventresca, talvez o mar não esteja tão batido pela ventania de sotavento, talvez os livros sejam mal escolhidos porque me faltará a feira de Junho, mas, em verdade vos digo, estão próximos os dias em que a melhor parte é ter demasiado tempo.

28 maio 2021

Diante do pelotão de fuzilamento

 Da mesma maneira que as famílias felizes se parecem todas umas com as outras e cada família infeliz é infeliz à sua maneira, os amores que realmente contam são os que estão sempre revoltos, as pazes sempre  por fazer, os outros, os da lareira acesa e cafunés, os de mantinhas e mau cinema, os de suspiros e concórdia, soam-me todos a música de elevador e a bacalhau com natas.

27 maio 2021

Muitos anos depois

Um dia, há demasiados anos, perguntaram-me por que nunca me despedia com lágrimas ou, pelo menos, com a voz entrecortada e as palavras a saírem a custo e eu fiquei de pensar nisso, disse-o com aquela convicção com que se diz a alguém que não estimamos por aí além que um dia destes havemos de ir jantar, afinal descobri que me despeço sem lágrimas nem voz entrecortada porque sei que havemos de nos encontrar lá à frente, num acaso cuidadosamente preparado.

17 maio 2021

Estava aqui a pensar...

... que o melhor da pandemia foi nunca mais se ter visto por cá nem o Riverdance nem aqueles tipos do Harlem Gospel Choir, embora estes só viessem por alturas do natal, a boa notícia era que estávamos avisados e podíamos sair da cidade a tempo, mas realmente, o que eu queria dizer é que hoje apertei a mão a um homem, um aperto de mão mesmo a sério, nada dessas bizarrias de encontros de punhos ou de cotovelos, um aperto de mão em que dois homens se olham nos olhos e apertam a mão com firmeza, coisa de serem pessoas em quem se pode confiar.