05 fevereiro 2020

Ontem, numa área de serviço

A agente da autoridade que me interroga com severidade pergunta-me primeiro pelo nome de pai e mãe, tenho um momento de pânico, espero que a agente não se vá queixar de mim a nenhum deles, não me apetece que os meus pais fiquem em cuidados por causa de temas que envolvem agentes de autoridade, a seguir pergunta pela minha profissão, resisto a dizer o que realmente faço, a autoridade não havia de gostar que eu respondesse “contador de histórias”, apesar de ser a mais pura das verdades, preferi dizer o que está escrito nos papéis da escola, a agente da autoridade distende-se, quase sorri, partilha que é a profissão que o seu filho vai escolher, eu incentivo, digo que é uma bela profissão, omito apenas que ser contador de histórias é muito melhor.

04 fevereiro 2020

Post em tempo real

O homem com voz de Shrek, versão portuguesa, tortura-me com a sua visão pouco sustentada de carbono zero, explica-me processos que eu, que ainda me lembro dos rudimentos da termodinâmica, sem fazer muitas contas sei serem impossíveis, recorro então ao meu infalível e ancestral processo de, parecendo que não, desligar, e visualizo pistas de boa neve, intermináveis, percorridas com uma versão interminável de uma qualquer música de Herbie Hancock, de repente o homem com voz de Shrek, versão portuguesa parece-me mais suportável, sorrimos os dois enquanto apertamos as mãos, ele convencido de que temos negócio, eu agradecendo-lhe estes minutos de coisas imaginadas, ambos havemos de nos recordar disto logo à noite como a melhor coisa do nosso dia.

28 janeiro 2020

Pipoco também recebe mensagens da internet e avisa as pessoas

Já Pessoa nos dizia que recolhia as pedras que encontrava no caminho para a seguir construir um castelo, é bem visto, mas do que vos queria falar era de um negócio mesmo a sério, vejam lá que existe um príncipe na Nigéria que não consegue tirar de lá o dinheiro, coisa para centenas de milhões de euros, metade da massa é nossa se o ajudarmos, o príncipe está por tudo, e  ficar com metade do dinheirame é melhor que nada, basta fazer uma transferência de cinco mil euros para despesas de expediente e é esperar por metade da fortuna, isto se não acordarmos numa banheira de gelo com uma cicatriz na zona dos rins ou se não formos mordidos por uma cobra venenosa na banheira de bolas do Mc Donalds ou, sabe-se lá, se não nos sentarmos em cima de uma agulha infectada espetada numa cadeira de cinema, é ter cuidado, isto nunca se sabe para o que estamos guardados, é ver como o rapazito estava tão bem no alto das Torres Gémeas a tirar um retrato e já se vislumbra o avião que havia de mandar aquilo tudo abaixo, felizmente aquilo ainda eram máquinas de rolo e recuperou-se tudo nos escombros.

23 janeiro 2020

Vinil

Que eu saiba, e eu sei bastante, há muito que não aparece um bom blog novo, desses que me faziam pensar que sim senhor, ora aqui está uma coisa em condições, antes era fácil dar a conhecer um blog, inventava-se um nome razoavelmente tonto, pespegava-se um par de comentários pertinentes numa seleção de blogs que o cidadão com níveis exigência médio-baixo frequentava, uma Pipoca, uma Cocó, quiçá um Arrumadinho, e depois era esperar sentado pela vaga de fundo de sequiosos novos leitores que nos visitariam, ficando arrasados pela nossa escrita notável, pelo nosso sentido de humor superlativo, pelo suave perfume da nossa quase arrogância.

Agora, quisesse eu começar um novo blog, que não quero, e não saberia como dá-lo a conhecer.

22 janeiro 2020

Two down, four to go

Foi-se mais um dos que eu gostaria que nunca tivesse que ir.

Nem a taça da liga, senhores...

Alturas houve, e não foram poucas, em que este blog era uma espécie de garrafa com mensagem dentro, lançada ao mar na esperança que a pessoa certa a lesse. E era sempre lida pela pessoa errada, convencida que era a destinatária.

Não há coisa mais dramática que ler as mensagens que não se nos destinam.

05 janeiro 2020

Metáforazinha

Algures, lá para a primeira temporada, e foi aqui que a série me conquistou nesses tempos de antanho, Mrs. Draper acaba um episódio com um cigarro no canto da boca e a disparar uma caçadeira para os pombos do vizinho, a doce e quieta Mrs. Draper, num repente, por coisas lá dela e que lhe tocaram fundo, transfigura-se e torna-se uma mulher diferente, poderosa e capaz de derrubar quem quer que ousasse desafiá-la.

No episódio seguinte já Mrs. Draper tinha voltado ao normal, está claro.

03 janeiro 2020

Cá vamos andando, com a graça de deus


Comecei o ano com uma embrulhada de todo o tamanho, uma coisa que nem a benfazeja  mistura de um jantar acompanhado a Mirabilis grande reserva de 2017 rematado com Suntory Toki justifica, aconteceu que insisti que a cena do mendigo em laranja Mecânica era acompanhada pelo assobio que afinal era da entrada da enfermeira com pala no olho em Kill Bill, resta saber se o um ou o dois, quando afinal a cena de pancadaria ao mendigo é acompanhada nem mais nem menos que a Molly Malone, esse quase hino irlandês, são uma afronta estas partidas que certa parte do meu cérebro teima em pregar-me, isto de começar o ano com lapso tamanho não augura nada de bom, o pior é teimar na persistência do erro, uma vintena de cérebros menos potentes com o meu a tentar fazer-me ver a luz e eu a teimar, é por esta e por outras que já não me atrevo a fazer planos para o ano que entra, isto a não ser decidir ser imortal, lá está.

16 dezembro 2019

No seguimento da nossa conversa

Se algum dia viesse um arqueólogo de blogs e se dedicasse a saber quem aqui escrevia, era o autor  de poucas falas ou sempre disposto a dois dedos de conversa com a vasta audiência?, citava autores importantes para ilustrar o que queria dizer ou nem sequer queria dizer coisa nenhuma?, jantaria com o guardanapo dependurado do colarinho, cruzando as mãos sobre o vasto ventre e louvando o bacalhau assado enquanto palitava abundantemente as lascas perdidas nos interstícios dentais ou jantaria uma salada de tomate e uma sopa de legumes para evitar más noites?, apreciaria mais as sonatas natalícias de Bach ou as versões de cinema dos anos sessenta da vida de Jesus, que lhe diríeis?

15 dezembro 2019

Nos blogs é igual, Ruben Patrick

Repara tu naquela mulher ali sentada, Ruben Patrick, essa mesmo, a que tem cara de Leonor Silveira no cartaz de Vale Abraão, vai no segundo café e tem o telefone em cima da mesa, a cada dez segundos verifica se chegou alguma mensagem, todo o interesse que ela tem, tem-no por estar a três mesas de distância, por não ter nome, podemos imaginar para ela todas as qualidades, que sabe Borges melhor que eu, que vive sozinha numas águas-furtadas em Alfama e não perde nenhuma mostra de cinema francês na Cinemateca, viesse ela pedir-me lume e acabar por se sentar, aproveitando o Saramago que carrego, desejando saber pormenores, por qual dos Saramago lhe recomendaria iniciar-se, num instante havia de se apresentar com um nome, talvez dissesse "Cátia, prazer", havia de dizer onde morava, havia de ser sítio onde as águas-furtadas não são mágicas, havia de começar as frases por "é assim" e, quando finalmente chegasse a mensagem esperada, notaria num relance que quem lhe escrevia se anunciava como "Môr".

Um dia em casa, finalmente


09 dezembro 2019

Está sol em Cascais, hoje

"O método Kominsky" é provavelmente a melhor série que se fez desde "A balada de Hill Street", séries assim fazem falta a um homem da minha idade, parece que foi ontem que a Princesa Stephanie me sussurrava ao ouvido "Ouragon", directamente de um walkman amarelo, parece que foi ontem que me prestei a saber tudo o que havia para saber de COBOL, com "O Independente" ou o "Blitz" debaixo do braço, dependendo de ser terça ou sexta-feira, e cá estamos no tempo em que me assusto com a possibilidade de eu poder vir a ser um desses homens que bebem whisky com cola, convivem com a problemática da próstata e se esquecem de pagar impostos.

04 dezembro 2019

Feliz Natal para todos vós e para as famílias

Não creias que emagreces como a Alexandra não sei quê, que foi à nutribalance e em dois dias perdeu vinte e sete quilos, isto comendo o que lhe apetecia, não creias nos gurus que te fazem repetir em voz alta que tu tens direito a ser feliz e a ser o chefe e a jantar com a Raquel Vanessa, basta não te sair da ideia que tens direito a tudo isso, não creias que te bastam citações adequadas sobre o que disseram Mark Twain e Saint-Exupery, Ford e o tipo da General Motors, para brilhares em conversa de quebrar gelo, não creias que te basta uma tarde no Louvre e outra no Prado para que dissertes sobre génios da pintura renascentista, não creias que um fim-de-semana em Ibiza e outro em Sierra Nevada fazem de ti um viajante destemido, não creias que dez páginas de Ulisses e outras tantas de J Rentes de Carvalho farão de ti um literato, em verdade te digo, Ruben Patrick, escrever um blog como este dá uma trabalheira do caralho.

03 dezembro 2019

Toda a gente sabe que os miúdos irritados são uma maçada

Talvez me assentasse bem ter ido esperar a jovem Greta e lhe devesse ter dito que o que ela está a fazer é notável, a miudagem começa a sentir-se culpada a cada vez que sorve o refrigerante por uma palhinha quando está no cinema e começa a contabilizar a pegada carbónica de cada auto-retrato a fazer beicinho, não fosse a miudagem implicar com homens de bem por causa da cavalagem do motor do potente carro alemão ou questionar o uso do avião para as reuniões de Paris e estaria tudo nos conformes, mas não, à hora que a jovem Greta dizia coisas de valor inestimável estava eu a admirar o meu novo investimento numa fábrica de electrões, coisa um período de retorno muito para além da minha vida terrena mas que sempre me posiciona mais favoravelmente a cada vez que tenho que justificar cavalagens e idas e vindas a Paris no mesmo dia.

28 novembro 2019

Senta-te aqui à minha beira, Ruben Patrick

No dia em que discutires temáticas sensíveis com uma mulher e não te intimidares com os seus silêncios, quando resistires à tentação de os preencher com palavras tuas, quase sempre desadequadas, sempre em teu desfavor, quando conseguires que seja ela a não suportar o silêncio e a não resistir a quebrá-lo, nesse dia, Ruben Patrick, ganharás os seus favores para sempre. 

27 novembro 2019

Em verdade te digo, Ruben Patrick

A verdadeira ciência, nisso dos pesadelos, é saber acordar a tempo.

22 novembro 2019

Post em tempo real

A mulher com cara de Mia Khalifa, mas em bom, que está na mesa ao lado da minha, na mesma condição de quem espera que nos tirem da ilha ainda hoje, fala demasiado e demasiado alto com a amiga que não sei que cara tem porque está de costas para mim, a mulher com cara de Mia Khalifa, mas em bom, estraçalha a colega nova, obviamente ausente, concluindo que quem chega é que tem de se adaptar e passa num instante para a temática da casa nova que acabou de comprar, referindo por três vezes que a casa tem um hall de entrada gigantesco, elencando com entusiasmo as vantagens que uma casa com um hall de entrada gigantesco apresentam quando comparadas com casas com hall de entrada inferiores, eu, que não tenho livros para ler que aguentem tantas horas de atraso da aeronave que, dizem ao microfone, está com chegada tardia e, sei-o eu, ainda não saiu de Lisboa, eu, dizia eu, fico a matutar que raio de vantagens são essas do hall de entrada gigantesco e desce-me uma nostalgia dos tempos em que as velhinhas me perguntavam pelas portas de embarque dos voos para Palma de Maiorca.

20 novembro 2019

O mundo seria um melhor lugar se...

…os lugares que consegui para o John Cleese fossem mais jeitosos, não tivesse falhado Jorge Palma por causa de uma coisa que era muito importante mas afinal não, Paris estivesse mais sossegada lá para o fim deste mês, o Sporting me brindasse com uma vitória por alturas do jogo em que inicio o meu sobrinho nestas lides de ir à bola, os blogs fossem como os discos de vinil e voltassem um dia com o glamour de coisa em bom, os olhos do meu cão não brilhassem no escuro de maneira tão assustadora quando vamos correr à noite, Dona Júlia não tivesse insistido em mostrar-me retratos de tempos antigos estava ela num areal à beira mar, Jo Nesbo não se tivesse aventurado em avançar sem o fiel Harry Hole, as meias de Madame Palmier Encoberto não fossem como são.