17 maio 2021

Estava aqui a pensar...

... que o melhor da pandemia foi nunca mais se ter visto por cá nem o Riverdance nem aqueles tipos do Harlem Gospel Choir, embora estes só viessem por alturas do natal, a boa notícia era que estávamos avisados e podíamos sair da cidade a tempo, mas realmente, o que eu queria dizer é que hoje apertei a mão a um homem, um aperto de mão mesmo a sério, nada dessas bizarrias de encontros de punhos ou de cotovelos, um aperto de mão em que dois homens se olham nos olhos e apertam a mão com firmeza, coisa de serem pessoas em quem se pode confiar.

28 abril 2021

Sonhei com Lamborghinis roxos

O homem que vendia bolas de berlim à beira da autoestrada do norte, logo a seguir à saída de Aveiras sentido sul-norte, conhecia de vista o Fábio Coentrão, do tempo em que lhe orientava convites para a superior norte do estádio da luz e tinha um Ford Capri a gasolina que gastava quinze litros aos cem que só conseguia aguentar com um negócio paralelo de marcar golos de trivela no Sacavenense, mas só se fossem jogadas pelo corredor direito porque o homem que vendia bolas de berlim à beira da autoestrada do norte era esquerdino, quer dizer, não era bem, na verdade o pé direito tinha um estilhaço de granada, coisas dos tempos de boina negra na Guiné e o estilhaço, embora fosse bom para aviar com fratura exposta o defesa esquerdo adversário, prejudicava a trajetória em forma de curva de gauss, mas observada por uma rotação longitudinal de noventa graus, das trivelas, e foi por isso, e também por não lhe ter sido oferecida a oportunidade de sair com caução, que o homem foi preso, ele e um fornecedor de bolas de bolas de berlim de alfarroba, era o tempo em que estavam na moda porque se dizia que não engordavam tanto, isto se fossem sem creme, como é bom de ver, e tinha a polícia os dois facínoras em celas separadas, mas como não tinham artilhado a coisa de forma a apanhá-los em flagrante delito só os podiam condenar a seis meses de cadeia por um delito menor, mas não mais do isso, não os conseguiam condenar à pena máxima de cinco anos de cadeia, que é o castigo justo para quem vende bolas de berlim à beira da autoestrada do norte, a não ser que um deles confessasse o crime e é aqui que a polícia se lembra da solução, tecnicamente chama-se o dilema do prisioneiro e, consiste em apresentar o seguinte acordo a cada prisioneiro: em troca de uma acusação do parceiro, é-lhe concedida a liberdade e o parceiro leva com cinco anos de prisão mas se nenhum incriminar o outro a coisa fica em 6 meses para cada um, se ambos se incriminarem o resultado é uma pena de 2 anos para cada, ora a coisa acaba como tem que acabar, é assim a natureza humana, cada um escolherá incriminar o parceiro, as pessoas olham só para o seu problema e é por isso que cada um vai apanhar dois anos de prisão, sem cuidar de pensar que afinal a melhor opção era não incriminar o parceiro, fosse assim e estavam livres ao fim de seis meses, passa num instante, mas realmente o que vos queria dizer é que começo mesmo a acreditar que somos campeões este ano e a verdade é que nunca se escreveu neste blog que somos campeões este ano, isto se excluirmos estas duas vezes, a desta linha e a da linha de cima.

16 abril 2021

Pipoco opina sobre "The One"

Devidamente aconchegado por generosas doses de Ardbeg, um malte que tem um final de madeira fumada que não vos passa pela cabeça, lá me dediquei àquilo do "The One", uma séria simpática que nos fala da beleza da alma compatível, é entregar um fio de cabelo e recebemos na volta do correio o contacto da nossa alma gémea, depois é fazer vir a pessoa lá do Burkina Faso ou das Ilhas Caimão, que isto das almas gémeas nem sempre são as girls next door, e não há que duvidar, em estando frente a frente libertam-se as feromonas ou a serotonina ou lá o que é, e a coisa dá-se, percebe-se que é para a vida, que com aquela mulher ao lado, bem sei, sou um dinossauro, resumo a coisa a um mundo heterosexual, mas com aquela mulher, dizia eu, não há quem tenha vontade de ir ao Brasil em negócios nem dar um salto ao Bairro Alto só para analisar o mercado, e vice-versa, ela tem-nos cativados para sempre, principezinhos e raposas, é aproveitar, poupa-se uma fortuna em restaurantes de boa fama, já não precisamos de fazer de conta que somos uns intelectuais incompreendidos para as conquistar, não teremos que escolher ser maus ou bons rapazes, elas não terão que espalhar generosas doses de essência de pêssego pela pele nem pintar as raízes do cabelo, os preliminares serão uma opção que ninguém usará, parece tão boa ideia, tão perfeito, tão vibrante e, afinal, é tão sem jeito nenhum.

15 abril 2021

Dos emojis e outras inutilidades

Prova de que ainda se aprendem coisas de valor nos blogs é eu ter tomado conhecimento pela São João que o lendário emoji “Chorar a rir”, essa bizarria que apenas as pessoas vagamente minhas conhecidas me enviam quando lhes digo o que me vai na alma, deixou de ser emoji mais usado. Enquanto damos um tempo a nós próprios para recuperarmos totalmente desta notícia aziaga, cuidava eu que o novo rei dos emojis fosse o emoji “coração”, afinal o amor é um sentimento difícil de descrever por palavras, um coração encarnado dá sempre jeito para estas coisas, é de espectro largo, tanto serve para declarar um amor para a vida como para se dizer ao Ruben Patrick que foi um grande querido por ter aparecido para nos desentupir o lava-louças, afinal não, o emoji “Coração” aparece num miserável quinto lugar, é uma espécie de Vitória de Guimarães dos emojis, o novo emoji-mor é agora o “Chorar Ruidosamente”, o que nos faz assumir que há uma necessidade de  majorar o riso, “Chorar a rir” já não é suficientemente exuberante para expressar a piada que se acha quando se recebe uma mensagem a dizer “O Ruben Patrick já me desentupiu a canalização…”, isto é coisa para um “Chorar ruidosamente”, para uma coisa desta categoria temos que ter disponível um riso superlativo, onde as lágrimas escorram em torrente pela cara abaixo, mas afinal que sei eu? que nunca precisei de usar emojis para dizer as coisas.

12 abril 2021

Pipoco visualizou o "The One" nos tempos mortos do fim de semana e já cá vem contar como foi

 Isso que te dizem ser a química, Ruben Patrick, saberás que ela é a tal no preciso momento em que, quando dizes o nome dela, a palavra significa coisas diferentes do que significava antes, as letras são as mesmas mas o significado é outro, já não é só um nome de mulher, agora é uma palavra nova, com descontrolo lá dentro.

01 abril 2021

Páscoas

 Preocupei-me com os futuros do carbono e despachei num instante a série da Netflix onde entra a filha do Bono Vox, tivesse eu menos oitenta e cinco anos e seria o tipo de miúda que me agradaria, isto se desconsiderarmos o corte de cabelo das cenas de flashback e aquela mania de trocar de alma, comprei croissants do Careca e Pastéis de Belém sem ter que esperar na fila, plantei tomate e hortelã, perdi ao poker porque me desfoquei mais do que uma vez, de manhã dei conselhos matrimoniais a um grande amigo e ao fim da tarde dei os mesmos conselhos, mas ao contrário, à mulher dele, e afinal, realmente, o que eu queria estar a fazer é o que sempre fiz por esta época, era ter um par de esquis enfiado nos pés e deslizar montanha abaixo.

30 março 2021

Já aos maus livros, Ruben Patrick,...

 ...esses deves eliminá-los absolutamente da tua vida, um mau livro não merece segunda oportunidade e, excepto se for "Os Maias", não se transformará num bom livro a partir da página quarenta, todos os minutos que gastares num mau livro são irrecuperáveis, são minutos que podias usar muito melhor, talvez conhecendo um bom vinho tinto, talvez ouvindo Bach enquanto pedalas até ao cabo da Roca, um mau livro causa-te danos irreparáveis, experimenta recomendar um mau livro a uma mulher que te deslumbre e sentirás um arrepio frio, como se os Devoradores da Morte estivesse ali ao lado, livra-te dos maus livros Ruben Patrick.  

25 março 2021

Também as piores pessoas, Ruben Patrick, ...

 ..são as que te fazem dar o melhor de ti, não te tornam mais forte, isso são os duches de água frio no inverno e os livros de James Joyce, são as que te tiram o medo e as que te levam a um patamar de inteligência que nunca imaginaste alcançar, as piores pessoas pedem o melhor das tuas noites para engendrares os planos mais infalíveis e as estratégias de mais alto nível para as tirares do teu caminho, existissem apenas boas pessoas e só estorvariam, a tua vida seria tenebrosa, uma mistura de músicas dos Coldplay e de livros de Paul Auster, que nunca te faltem as más pessoas na tua vida, Ruben Patrick, são essas que fazem de ti uma melhor pessoa.

23 março 2021

As piores canções, Ruben Patrick,...

...são as que vão marcar os momentos importantes da tua vida, a "Lacrimosa" de Mozart nunca tocou na despedida de um amor com mau final (mas o "Every breath you take" dos Police, sim), a "Minute Waltz" de Chopin nunca tocou num Alfa Romeo Spider a caminho da Seagull na Arrábida (mas o "Nowhere fast" dos Fire Inc., sim), nem sequer se pode dizer que "You can never hold back spring" de Tom Waits foi a música que estava a tocar num primeiro encontro (mas o "Take my breath away" dos Berlin, sim).

17 março 2021

Por outro lado, já quase não uso "resiliência"

Pouco a pouco, sem nada que o justifique, ou talvez porque me dou com as pessoas erradas, "estultícia" vai ganhando terreno como minha palavra favorita, ultrapassando "tergiversar" e aproximando-se de "idiossincrasia".

(as minhas palavras favoritas não são necessariamente as mais bonitas, essas serão sempre "chover", "tertúlia" e "gentil")

16 março 2021

Para memória futura

 As pessoas que se estimam nunca se deviam apartar.

Eça de Queirós, in 'Carta a Emília de Rezende (1885)

13 março 2021

Onze

Todos os anos, por alturas do fim do inverno, este blog aniversaria. É um bom blog, razoavelmente honesto, que cada vez mais me serve para ter a certeza das coisas que aconteceram na minha vida, se está no blog é porque deve ter mesmo acontecido. Há dias em que me desapetece e já sei que tenho que esperar que passe, a maioria dos outros dias é-me útil para deixar aqui explicado como foi realmente que as coisas aconteceram. As pessoas vão e vêm, uns são visitas quase cá de casa, outros regressam para se espantarem por eu ainda por cá andar, sinto-me sempre como aquele parente de vícios antigos que continua a ouvir discos de vinil e a ler jornais em papel, enquanto todos os outros se deslumbram com as luzes, informando-se do mundo  lá naquilo do facebook ou mostrando retratos de almoços por começar no instagram. Há dias em que me parece que já escrevi melhor, há outros que quase acredito que nunca escrevi tão bem como agora. Os blogs ensinaram-me a resumir as ideias, as pessoas têm a sua vida e não se dão bem com textos grandes. Tenho pena de não estar mais vezes à conversa com quem lê o que escrevo e é generoso ao ponto de me dizer se gostou ou não, talvez essa fosse a única coisa que mudaria, se me apetecesse mudar alguma coisa. Acho que não sou mau tipo, apesar de tudo. 

Um blog é só um blog, essa é que é essa.

11 março 2021

As coisas são como são

Do que realmente tenho saudades é pendurar um papel a dizer "Do not disturb" na porta do quarto.

10 março 2021

Dias sim

Tinha saudades destes dias de sol em que parece que só estou desperto para o lado bom da vida, os vapores da maresia que entram pela janela aberta para a Marginal,  que está vazia a esta hora, ouvindo alto grandes músicas (e também os Capitão Fausto), atento ao telefone que não toca, chegue a chamada que, se não me falharem as previsões, chegará lá mais para o fim do ano e talvez se desatem pontas soltas, ou talvez não, afinal pontas soltas, isso é comigo... 

07 março 2021

Teaser

Por razões que se prendem com a aleatoriedade que a minha vida me permite por esta altura, cruzei-me com uma sequência de imagens que reflecte a profundidade de pensamento de Paulo Futre, que tenho evitado a custo desde o memorável momento em que dizia ao sócio que estava concentradíssimo, um desses momentos que nos marca a existência e que nos exacerba a compaixão pelo semelhante, em que colocamos em perspectiva todas as nossas crenças e, finalmente, em que achamos que não há impossíveis, como dizia o anúncio da Nike e nos anunciava Baden-Powell, diz Paulo Futre, com aquela comoção na voz capaz de arrancar do fundo da vida monástica todas as professoras de filosofia do secundário, tão pouco escutadas, a quem Paulo Futre proporciona o seu momento de exegese, não da sagrada palavra, mas de uma mistura da palavra avisada de Chagas Freitas com a flacidez intelectual do cinema de Allen na sua versão de declínio, ou seja, tudo o que lhe ocorreu contar-nos desde "Annie Hall, Futre, após o visionamento das palavras misericordiosas  de um homem bom que pediu à mãe para lhe espalhar as cinzas pelo corredor lateral onde Futre fazia as suas arrancadas, missão impossível porque esse espaço ficou esquecido no tempo, o velho estádio do Atlético de Madrid foi terraplanado e agora existirá por lá, se a probabilidade estatística não me falhar, uma pitoresca mistura de lojas que terá a sua âncora numa cadeia de roupas de má qualidade, coadjuvada pela infalível trilogia "supermercado-loja de bricolage-boutique Nespresso", dizia-nos Paulo Futre, em resumo, "sou português, caralho", isto com grossas lágrimas correndo expeditas e é disto que vos falarei nos tempos mais próximos, da minha própria visão do que é ser português, caralho.

03 março 2021

Pequeno ritual para me desconectar da vida real

Tirar o relógio e colocá-lo na consola central, aliviar o nó da gravata, abandonar o telemóvel no banco traseiro, escolher entre Don Giovanni (se a hora de sair for antes das oito da noite) ou Carmen (se for depois) para me acompanharem nos cinquenta minutos que demoro a chegar a casa.

02 março 2021

Em verdade te digo, Ruben Patrick

Evita as mulheres Barca Velha, Ruben Patrick, são aquelas que reservarás para uma ocasião especial que adiarás sempre, evita também as Château Lafite, lamentarás eternamente serem demasiado caras para o tempo que duram, não te aventures com as Casal Garcia, são as que jamais te atreverás a aconselhar numa reunião de comissão executiva, não escolhas em nenhuma circunstância as Papa Figos, são competentes mas não te lembrarás delas no dia a seguir, escolhe sempre as mulheres Cartuxa, valem o que custam e não envelhecem mal.

25 fevereiro 2021

O livro

O primeiro livro de pessoas crescidas que me ofereceram, li-o pela primeira vez numa casa de férias que tínhamos à altura, num terraço virado a nascente, com vista para a serra, naquele tempo usava-se ler livros sem mais distrações, não havia músicas de fundo nem telefones a dar nota de mensagens novas, o livro tinha um marcador que era um recorte de jornal com uma notícia de jogo de futebol, contas feitas o livro acompanhou-me por sete casas diferentes, nas três últimas já sem o marcador original, esse ficou algures num empréstimo do livro. Recomecei a lê-lo ontem.

24 fevereiro 2021

O problema, Ruben Patrick,

... é que esperamos sempre que elas dancem como na cena da dança de "A Bela e o Monstro", os passos previsíveis, a condução é a nossa, e depois, na vida real, elas são como na cena de dança de "Pulp Fiction" e está armado o sarilho.