05 agosto 2018

Para memória futura

O dia mais quente do século passei-o eu meio submerso nas águas da ribeira de Loriga, entre cinquenta páginas de Torga e uns peixinhos do rio de escabeche.

30 julho 2018

À atenção das Capazes (LVII)

Onde está esse post de solidariedade com a irmã do Ricardo Robles, que deve estar inconsolável?

26 julho 2018

Sem ser a saga Millenium, evidentemente

Quem segue com atenção (e são muitos) a minha vastíssima obra escrita sabe que, de entre as minhas quase nenhumas idiossincrasias, há uma que em acompanha desde tenra idade e que é a de me fazer acompanhar do livro adequado ao meu destino das minhas curtas e muito merecidas férias. Jo Nesbo na Noruega, "Quem matou Sarah Gross?" em Cracóvia, um certo Hemingway em Paris, Nemésio nas Flores, "Capitães da Areia" no Rio, enfim, uma longa tradição que desejo manter.

Mas, dizei-me cá, que livro se leva para dez dias numa cabana de madeira junto a um rio selvagem na Suécia profunda?

23 julho 2018

Aos que receberam do meu dinheiro para reconstruir casas onde não moravam

Estou certo que são amigos do seu amigo, que não negam um copo de tinto da casa a quem vos pedir, que dizem que todos os políticos roubam, aliás, são os políticos e os da companhia da luz, estou certo que todos reclamaram dos sacanas dos árbitros, todos comprados, não tenho dúvidas que os vossos amigos, em vez de vos apontarem na rua, de vos desprezarem, vão dar-vos umas boas palmadas na costas e dizer-vos "grande malandro me saíste!".

Seus filhos da puta miseráveis.

22 julho 2018

Uma coisa nova por dia


(A ponte Vasco da Gama vista de baixo)

20 julho 2018

Da arte do jogo

Propus-lhe então um empate, dadas as circunstâncias parecia-me razoável, as probabilidades jogavam a favor dela, tinha um jogo ligeiramente melhor, a minha aposta foi que ela se aborreceria com o jogo da espera, com os meus silêncios, com o meu ar taciturno.

Perdi. Ele há ocasiões em que me esqueço que baixar a guarda é fatal.

17 julho 2018

Dando provimento a uns rascunhos que tenho para aqui (I de III)

Aparecesse um génio, desses que têm uma lâmpada mágica, e dissesse-me o génio que, em vez dos clássicos três desejos, me concedia a graça de ser personagem de um livro durante um mês e eu havia de escolher ser Zorbas, o gato grande, preto, gordo e de olhos amarelos que ensina uma gaivota a voar, uma bela alternativa ao Principezinho, fiquem sabendo, havia de demorar o meu mês Zorbático a beber Hoegaarden no porto de Hamburgo, talvez me lembrasse de Aznavour e dos marinheiros que falam de mulheres e de amor, havia de mostrar que não há impossíveis quando se trata de cumprir uma promessa feita a um desconhecido, e sabem os céus que eu tenho a minha dose de promessas impossíveis, havia de explicar à pequena Ditosa as artes do primeiro voo, uma especialidade minha isso de estar sempre a aprender a voar, mais que o Júlio dos "Famosos Cinco" ou o Gordo da colecção "Mistério", mais que Florentino Ariza, o homem capaz de saber esperar pelo amor original, mais que João da Ega ou o Capitão Nemo, Zorbas, o gato grande, preto, gordo e de olhos amarelos seria a minha escolha perfeita.

(respondendo a um desafio da Cláudia Filipa, ainda era Março)

16 julho 2018

A vida, tal e qual ela é

Precisasse eu de provas de que os homens mudam e era ver-me ontem por volta das quatro da tarde na Comporta, alheio à final, sem uma cerveja na mão, sem uma algazarra de amigos à volta, sem querer saber de uma final do campeonato do mundo, eu numa rotina que consistia em trinta páginas de leitura, quinze minutos de mergulho, dez minutos de sol, em loop, o mundo a vibrar com a fotogenia da presidente da Croácia com o penalty inventado, com o frango do guarda-redes, eu no meu mundo, até o telemóvel ficou em casa, se posso ignorar uma final do campeonato do mundo, então posso tudo, e afinal uma final do campeonato do mundo não é nada que não se possa ver num condensado de cinco minutos no telejornal da uma da manhã.

13 julho 2018

Sobre aquilo da figura do Juncker, ontem

O meu bisavô tinha ciática e nunca lhe deu para ter aquela cara rosadinha e alegre, nem para beijar todos os homens que lhe apareciam pela frente.

(aquilo era uma puta de uma bebedeira e não há mal nenhum nisso)

11 julho 2018

À atenção das Capazes (III)

Quando filmam o público dos jogos do Mundial, o realizador só escolhe miúdas. E só as giras.

À atenção das capazes (XVII)

Não havia uma única miúda dentro da gruta da Tailândia.

10 julho 2018

Agora que os meninos das grutas estão salvos...

...já se pode perguntar se sempre é o treinador, que também é monge budista, que partilha a sua comida com as crianças e as ajuda com meditação, que será o último a sair da gruta, que é um tipo impecável e bom amigo, que perdeu toda a família aos onze anos, já se pode perguntar, dizia eu, se é este rapaz quem vai pagar a conta do salvamento?

Mulheres sem sobrancelhas

Nunca conseguirei explicar convenientemente as minhas reservas mentais com mulheres sem sobrancelhas, é uma coisa epidérmica, pior que as mulheres com unhas pretas, muito pior que mulheres que cheiram a gel de banho de pêssego, infinitamente mais devastador que o efeito que as mulheres que começam frase com "é assim" provocam sobre a minha delicada sensibilidade, não sei precisar o momento zero desta falta de empatia, ainda ontem, entre a Terceira e São Miguel, num desses aviões pequenos, uma mulher com tudo para me proporcionar uma boa meia-hora de cavaqueira gentil, o habitual nestas situações, ele eram os óculos de massa preta, o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, a camisa branca com dois botões cimeiros desabotoados, o documento aberto no portátil a dizer "notas do Conselho de Administração", o olhar decidido, o ter escolhido um lugar ao meu lado, o sorriso aberto, a pergunta "está a gostar de Rentes de Carvalho?", enfim, todo um conjunto vencedor para os meus padrões de homem simples, mas, lá está, calhou ter vislumbrado a ausência de sobrancelhas e logo as minhas defesas subiram a níveis máximos, colocando-me em estado de alerta e respondendo à gentil senhora com monossílabos, tendo mesmo que simular uma curta sessão de sono, perfeitamente justificada pelo horário da sete de manhã, a que se somava o voo das seis e quarenta do dia anterior, para além da noite de sonhos agitados, destaco o pesadelo em que a Bélgica não era campeã do mundo, enfim, tenho mesmo que ver isto, isto e não só.

04 julho 2018

Hoje sonhei com Lamborghinis roxos

O homem que escreve material sagrado de um quilate como: "Prévot chora. Dou-lhe uma palmada no ombro. Digo-lhe, para o consolar: se estamos tramados, estamos tramados. E ele responde-me: se pensa que é por mim que estou a chorar..." é o mesmo que escreve menoridades como “O essencial é invisível aos olhos, e só se vê bem com o coração.”

01 julho 2018

Teremos sempre memória

Às vezes, quase sempre, o universo encarrega-se de nos mostrar que não será coisa má congratularmo-nos com a realidade que temos, que aquilo que nos parece atroz, insuportável, afinal pode sempre piorar, fazer-nos ter uma saudade imensa dos tempos passados, que no fim de contas não seriam assim tão miseráveis.

Depois de Bruno e Jesus temos Cintra e Peseiro.

30 junho 2018

Uma coisa nova por dia

Desejar do fundo do coração que Portugal ganhe mas apostar dois ordenados mínimos do Azerbaijão em como Portugal perde.

24 junho 2018

Tem cuidado com aquilo que desejas

Sousa Cintra é o presidente da SAD...

Foi chato

No início o Bruno era só como aquele tio desbocado que todas as famílias têm, uma mistura entre inconveniente e maçador, desses que dizem demasiadas palavras para explicar uma não-coisa, nós tolerávamos o Bruno, apesar de nos ter trazido Jesus, apesar daquele ar de quem levou muitos carolos na cabeça quando andava na primária, apesar daquele jeito enfatuado com que tirava e colocava os óculos, apesar dos saltinhos desengonçados com os jogadores suplentes sempre que o Sporting marcava um golo, o Bruno lá nos dava um par de alegrias, o hóquei em patins numa semana, o voleibol na outra, enfim, não seriam coisas com que pudéssemos aborrecer à segunda feira de manhã os amigos com menos gosto que nós na hora de escolher a equipa do coração, mas sempre nos divertíamos com as pequenas bizarrias do Bruno, sempre podíamos escalpelizar os problemas de carácter, sempre nos fornecia tema para umas gargalhadas.

Às vezes os tais tios desbocados que todas as famílias têm, enchem-se demasiado de si, são pequenos nadas, um dia rimo-nos por delicadeza de uma anedota de que já conhecemos o final e eles crêem dominar a arte do humor, acreditam que lhes está a passar ao lado uma carreira, noutro dia, para abreviar uma conversa, concordamos com eles num ponto menor, desses que tanto podia ser assim como de outra maneira qualquer, e logo eles se imaginam influenciadores de opinião, e um dia, quando menos esperamos, o tal tio desbocado que todas as famílias têm, toma conta da conversa na sala e damos por nós a discutir capas do correio da manhã, diz-nos como devemos beber o nosso gin e damos por nós a beber Gordon's com má água tónica e vegetais a boiar no copo, toma conta da nossa cozinha e damos por nós a ter à nossa frente sardinhas com batatas fritas.

E um dia, depois de o avisarmos um par de vezes, aborrecemo-nos de vez com o tal tio desbocado que todas as famílias têm, pegamos nele por um braço, delicadamente e levamo-lo lá para fora, para as traseiras, fechando a porta à chave, assegurando-nos que não nos aborreça mais e ele, o tio desbocado que todas as famílias têm, há-de dizer uns palavrões, há-de recordar-nos o que fez por nós, há-de ameaçar-nos com uns amigos muito grandes que ele conhece.

Mas nós já não o ouviremos.