20 outubro 2019

O problema sou eu

Ela era uma dessas mulheres que aprecia Peixoto, que se emociona com os quatro minutos e trinta e três segundos de Cage, que dissertava sobre o Azul de Klein, que reivindica achar "O Couraçado Potemkine" um filme demasiado comercial.

(e assim se transforma um jantar com potencial numa conversa demasiado curta, um destes dias, no Bistrot du Nord, ali para os lados de Antuérpia)

09 outubro 2019

Joker

Joker, o filme, não aquela coisa em que o apresentador calça meias de padrões alternativos, não me fascinou por aí além, joga às escondidas com as nossas emoções, isso é certo, mas falta-lhe aquele je ne sais quoi que nos perturbe mesmo a valer, que abane mesmo as nossas certezas sobre as coisas serem como são.

(mas eu, que acompanhava Batman nas vinhetas a preto e branco de um jornal que já não existe, pensava que Joker tinha tido uma vida menos sofrida, por isso me aborreci tanto com a revelação)

02 outubro 2019

De como o furacão Lorenzo me proporcionou um dia inesperadamente sem agenda

Eu, que sempre me vi em dificuldades para distinguir os Men at Work dos Fischer Z, Dan Brown de Ken Follett, as últimas palavras de Cristo segundo Mateus e segundo Lucas, Di Caprio de Brad Pitt, a marcha nupcial de Mendelssohn e a de Wagner, sei distinguir perfeitamente uma Hoegaarden de uma Mort Subite.

01 outubro 2019

De volta a casa


Serei sempre feliz a subir montanhas, enregelado e respirando como posso, descendo montanhas com Strauss nos ouvidos e sentindo o vento na cara, mergulhando nos mares, deslumbrando-me com a tridimensionalidade dos meus movimentos, esgueirando-me por grutas e algares, aproveitando o silêncio e o rumor das asas dos morcegos, falando com pessoas que sabem de plantas que curam e de chás que tudo podem, mas, caramba, Londres é Londres…

30 setembro 2019

Em verdade te digo, Ruben Patrick


O problema, Ruben Patrick, é que nos dizem que isso do tofu e das palhinhas de papel e de andar de comboio serve para salvarmos o planeta, ora isso não é a verdade, o planeta já se debateu com aquilo que dizimou os dinossauros e continuou a rodar alegremente, já teve a situação dos grandes frios e aguentou-se, já explodiram vulcões, desabaram asteróides, guerrearam civilizações e o bom velho planeta cá está, recomendando-se e continuando a girar, ao planeta é-lhe verdadeiramente indiferente o que nós fazemos ou deixamos de fazer.

O problema, Ruben Patrick, é que se trata de coisa diferente, isso do tofu e das palhinhas de papel e do andar de comboio serve para nos salvarmos a nós.

19 setembro 2019

São onze da noite, o Sporting perdeu outra vez e isso não está certo

Enquanto Jarrett, em modo vinil, inventa magia no concerto de Colónia, resolvo dar mais uma oportunidade a um vinho que todos me dizem ser desses que deixam alfazema no final de boca, dizem que é coisa de valor, obviamente desisto, dar segundas oportunidades a maus vinhos é como dar segundas oportunidades a mulheres com má conversa, penso que talvez me apazigue pegar em Dickens, afinal não foi boa ideia, há demasiadas sombras, termina o lado bê do primeiro disco, levanto-me para que Jarrett continue a tocar, fico a cismar na minha velha convicção de as paixões que ficam para a vida serem as que nunca chegam a acontecer, um destes dias quase me apeteceu testar a coisa, quase, verifico o stock de chocolate que trouxe de São Tomé, a situação é dramática, de repente dá-me vontade de conhecer uma pessoa disto dos blogs, repenso, é melhor não, ela havia de me achar bom rapaz e não há nada pior do que dizerem de mim que não sou mau rapaz.

15 setembro 2019

03 setembro 2019

Serviço público

Tivesse eu que escolher, que não tenho, a magia destas semanas de "leve-leve" é não ter que escolher, e diria que refeição que melhor me soube foi um almoço de polvo e santola, regado a Rosema e com fruta pão e arroz com erva mosquito a acompanhar, servido por Don Chefe na praia Piscina e, não fosse Don Chefe ter-se equivocado nas contas finais, nada que não se resolvesse com comunicação assertiva e pedagógica, fazendo de conta que não notei que Don Chefe tinha apostado no efeito Rosema sobre a minha capacidade de transformar euros em dobras, havia aqui de tecer loas a Don Chefe e prantar aqui um retrato.

Por outro lado, na Roça de São João dos Angolares, o Chef João Carlos Silva não desilude, é um desfilar de sabores e de cores que aguça o meu lendário vício de fazer perguntas, contando sempre com a paciência de sabe as respostas e que se deixa ficar à conversa. explicando-me com gosto a história dos pratos e a dificuldade em garantir um standart de se serviço. Chef João Carlos havia de me entristecer mais tarde, com o Espaço CACAU, mas isso não é história para agora, ninguém me manda jantar num desses sítios que tresanda a coisa ao gosto do turista por todos os poros e eu, ainda assim, a resolver fazer de conta que ali havia de ser coisa diferente do costumeiro.


Finalmente, o restaurante da Casa-Museu Almada Negreiros, uma história bem aproveitada, atendendo a que Almada viveu apenas um par de anos na ilha, um serviço em condições e um cuidado no servir que não é habitual, isto apesar de eu lhes aparecer para almoçar já passava das três da tarde, coisa pouco vista por estes lados, eu inapresentável, a escorrer água, lama e sal,  anunciando-me com uma chaideira de motor semi-gripado de um velho todo-o-terreno, ainda assim com direito às duas entradas, prato principal e sobremesas, para além do mítico café da Roça Monte Café.

02 setembro 2019

E subimos, afinal

Don Francisco, dono e senhor de todas as árvores, flores e pássaros do Jardim Botânico que fica nos píncaros da antiga Roça Monte Café, homem de grandes saberes sobre mezinhas que curam tensão baixa e reumatismo, males de gravidezes e de coisas de estômago, homem de mil histórias bem contadas sobre infusões de pau de cabinda, homem culto nas artes de desencantar boa água nas plantas mais improváveis, olha com desdém para o meu calçado desapropriado e há no seu olhar um conselho de desencorajamento de subida a Lagoa Amélia.

Invoco a minha experiência nos Pirinéus e nos Alpes, nos Apeninos e na Serra do Gerês, enfim, nos Himalaias e Don Francisco dali não sai, que a época da gravana foi afinal de chuva graúda, que o piso está escorregadio, jogo a cartada final, que isto do melhor ar de cachorrinho abandonado não serve só para apaziguar corações, e mostro-me resignado com a minha perda, sabe-se lá se algum dia voltarei a estas terras abençoadas pelos desuses, enfim, cada um é para o que está guardado, e Don Francisco, mais por pena do que por convencimento, lá se digna servir-me de guia.


26 agosto 2019

Vista da janela da Casa di Célia

Imagino que Célia, não há em Água Izé quem não a conheça, um dia se fartou de tudo e resolveu fazer da vida uma coisa em condições, com um propósito.

Isto do turismo de comunidade não é para todos os estômagos, mas acordar com os sons de uma aldeia de São Tomé, ver o benfica - porto num espaço mínimo onde cheira a suor e a pála-pála de fruta pão, onde cada jogada é celebrada como se fosse golo certo, onde corre de mão em mão o copo de vinho de palma, é coisa que não se esquece.

Comprar por vinte dobras a banana prata e os legumes de que já desisti de conhecer o nome, juntá-los a um punhado de arroz, enquanto resisto com cara sorridente ao enésimo pedido de “doce-doce” do dia, beber uma Rosema gelada é coisa que vale uma viagem grande.