Por razões que desconheço, há muitos anos me reconhecem habilidade para escolher vinhos, não importa a mesa que for, os novos entrantes nas tertúlias habituam-se desde a primeira vez que quem escolhe o vinho é o Pipoco, havendo sempre quem recorde pomadas lendárias que este que vos escreve escolheu, basta essa invocação para que se perpetue a regra sagrada e controle os ímpetos dos que chegam, desmoralizando-os de mostrarem os seus saberes ou de se candidatarem a macho-alfa dos jantares, amaciando-lhes os níveis de testosterona e mantendo a tradição de as coisas serem como são, soubessem eles que me limito a encenar o momento, colocando com vagar os meus óculos de ver ao perto, os de aros redondos, demorando-me na escolha, hesitando, perguntando ao empregado por vinhos que já sei que não estão na carta, questionando se não terão por acaso a colheita de um ano que sei estar esgotado, escolhendo finalmente, a multidão silenciosa, aguardando o veredicto, enquanto o empregado vai e vem eu anuncio o que nos espera, usando com saber mas aleatoriamente as palavras "final de boca a morango" se for tinto ou "cítrico" se for branco, demorando-me na influência que cada casta tem no blend, anunciando o tipo de madeira em que o vinho foi guardado, finalmente a chegada do vinho, a demora na prova, duas ou três notas segredadas com ar severo ao empregado, aconselhar que deixem o vinho respirar dois ou três minutos para que liberte os vapores certos, explicar que aquela acidez é por ser um vinho de vinhas velhas, todos assentindo que sim, que se nota perfeitamente, garantindo que ainda não é desta vez que dirão de Pipoco que ele não é grande coisa a escolher vinho.