29 maio 2018

Eutanásia

Mas afinal qual é a dificuldade de legislar no sentido de, não me apetecendo transformar-me num vegetal ou não me apetecendo sofrimento desmesurado, alguém se apiedar da minha condição e, a meu pedido, desligar a máquina ou fornecer-me uma dose extra de morfina, concedendo-me uma réstia de humanidade?

23 maio 2018

Roth, Philip Roth

Quando os meus heróis se vão, quando me faltam os que me convocaram para o exercício de pensar, mais do que lamentar a perda, agradeço as suas obras terem feito de mim uma pessoa diferente.

22 maio 2018

E tu, onde estavas quando foi inaugurada a Expo98?

Eu estava no Gambrinus a apostar que a pala do Siza não caía.

20 maio 2018

Post escrito antes do jogo começar. Não me lixem, rapazes...

Temos então mais uma taça, não foi fácil, tivemos que aviar vários colossos, o Oleiros, o Famalicão, o Vilaverdense, o Cova da Piedade e o Aves, é claro que também aviámos o Fócuporto mas isso agora não interessa para nada, o que interessa é que este era o jogo do século, a festa do futebol, a salvação das florestas amazónicas, o espevitar da reprodução dos pandas no seu estado selvagem, o regresso dos golfinhos ao Mondego, para o mundo ser perfeito só faltava a demissão do homem, e eu envergonho-me de presidentes nossos desde quase sempre, ainda sou do tempo em que tínhamos o Sousa Cintra, naquele tempo era um empecilho, agora é quase um cavalheiro da bola, mas ganhámos e foi merecido, quem ganha merece sempre, é uma verdade válida desde que o Mourinho ganhou a Champions pelo Inter, foi bonita a simbiose dos jogadores com os adeptos, quase se misturando as funções, depois do presidente-adepto, os jogadores-adeptos, virá o dia em que teremos o presidente-jogador ou o roupeiro-presidente, tal e qual como nas famílias, todos a fazer tudo, o pai executivo a levar o lixo à rua, a mãe em licença de maternidade numa call para fechar o forecast, só nos falta o ex-presidente-adepto mas só mesmo adepto, havemos de ter saudades de saber que anda à procura da filha desaparecida mas afinal não, havemos de ter saudades daquela personagem pitoresca, a querer que os jogadores sejam seus amigos e os jogadores a tratá-lo como se fosse um tio-avô meio senil, dos que dizem coisas inconvenientes à mesa no Natal e que só queremos que seja hora de alguém o levar a casa, ganhámos, dizia eu, e isso é que é importante.

E agora vou ali ver o jogo da bola

Não é que interesse muito, a não ser a mim próprio, e as coisas são como são, baste que me interesse a mim e a coisa dá-se, mas a verdade é que os meus dias têm sido parecidos com os créditos finais do Kill Bill 2, a Uma Thurman a conduzir um descapotável por uma estrada secundária ao som de Shivaree, Goodnight moon, cabelos ao vento, sorriso na cara, aproveitando o que a vida nos dá de melhor, isto com a diferença, lá está, que eu não sou a Uma Thurman, o meu carro não é descapotável e por isso não posso andar de cabelos ao vento, não tenho memória de alguma vez Shivaree ter sido banda sonora das minhas viagens.

11 maio 2018

Do livro dos blogs (Capítulo 2, versículo 12)

Quando a inspiração te abandonar de todo, escreve sobre mulheres que amamentam em público ou insinua que é uma bizarria desejar mudar de sexo. Depois, polvilha a caixa de comentários com três comentários anónimos, um a concordar ferozmente, outro a insultar-te, o terceiro a contar-te uma história pessoal alinhada com a temática.

(agradecerás ao primeiro, devolverás a picardia ao segundo, empatizarás com o terceiro mas ressalvando que a história é uma caso de excepção e deixarás um quarto comentário a dizer "não vale a pena, anónimo, não vou publicar isso)

10 maio 2018

Pipoco, a ressuscitar blogosferas há setenta e dois anos

Era um desses tipos que se sentam à cabeceira da mesa, diziam-me que era um negociador dos duros, ainda não tinha chegado e já o odor a Kouros o fazia anunciar-se, verifiquei se tinha todos os indicadores de ser um tipo dos rijos e sim, lá estava o Rolex de mostrador dourado, o fio grosso de prata ao pescoço com um Cristo dependurado, os dois botões cimeiros da camisa preta desapertados, o cumprimento sem se desculpar e em voz grossa para os que tinham chegado a horas, os óculos Ray-Ban dependurados do bolso do casaco. Durante a reunião gritou muito, abusou dos gestos largos, pediu à secretária que lhe trouxesse uns documentos que não chegou a abrir, anunciou que ia fazer uma chamada ao António para desbloquear a situação, fez a chamada e disse "António, sou eu, pá..." enquanto me olhava com ar fulminante, o telemóvel dele vibrou e não consegui evitar saber que quem ligava era a "Fofinha, Amor" antes que ele tivesse tempo de virar o écran para baixo.

Acho que foi a partir desse momento que comecei a ganhar a reunião.

Do Livros dos Blogs (Capítulo 6, versículo 32)

Não confundirás a tua lendária inépcia para escrever um blog com o fim da blogosfera.

03 maio 2018

Pipoco, a escrever o mesmo post há oitenta anos, mas com umas diferençazinhas


E foi assim que tudo se passou

Ligar o botão do carro que diz "sport mode", apontar ao Guincho, abrir as janelas, seleccionar apenas Cohen e Aznavour, o Hallelujah a seguir a Emmenez-Moi e I´m your man a seguir a Que c'est triste Venise, colocar a palma da mão esquerda contra o vento, quando a mão estiver salpicada de mar, aspirar com força e deixar entranhar no cérebro o cheiro a sal e a algas, parar o carro em posição perpendicular ao mar, tirar os óculos de sol e colocar os outros óculos, ler uma dúzia de páginas de Saramago, recostar com as mãos entrelaçadas atrás da nuca, sorrir, meditar dez minutos notando o ar frio e salgado a entrar pelas narinas, fazer o caminho de volta com Bowie e com os tons graves no máximo, atacar então o relatório do primeiro quadrimestre.

02 maio 2018

Os não-problemas dos homens

Tomamos café quase todos os dias, às vezes vamos ao futebol juntos, de vez em quando almoçamos numa esplanada perto daqui, uma vez por outra celebramos as nossas pequenas vitórias com um gin ao fim da tarde.

(mas não fazemos ideia se o tipo gosta de sushi, se viu alguma vez um filme de Visconti, se tem uma gabardina Burberry, se foi a Cabo Verde nas últimas férias, se é intolerante ao gluten, se os filhos se dão bem uns com os outros)

30 abril 2018

Ballade pour Mironne

E lá estávamos nós, o mar agreste da costa do Paraguai a fustigar-nos, lembro-me que pedimos um Beaujolais, sempre apreciaste os vinhos velhos, depois, era o tempo da tua mania dos vegeterianismos, encomendaste uma salada, uma magnífica Calabreza, do meu bife tártaro bem passado só recordo o travo magnífico a hortelã das Índias, mais tarde o chefe de sala do Don Julio havia de nos escolher os melhores lugares, mais perto da orquestra não podíamos estar, ainda mal nos tinham servido as entradas, uma canjica como já não se faz, e já os violinistas atacavam Piazzola, esse mestre dos boleros que tantas vezes dançámos juntos, os nossos corpos colados e que Hemingway tão bem contou nessa última obra que nos legou, esse tremendo "A Leste do Paraíso", a história triste dos homens que nunca foram meninos, era o tempo em que éramos felizes e não o sabíamos.

29 abril 2018

São assim os Dias da Música

Velhas senhoras que acordaram cedo para dar um retoque nas cabeleiras louras, que dormitam boa parte do concerto mas não é por isso que são menos entusiastas na hora do aplauso quando termina o último andamento, cavalheiros que se impacientam com os dois minutos de atraso que o início do concerto já leva, é coisa para os fazer correr para o concerto seguinte e mesmo assim não apanhar os melhor lugares, casais de anciãos que riscam freneticamente o programa dos concertos, assinalando com um xis os concertos que já despacharam, desenhando círculos em volta dos que ainda faltam, velhas senhoras que cumprimentam com um só beijo quem está na fila e aproveitam para avançar dois lugares, malas de modelos antigos a marcar lugares para as amigas que se atrasaram, cheiro a perfumes de senhora que me lembram a minha avó, tosses cavernosas nos momentos de pianíssimo.

28 abril 2018

Estava aqui a ver os seguranças do Kim Jong-un a correr ao lado da limousine Mercedes

Nada saberás dela enquanto te focares na forma como ela sai do carro de dois lugares e gere a vontade própria da saia demasiado curta, nada saberás dela enquanto apreciares a forma eloquente como se refere à sequência de Fibonacci para justificar uma passagem de Garcia Marquez, nada saberás dela enquanto te deslumbrares com a tranquilidade com que gere um straight demasiado escasso para a parada da mesa, nada saberás dela enquanto te entusiasmares com o dilema de ela se parecer mais com Grace Kelly ou com Elisabeth Taylor.

Mas um dia , Ruben Patrick, ela vai abanar-te a alma, os olhos dela faiscarão, será um dia de chuva grossa, ela dir-te-à com voz calma e pausada que não passas de um palerma, que nada vês senão o que é visível aos olhos, é aí que o sentimento de perda se agiganta, é nesse momento que ter darás conta da urgência de pensar depressa, implorarás aos céus que não seja demasiado tarde, será então que ela decidirá, uma vez mais, que te dará uma outra oportunidade de mostrares o pouco que vales, é nesse preciso momento que ela tomará conta de ti e tu nada mais poderás fazer senão pegar-lhe na mão e, em vez de te embasbacares com o efeito que a chuva molhada produziu na camisa branca demasiado fina, perceberes enfim que o essencial é invisível aos olhos, ou lá o que é.

27 abril 2018

Esta noite sonhei com Lamborghinis roxos

Tivesse eu disponibilidade, não fosse ter que ir ali comprar jornais, não fosse faltarem-se trinta páginas para terminar o último Umberto Eco, não fosse ter apalavrado ir aos Dias da Música, não fosse estar já comprometido para almoçar uns filetes de peixe-galo, e havia de passar por aí para espantar esses fantasmas que (ainda) te atormentam, havia de me posicionar de frente e ordenar-lhes "eh fantasmas, vamos a sair, é andar...", os fantasmas haviam de se desorientar com a minha voz tonitruante, haviam de sair cabisbaixos, sussurrando desculpas esfarrapadas, que não tinha sido por mal, que a natureza dos fantasmas é mesmo essa, atormentar as pessoas, está-lhes no sangue, eu havia de me assegurar que eles não ousavam regressar, tu havias de me agradecer os trabalhos, vir de tão longe, com tantos afazeres, largar os jornais e o Umberto Eco, os Dias da Música e os filetes de peixe-galo para vir espantar fantasmas, não saberias como agradecer, eu diria que não foi nada, ora essa, temos que ser uns para os outros.

24 abril 2018

E andamos nisto

Voltasse ela, Ruben Patrick, entrasse ela por aquela porta agora, teria meia hora para mudar a tua vida, e constatarias que ela era outra pessoa, havia de cheirar a outra coisa que não aquilo que te lembras, não saberias onde foi ela arranjar aquele pequeno corte no dedo mindinho, não reconhecerias o modelo de telemóvel que ela tem agora, perguntar-te-ias por que lia ela agora Lobo Antunes, estranharias a nova cor do cabelo e ela desabotoar agora os dois botões cimeiros da camisa.

Elas, ao contrário de nós, mudam demasiado.