02 março 2021

Em verdade te digo, Ruben Patrick

Evita as mulheres Barca Velha, Ruben Patrick, são aquelas que reservarás para uma ocasião especial que adiarás sempre, evita também as Château Lafite, lamentarás eternamente serem demasiado caras para o tempo que duram, não te aventures com as Casal Garcia, são as que jamais te atreverás a aconselhar numa reunião de comissão executiva, não escolhas em nenhuma circunstância as Papa Figos, são competentes mas não te lembrarás delas no dia a seguir, escolhe sempre as mulheres Cartuxa, valem o que custam e não envelhecem mal.

25 fevereiro 2021

O livro

O primeiro livro de pessoas crescidas que me ofereceram, li-o pela primeira vez numa casa de férias que tínhamos à altura, num terraço virado a nascente, com vista para a serra, naquele tempo usava-se ler livros sem mais distrações, não havia músicas de fundo nem telefones a dar nota de mensagens novas, o livro tinha um marcador que era um recorte de jornal com uma notícia de jogo de futebol, contas feitas o livro acompanhou-me por sete casas diferentes, nas três últimas já sem o marcador original, esse ficou algures num empréstimo do livro. Recomecei a lê-lo ontem.

24 fevereiro 2021

O problema, Ruben Patrick,

... é que esperamos sempre que elas dancem como na cena da dança de "A Bela e o Monstro", os passos previsíveis, a condução é a nossa, e depois, na vida real, elas são como na cena de dança de "Pulp Fiction" e está armado o sarilho.

17 fevereiro 2021

E agora uma coisa completamente diferente

Meus caros amigos que proclamais que isto da pandemia é coisa inventada, isto são os donos do mundo a meter-nos medo, já os nazis faziam isto, que me convidam a libertar-me destas correntes que me privam da minha liberdade, em verdade vos digo que concordo já com as vossas teorias se me prometerem que, primeiro, vão ali dar uma espreitadela aos contentores frigoríficos do hospital mais da vossa conveniência, há muitos por esse país fora, fazem um fresquinho muito bom, não me perguntem como sei eu destas coisas, basta-vos acreditar que sei, abram uns saquinhos pretos que lá estão e espreitem para dentro, que, segundo, me prometem que, em caso de o vírus ser mesmo verdade, notem que isto é apenas uma hipótese, mas, em caso de ser verdade e vos toque, caso os meus caros comecem a ficar sem paladar ou com uma constipaçãozinha mais forte, que não entrem em pânico e fiquem em vossas casas, sossegados, sendo consequentes e não se deslocando a nenhum serviço público que eu esteja a pagar, aguentando forte e esperando que passe e, terceiro, se eu souber que os meus caros andaram por ai à solta, estando com a tal constipaçãozinha, e pegarem o mal a alguém cá da minha predilecção, eu vos possa sodomizar ou pedir a um amigo meu nigeriano que vos sodomize, dependendo dos casos. Vamos a isto?

(lembrei-me disto no dia em que se finou a mãe de uma boa amiga, dessas que se fotografa sem máscara e a seguir proclama o seu excêntrico conceito de liberdade, e a minha amiga informou-me que a mãe se finou por causa de uns problemas respiratórios desagradáveis e umas queixas de ter perdido o olfacto, nada a ver com Covid)

16 fevereiro 2021

Em verdade te digo, Ruben Patrick

 No dia em aceitarmos, Ruben Patrick, que as escolhas das mulheres são sempre as certas, ainda que nos pareçam bizarras, ainda que não alcancemos o seu brilhantismo, ainda que nos perguntemos como raio irão funcionar, quando esse dia acontecer, Ruben Patrick, dominaremos o mundo. 

15 fevereiro 2021

No cinema, tal como na vida

Longas horas de cinema ensinaram-me que existe um padrão, uma previsibilidade que me faz antecipar o fim do filme só pelos quilómetros de celuloide que me passam pela vista todos os anos, sei que o amigo do herói morre sempre nas alturas em menos jeito dá, as reanimações nunca funcionam no tipo bom e funcionam sempre no tipo mau, sempre que o tipo bom se comove e dá alguma vantagem ao tipo mau acaba sempre por ser atraiçoado, o tipo que manda realmente é o impulsivo e que ganha ao poker, apesar de o chefe ser o tipo que cumpre as regras e é bom pai de família, o tipo racional desmancha-se sempre no fim, resolve mostar o lado emocional e acaba por estragar tudo.

11 fevereiro 2021

O homem colapsado

 Vejo as imagens de Sérgio Conceição a seguir a cada momento de falha e espanto-me com o colapso, já vi muitos homens e mulheres colapsarem, uma palavra mal medida, um amor impossível, uma perda irreparável, e é sempre definitivo, colapsam e não são mais as mesmas pessoas, regressam diferentes, quando regressam, mais frágeis e menos confiantes, colapsar é coisa de não retorno, Sérgio Conceição não, colapsa diante dos nossos olhos, recebe a nossa vergonha alheia, adivinha que mudamos de canal por pudor e, mesmo assim, Conceição regressa como se não lhe importasse a nossa pena, indigno do nosso gesto de olhar para o lado para não ver, e ele a colapsar de novo na semana a seguir, e nós a ter que ver, outra vez.

10 fevereiro 2021

Dos dias em que percebemos que nem sempre as coisas são como deveriam ser

 Perdemos sempre primeiro as melhores pessoas, os que abrem o melhor vinho quando nos recebem em sua casa, os que nos valem nas alturas em que mais precisamos de ser levados às costas de alguém, as que nos aconselham sempre da forma mais capaz, as que nos aparecem ao caminho ainda antes de sabermos que vamos precisar deles, as que sabem dos melhores restaurantes, dos melhores livros e dos melhores mares para mergulhar.

09 fevereiro 2021

Das corridas e outras situações

 E lá seguia eu a bom ritmo, não naquele ritmo a que corremos à beira mar quando estamos certos de que os mulheres que contam nos observam a passada nem naquele ritmo a que corremos quando almoçámos iscas à portuguesa precedido de morcela de sangue frita, tudo acompanhado por um Callabriga de 2016, enfim, um ritmo adequado às circunstâncias da chuva de frente, do chão de lama, cantando alto uma dessas canções que se cantam quando queremos chegar mais depressa a casa, tomar um duche quente e fazer meia hora de meditação, quando, precisamente depois de ver a família de javalis atravessar o caminho, fazendo de conta que eu não estava ali, dei pelo cão a rebolar-se no caminho, esfregando o focinho na terra molhada, sufocando, lá lhe abri a boca, retirei o pedaço de madeira que, perfeitamente encaixado na dentadura cimeira o atormentava, lá seguimos caminho, o cão feliz, com a bocarra aberta, sorrindo por ter escapado a mais esta, eu pensando que às vezes o universo se encarrega de estarmos no sítio certo à hora certa e que isso, mesmo que nos prejudique ritmo da corrida, não é uma má coisa.

04 fevereiro 2021

Mas não

 Talvez as coisas se compusessem se jantássemos no Eleven e fôssemos a seguir ao Teatro, podia ser o Meridional, acabaríamos a noite no Lux e no dia seguinte havíamos de apanhar o avião para o aeroporto mais próximo das Cinque Terre, ficaríamos lá um par de semanas, nadando no mar da Ligúria e bebendo vinho tinto naquela pizzeria de Riomaggiore, regressaríamos de carro, ouvindo Miles Davis e a Carmen de Bizet em sessões contínuas, havíamos de chegar a tempo de jantar no Eleven e, a seguir íamos ao teatro.

03 fevereiro 2021

Compensações

 Não fosse isto de trabalhar sem estar lá, onde as coisas acontecem, e não teria sido possível ir à horta, descalço, para sentir bem a terra húmida de chuva da noite, à uma da tarde, havia de regressar com meia dúzia de folhas de alface frisada numa mão e o focinho molhado de um cão preto e grande na outra, também não teria sido possível acabar às dez da manhã um livro desses que só faz sentido serem lidos em dias de inverno.

02 fevereiro 2021

Retomando uma velha tradição

No dia seguinte a aviarmos o Benfica fico mais introspectivo, há toda uma paz que desce dos confins do universo e me aconchega, de repente tudo parece mais suportável, fico mais disponível para me deslumbrar com a minha romãzeira, tão elegante, ao mesmo tempo tão franzina e tão capaz de se aguentar com o peso de romãs de meia arroba, Gonçalo M. Tavares torna-se quase apetecível de ler e dou por mim a trautear músicas de Mika e a preparar chá de frutos vermelhos, fico mais disponível para me perder de amores com cãezinhos das redes sociais e quase me apetece mandar um miminho às influenciadoras, aquilo é uma vidinha que não deve ser fácil para ninguém

01 fevereiro 2021

Quatro

 De repente tive vontade de voltar à India, tive saudades de sentir que tudo o que sei de nada me valer, de ter o meu mundo de pernas para o ar e estar tudo muito bem assim.

31 janeiro 2021

Dias três e tudo vai bem

O Senhor Dionísio não sabe tirar um café em condições, o que é uma maçada quando se é o proprietário de um estabelecimento que se chama Café Dionísio, mas sabe tudo o que há para saber sobre enxertos de árvores e qual a melhor altura para semear tomilho ou para que ponto cardeal se deve virar o arbusto de louro, é por isso que o meu segundo café do dia, cinco minutos depois do primeiro, é tomado no café do Senhor Hugo, homem de poucas palavras mas que sabe tanto da nobre arte de extrair o melhor da mistura de arábica e robusta como eu sei das artes de distinguir se há mais Malvasia ou Touriga Nacional num bom vinho tinto.

30 janeiro 2021

Meu Deus, meu Deus...

 ...livrai-me de envelhecer da mesma maneira que o Miguel Sousa Tavares.

29 janeiro 2021

Dois dias

 O melhor da minha espécie de confinamento é estar prestes a conseguir o equilíbrio perfeito da quantidade de lima no risotto de gambas, um micrograma a mais ou a menos e é a tragédia, lá se vai o risotto perfeito, é um exercício de tentativa-erro que comecei ainda antes de começar a ler Ulysses, por outro lado estou a especializar-me no conhecimento do exacto momento em que alguém vai desejar saber a minha opinião sobre o que realmente importa para os destinos da humanidade, como vão evoluir os futuros do carbono ou quando vai ficar competitivo o hidrogénio verde, agora preocupo-me menos com o Brent, mas estou a especializar-me, dizia eu, em antecipar em trinta segundos o momento em que do outro lado do écran vão solicitar a minha palavra sábia, sempre tenho tempo para desviar o olhar do comparativo da produtividade do Coates nos jogos mais a doer e naqueles onde teoricamente temos a obrigação de nos desembaraçar, nesses trinta segundos coloco o meu ar mais sabedor e digo os números que sei que irão ancorar a conversa daí para a frente, sempre com a voz firme e o ar convicto de quem sabe que os números podem ser aqueles ou outros quaisquer.

28 janeiro 2021

Um post por dia até me aborrecer

 Talvez esta nova versão do confinamento seja menos Camilo Castelo Branco e mais Bukowski, menos Vivaldi e mais Wagner, menos Fellini e mais John Carpenter, estamos mais cépticos e mais distantes, menos optimistas, e afinal tudo teria sido tão mais simples se não tivéssemos deixado que nos descansassem, nos idos de Março, os cartazes a dizer que tudo iria correr bem .

07 janeiro 2021

A angústia do guarda-redes antes do penalty

A mulher que me Hemingwaynizou uma parte da vida, dominasse ela das artes da paciência e da resiliência e havia de me Hemingwaynizar para a eternidade, deu notícias. Primeiro a medo, aproveitando estes dias de desejar o melhor para todos, eu incluído, depois ganhando confiança, afinal não é todos os dias que se recebem boas palavras daqueles a quem se Hemingwaynizou os dias. Se é verdade que não é boa prática voltar onde se foi feliz, que mal fará um gin tónico num final de dia, pois não é?

03 janeiro 2021

Mas está cada vez mais difícil

 Das minhas promessas para o ano que acabou, não cumpri começar a fumar cachimbo, um Bent Bulldog que me impregne a casa de aromas que combatam o todo-poderoso incenso das horas de meditação, não cumpri pisar chão sagrado no Botswana nem nadar nas águas da cidade do Cabo, não corri meias maratonas nem esquiei na Suiça, não me tornei melhor pessoa nem me esforcei por comer mais legumes e beber dois litros de água por dia, não medi os níveis de colesterol nem os níveis do não sei quê da próstata, não consumi séries em prestações mais moderadas, só três episódios de cada vez, no máximo, nem li Ulysses de uma vez por todas.

Mantive a promessa de me manter imortal, isso sim.