01 outubro 2018
O cavalheiro que agora se levanta da mesa ao lado da minha
Não foi o Thomas Mann que lia pausadamente nem o chapéu de feltro azul que tinha pousado na cadeira ao lado, não foram os modos de velho cavalheiro com que encomendou o café à empregada que o olhava com deslumbre, não foi o cabelo branco farto e bem penteado, não foi o casaco de corte irrepreensível que manteve sempre vestido, não foi a forma gentil com que se referiu ao Joyce que eu tinha em cima da mesa, sem o abrir, o que verdadeiramente me impressionou, pelo que destoava, foi o desalinhado e nostálgico cheiro a Old Spice.
30 setembro 2018
Dos Passadiços do Paiva e outras histórias
Divirto-me com pequenos nadas, assim que soube dos dois restaurantes de Arouca, o Assembleia e o Parlamento, atravessa-se a rua e sai-de do Parlamento para entrar no Assembleia, e vice-versa, forcei almoçar no Assembleia e jantar no Parlamento, as carnes são melhores num e as sobremesas são melhores no outro, mas isso agora não interessa nada, talvez até existam melhores restaurantes por aqueles lados mas ninguém me tira o gosto destas pequenas coisas, às quais só eu acho piada, ao resto dos convivas dá-lhes igual, o que importa é o tamanho dos bifes e se a cerveja está fria, as coisas mais importantes para quem acaba de calcorrear os passadiços, quase nove quilómetros para cada lado, nem quiseram saber da minha conversa com o homem do bar, que se demorou a explicar-me por que razão foi bom terem ardido os passadiços e como nasceu a ideia de os construir, é por isso que eu lhes ganho a jogar no Trivial Pursuit, porque me divirto com os pequenos nadas que não interessam a ninguém, com os pormenores, e afinal parece que só eu é que sei que no fim do dia são os pormenores que fazem a diferença.
29 setembro 2018
23 setembro 2018
12 setembro 2018
Se me quiseres aborrecer de verdade
Fala-me do tempo, de preferência comparando este Verão com Verões de antigamente, tira retratos à comida que acaba de chegar à mesa, calça Stan Smith que não sejam verdes, conta-me histórias tuas com demasiada informação, diz-me que a barba me dá um ar mais pesado, oferece-me livros ruins, fala-me da vida de outras pessoas que não sejam o Senhor Pereira ou Madame Pereira, dá erros ortográficos que não sejam o meu erro ortográfico de estimação.
Dizei-me lá
É normal um blog ir-se abaixo nos números, só porque o autor não escreveu um par de semanas?
11 setembro 2018
À atenção das Capazes (XXXVIII)
Aquela situação da mais nova das manas Williams, a tentar disfarçar um tareão dos antigos com não sei quê de sexismo não ajuda nada a causa, pois não?
09 setembro 2018
Das viagens grandes e outras histórias
As viagens grandes, esses dias mágicos de Agosto que me preparam para o ano novo que chega sempre nos primeiros dias de Setembro, não servem de nada se não aprenderemos, e aprender não é só deslumbrar-me com sítios estranhos, conduzir sem vozes que me mandem sair na rotunda, terceira saída, não são os sabores estranhos nem os nomes impronunciáveis das terras, aprender é ter vontade de mudar, é providenciar que aquilo que vimos, aquilo que nos pareceu fazer sentido, entre na nossa vida, devagar, mas entre mesmo, foi a seguir às viagens grandes que comprei uma bicicleta para as viagens curtas, que me decidi pela meditação, que me tornei vegetariano de tempos a tempos, que passei a descalçar-me quando entro em casa, que me viciei em livros de história de países que não são o meu, que aprendi italiano, que fiquei mais tolerante e com menos certezas.
07 setembro 2018
05 setembro 2018
28 agosto 2018
A cabana junto à praia
Nadar no Báltico, andar de bicicleta com chuva de frente, livros com histórias de criaturas míticas de bosques mágicos, conduzir em estradas com sinais de trânsito a dizer que os alces são um perigo, jantar salmão selvagem, almoçar ostras com cerveja fria, não falar português durante muitos dias, rede de dados inacessível, pensar que esta é capaz de ser a melhor viagem grande desde a das praias do desembarque.
23 agosto 2018
20 agosto 2018
18 agosto 2018
E foi o dia primeiro
Há um espanta-espíritos estrategicamente pendurado na ponta da minha rede do telheiro, quando o cão grande se aproxima para me oscular e lembrar-me que a vida não são só livros lidos na rede, o espanta-espíritos dá o seu sinal metálico e o cão grande afasta-se, temeroso dos poderes mágicos do espanta-espíritos que afinal é um espanta-cães grandes.
17 agosto 2018
Da empatia e outras histórias
Durante duas ou três semanas por ano, eu sou o tipo que calcorreia as Alfamas e as Madragoas das cidades onde escolho ir acordar.
É por isso que gosto de os ver na minha cidade, afinal somos da mesma tribo, também eu os aborreço com os meus retratos, também eu lhes tiro lugar no restaurante favorito, também eu escuto histórias inventadas dos lugares que me mostram e, às vezes, acredito.
É por isso que gosto de os ver na minha cidade, afinal somos da mesma tribo, também eu os aborreço com os meus retratos, também eu lhes tiro lugar no restaurante favorito, também eu escuto histórias inventadas dos lugares que me mostram e, às vezes, acredito.
16 agosto 2018
Ah, o Algarve em Agosto...
Estatisticamente falando, a cabana de madeira com o Báltico de um lado e a floresta com um lago do outro, onde me dedicarei a leituras durante o dia e a ver o céu estrelado à noite nos próximos tempos, não deverá ser abençoada com um estabelecimento comercial nas proximidades que tenha o logotipo dos Cafés Camelo, isto digo eu, que sou pessoa de se por a adivinhar futuros e, estatisticamente, lá está, as coisas acontecerem como eu previ que acontecessem, razão pela qual dei por mim a vasculhar a parte mágica do meu sótão, a que tem as inutilidades que, nunca se sabe, talvez um dia venham a ter segunda vida, e lá descobri, por entre os esquis com correias de couro e o boneco do Naranjito, a minha fiel máquina de café individual, uma peça em ferro que se divide em duas, por baixo coloca-se a água, por cima o café moído, depois é colocar ao lume e esperar que a água suba, que se misture com o café e, finalmente, aguardar que o café desça, gota a gota, para a chávena de grés com o símbolo do Sporting e me aconchegue as noites de salmão selvagem e boa cerveja nórdica.
13 agosto 2018
05 agosto 2018
Para memória futura
O dia mais quente do século passei-o eu meio submerso nas águas da ribeira de Loriga, entre cinquenta páginas de Torga e uns peixinhos do rio de escabeche.
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