E fascinam-me ainda os que chegam de Lisboa, todo o ano sem dispensar a camisa branca e os botões de punho, todo o ano escanhoados e perfumados com Bulgari de aeroporto, todo o ano com a fiel secretária a segredar-lhes o essencial da reunião que vai ter a seguir, fascina-me vê-los agora com barba de três dias mal cuidada, o fato Boss trocado pelo pólo Timberland de um cor de rosa que os desconforta, fascina-me vê-los levar tareias dos da terra a jogar matrecos, com o ar imbecil de quem acha justo os da terra jogarem melhor matrecos por contraponto de eles jogarem melhor na Bolsa, fascina-me a dificuldade com que se equilibram numas sandálias Havaianas, os pés a clamar por sapatos pretos que os protejam das pedras do caminho, fascinam-me os livros tontos que lhes aconselharam para leitura de férias que substituem os relatórios e contas e que eles deixam na toalha com a capa para baixo, não vá um igual estar por aquelas paragens e vislumbrar tão fraco livro, fascina-me o Record lido de trás para a frente, tal e qual o Diário Económico. Hei-de cruzar-me com eles algures em Setembro, em frente ao meu espelho.
Bonito exercício de humildade, caro Pipoco. O meu espelho também é uma imensa janela.
ResponderEliminarE alguns enfiam o Financial Times do dia junto com a toalha de praia, só ver se conseguem resistir à tentação de o abrir, estando certos de que um broadsheet com folhas cor de salmão é uma escolha péssima em dias ventosos, sofrível nos dias de brisa moderada, confortados contudo com a notícia de que as empresas europeias distribuíram dividendos record no trimestre que terminou em Junho. Melhor mesmo seria água a 23 ou 24 graus, mas isso já era pedir demais, presumo.
ResponderEliminarAproveite esta liberdade, não sabe tão bem?
ResponderEliminarMuito bem Pipoco, em várias frentes, assim é que é.
ResponderEliminarConfesso-lhe que não sei quais me fascinam mais, se estes, se os anteriores, são todos peixes fora de água, a tentar ser o que não são e é só por isso que se tornam caricaturáveis, só por isso, as máscaras são desconfortáveis, daí o Carnaval só durar três dias.
Eu, que sou um bocadinho assim, dou grandes trepas nos matrecos, à malta lá da aldeia. Tinha muito a aprender aqui com a secretária Senhor Pipoco.
ResponderEliminarContinua fascinado pela companhia de lázaros e fantasias de pequenos. Charlas de turcos e cristãos, à moda medieval.
ResponderEliminarRendi-me, Pipoco.
ResponderEliminarAli atrás incluí-o no grupo dos Pipocos. Injustamente, pelo que leio, agora, já que humildade é característica que não reconheço àqueles de quem falo.
Queira desculpar-me.
Pareces eu
ResponderEliminarFascina-me a sua (e a minha) capacidade de não perdermos o sentido crítico próprio. É muito fácil apontar o dedo a terceiros. É muito mais complicado quando temos de olhar para o umbigo.
ResponderEliminarBoas férias!