Mister Bruno pára o seu Range Rover com matrícula da Pensilvania e pergunta-me se quero boleia para os últimos quatro quilómetros do caminho. Como me perdi e fiz cinco quilómetros inúteis e já levo doze horas de montanha nas pernas, parece-me uma espécie de justiça divina e aceito. Mr. Bruno conta-me que fugiu da guerra da Jugoslávia, os Sérvios punham tudo a ferro e fogo e o Montenegro não contava numa luta desigual, fugiu para os Estados Unidos, trabalhou doze anos seguidos. A cada curva da estrada aponta para a encosta e anuncia que tudo aquilo é dele. Na estrada ainda salvamos uma holandesa que apanhou um golpe de calor, este trilho não é para principiantes, diz a amiga, levamos as duas holandesas a porto seguro, Mr Bruno dá as suas ordens na língua local e todos o cumprimentam, desde o homem que conduz o burro com troncos às costas, um amigo da escola primária de Mr. Bruno que decidiu ficar, até ao homem com um BMW com matrícula de Nova Iorque, Mr. Bruno parece feliz com a sua vida e goza este fim de dia em que salvou almas penadas dos rigores da montanha. Desejamo-nos a melhor das sortes, que parece que já temos.
21 agosto 2023
17 agosto 2023
Algarve em Agosto
Daqui onde me encontro, nesse sítio onde Kadaré me conta que acontecem as vinganças albanesas, se alguém mata alguém, outro alguém da família do morto tem o direito e a obrigação de matar alguém da família do assassino, que se torna a família do assassinado, e assim sucessivamente, só vejo paz. O Kosovo está do outro lado do monte e pessoas boas oferecem-me cerveja fria e queijo feito por elas. Sorriem e o sorriso diz as palavras que lhes faltam em inglês. Eu subo, é para isso que cá estou, para subir estas montanhas a que chamam malditas, mas eu, que sei coisas de montanhas, sei que não há montanhas malditas.
09 agosto 2023
Recomeçar
Em verdade te digo, Ruben Patrick, recomeçar não é complicado, complicado é justificar a mim próprio ter Antologia Policial Minerva na mesa de cabeceira e José Pinhal Post-Mortem Experience nas músicas mais ouvidas, complicado é ser jogador do Fócuporto e ter amanhã o Sérgio Conceição a dar palestra, complicado é ter comido francesinha dois dias seguidos.
13 março 2022
Em doze anos...
... li menos de cem páginas de Ulysses, os sobrinhos cresceram mas continuam a dormir no meu sótão uma semana por ano, o Sporting foi campeão, escrever num blog passou a ser uma excentricidade, troquei o barca Velha pelo Mirabilis, o Old Bushmills pelo Nikka, mantive o gin sem coisas a boiar, mantive-me imortal, passei de seis para cinco cafés por dia, mudei de vida, voltei a mudar, quase me desfiz a esquiar com Grieg nos ouvidos, tive pena de pessoas disto dos blogs, joguei póquer e ganhei quase sempre e li, li sempre, li muito, li demasiado.
Doze anos de Pipoco. E tudo vai bem.
20 fevereiro 2022
Eppure...
13 fevereiro 2022
Na esplanada da avenida da Liberdade...
... na mesa ao lado da minha, um homem com idade de quem podia perfeitamente ter ido ver os Police ao Restelo, contava a sua má fortuna a duas mulheres, o homem contava os seus medos e uma das mulheres aligeirava-lhe o discurso e repetia o que o homem tinha dito, usando com palavras mais ligeiras.
Nunca apreciei apaziguadoras de angústias.
01 fevereiro 2022
Debriefing
08 janeiro 2022
Para além dos poucos caracteres
Andam sossegadas, as pessoas. Escondem-se atrás do "é melhor não ir, que isto está outra vez complicado" e evitam os jantares onde se discute ao sabor de um bom tinto do Dão, desses jantares onde se discute a sério e percebemos que afinal cada vez temos menos certezas. E aprendem menos, as pessoas em sossego habituam-se a escutar só as suas tribos, é mais seguro, mas com as nossas tribos não aprendemos nada. Viajam menos, o que também não é bom para ninguém, pessoas que não saem do mesmo sítio são pessoas que se não aguentam mais de dez minutos. Andam sossegadas, as pessoas, e não coisa mais triste que pessoas em sossego.
05 dezembro 2021
24 novembro 2021
Quarta, às nove da manhã
Eu, que sempre confundi Alan Parsons Project com Barclay James Harvest, o Forest Green com o North Texas Green na escala Pantone, a Avenida António Augusto de Aguiar com a Joaquim António de Aguiar, o terminal dois com o terminal 4 de Barajas, a Marcha Nupcial de Wagner com a de Mendelsson, Jorge Jesus com o quadro do menino da lágrima, a Judite de Sousa com o Júlio Isidro, sei distinguir perfeitamente o logotipo da CNN Portugal e o da Correio da Manhã TV.
23 novembro 2021
Terça, às nove da manhã
Por razões que desconheço, há muitos anos me reconhecem habilidade para escolher vinhos, não importa a mesa que for, os novos entrantes nas tertúlias habituam-se desde a primeira vez que quem escolhe o vinho é o Pipoco, havendo sempre quem recorde pomadas lendárias que este que vos escreve escolheu, basta essa invocação para que se perpetue a regra sagrada e controle os ímpetos dos que chegam, desmoralizando-os de mostrarem os seus saberes ou de se candidatarem a macho-alfa dos jantares, amaciando-lhes os níveis de testosterona e mantendo a tradição de as coisas serem como são, soubessem eles que me limito a encenar o momento, colocando com vagar os meus óculos de ver ao perto, os de aros redondos, demorando-me na escolha, hesitando, perguntando ao empregado por vinhos que já sei que não estão na carta, questionando se não terão por acaso a colheita de um ano que sei estar esgotado, escolhendo finalmente, a multidão silenciosa, aguardando o veredicto, enquanto o empregado vai e vem eu anuncio o que nos espera, usando com saber mas aleatoriamente as palavras "final de boca a morango" se for tinto ou "cítrico" se for branco, demorando-me na influência que cada casta tem no blend, anunciando o tipo de madeira em que o vinho foi guardado, finalmente a chegada do vinho, a demora na prova, duas ou três notas segredadas com ar severo ao empregado, aconselhar que deixem o vinho respirar dois ou três minutos para que liberte os vapores certos, explicar que aquela acidez é por ser um vinho de vinhas velhas, todos assentindo que sim, que se nota perfeitamente, garantindo que ainda não é desta vez que dirão de Pipoco que ele não é grande coisa a escolher vinho.
22 novembro 2021
Segunda, às nove da manhã
Viciei-me então em séries policiais que acontecem em países onde há muito frio, talvez seja influência de Jo Nesbo ou de Stieg Larsson, são séries que começam sempre com morte, mas a seguir há sempre casas junto de lagos gelados e montanhas com neve, acontece-me sempre atiçar mais o lume de azinho, ir buscar um chá desses que me trazem de Londres e ficar ali a encantar-me com o dinamarquês ou com o islandês, antes de dormir e pensar que neste inverno hei-de ir esquiar ou pelo menos ver uma aurora boreal.
21 novembro 2021
Domingo às nove da manhã
A segunda mulher mais fascinante que conheci tinha uma habilidade que não conheci a nenhuma outra, chagava sempre a desoras à verdade, a maioria das vezes chegava muito adiantada, acho que era por aqui que ela me fascinava, o que dizia ser a verdade acabava por acontecer, anunciava a alguém que eu não sei quê e, mais dia menos dia, era certo que realmente eu acabava por não sei quê, o fascínio tem destas coisas, noutras ocasiões, mais raras, chegava atrasada à verdade, nessa altura era eu quem chegava a horas e ela, a segunda mulher mais fascinante que conheci, demorava-se no caminho com minudências e acabava por chegar à verdade mais tarde, quase sempre demasiado tarde, e foi por isso que ela lá está naqueles labirintos dela e eu cá estou como estou.
20 novembro 2021
La folie
Por acasos que não controlei, dei por mim a ouvir "Let me down easy", uma coisa antiga dos Stranglers, recordo vagamente a capa do álbum com uma orelha gigante, acontece-me que as músicas de tempos mais atrasados me transportam para o que estava eu a fazer por aqueles tempos, e era o tempo do Green Hill e da Seagull, de máquinas de flippers nos cafés de má fama, do Tetris em casa e do Space Invader nas salas de jogos, das longas noites de bilhar, quem perdia pagava, do Damas e do Jordão, dos sítios onde se ia à noite e nunca se sabia quem aparecia, não havia maneira de ligar e perguntar onde estava quem atendia, estava em casa, ora essa, uma coisa leva à outra e eu estava com tempo livre e com um telemóvel nas mãos, de maneira que sou agora o feliz possuidor de um bilhete para o Olympia de Paris, lá para Março.
04 novembro 2021
Post em tempo real
Está um casal de velhinhos estacionado ao meu lado, a ver o mar e com as janelas do carro abertas, os dois de máscara, cada um a ler a sua metade do Correio da Manhã, e o senhor velhinho está a ler as notícias à senhora com aquele ritmo de leitura e aquela entoação que os meninos do segundo catecismo usam quando lhes calha ler a epístola de São Paulo aos Coríntios, e eu não consigo sair daqui, de tão enternecido que estou, apesar de me chegar aos ouvidos um bocadinho de rádio Amália e eu ter uma reunião de orçamento daqui a nada.
18 outubro 2021
Diz que o facebook é uma má coisa
13 outubro 2021
Pipoco também quer dizer coisas de Squid Game
Quando os tipos acordam no dormitório, despertados por uma música boa, aquilo é Haydn, o concerto para trompete.
11 outubro 2021
Ai Weiwei
Se as outras opções forem fazer uma apresentação sobre a escala que é preciso ter para que o custo de produção de hidrogénio verde seja coisa para se pagar em cinco anos, acabar o último livro da Almudena Grandes ou tentar marcar mesa para jantar num restaurante decente em Lisboa, então sim, ir ver aquilo do Ai Weiwei é uma excelente opção.
09 outubro 2021
Do último Bond
De todos os desgostos maiores que fui tendo na minha longa vida, e aqui incluo os mais tremendos, o Sporting ter sido eliminado pelo Gençlerbirligi, as últimas quatro temporadas de "La Casa de Papel" ou já se terem passado quinhentos dias seguidos sem eu ter calçado umas botas de esqui, talvez o maior deles tenha sido esta situação do último Bond, James Bond, coisa para nos fazer repensar que sociedade deixamos como legado às gerações vindouras, uma página negra do que somos enquanto indivíduos e que nos deverá fazer reflectir em como aqui chegámos, os que se dedicam a estudar estes fenómenos dirão desta situação o mesmo que se disse de quando a Coca-Cola resolveu mudar de sabor ou quando a Mercedes achou que um Mercedes barato era uma ideia vencedora, a Bond, James Bond, pede-se que sobreviva ao pior dos bandidos, que esteja entretido com uma Bond girl no fim do filme enquanto o primeiro ministro o tenta contactar, que verifique que horas são no seu Omega para ver se ainda tem tempo para mais um Martini shaken not stirred, antes de entrar no Aston Martin que muda de matrícula e espalha pregos que furam os pneus dos carros que vêm atrás, o desgosto maior é ver que Bond, James Bond, sobreviveu ao Dr. No, Blofeld, Scaramanga e ao Goldfinger mas não sobreviveu ao politicamente correcto.