Eu, que sempre confundi Alan Parsons Project com Barclay James Harvest, o Forest Green com o North Texas Green na escala Pantone, a Avenida António Augusto de Aguiar com a Joaquim António de Aguiar, o terminal dois com o terminal 4 de Barajas, a Marcha Nupcial de Wagner com a de Mendelsson, Jorge Jesus com o quadro do menino da lágrima, a Judite de Sousa com o Júlio Isidro, sei distinguir perfeitamente o logotipo da CNN Portugal e o da Correio da Manhã TV.
24 novembro 2021
23 novembro 2021
Terça, às nove da manhã
Por razões que desconheço, há muitos anos me reconhecem habilidade para escolher vinhos, não importa a mesa que for, os novos entrantes nas tertúlias habituam-se desde a primeira vez que quem escolhe o vinho é o Pipoco, havendo sempre quem recorde pomadas lendárias que este que vos escreve escolheu, basta essa invocação para que se perpetue a regra sagrada e controle os ímpetos dos que chegam, desmoralizando-os de mostrarem os seus saberes ou de se candidatarem a macho-alfa dos jantares, amaciando-lhes os níveis de testosterona e mantendo a tradição de as coisas serem como são, soubessem eles que me limito a encenar o momento, colocando com vagar os meus óculos de ver ao perto, os de aros redondos, demorando-me na escolha, hesitando, perguntando ao empregado por vinhos que já sei que não estão na carta, questionando se não terão por acaso a colheita de um ano que sei estar esgotado, escolhendo finalmente, a multidão silenciosa, aguardando o veredicto, enquanto o empregado vai e vem eu anuncio o que nos espera, usando com saber mas aleatoriamente as palavras "final de boca a morango" se for tinto ou "cítrico" se for branco, demorando-me na influência que cada casta tem no blend, anunciando o tipo de madeira em que o vinho foi guardado, finalmente a chegada do vinho, a demora na prova, duas ou três notas segredadas com ar severo ao empregado, aconselhar que deixem o vinho respirar dois ou três minutos para que liberte os vapores certos, explicar que aquela acidez é por ser um vinho de vinhas velhas, todos assentindo que sim, que se nota perfeitamente, garantindo que ainda não é desta vez que dirão de Pipoco que ele não é grande coisa a escolher vinho.
22 novembro 2021
Segunda, às nove da manhã
Viciei-me então em séries policiais que acontecem em países onde há muito frio, talvez seja influência de Jo Nesbo ou de Stieg Larsson, são séries que começam sempre com morte, mas a seguir há sempre casas junto de lagos gelados e montanhas com neve, acontece-me sempre atiçar mais o lume de azinho, ir buscar um chá desses que me trazem de Londres e ficar ali a encantar-me com o dinamarquês ou com o islandês, antes de dormir e pensar que neste inverno hei-de ir esquiar ou pelo menos ver uma aurora boreal.
21 novembro 2021
Domingo às nove da manhã
A segunda mulher mais fascinante que conheci tinha uma habilidade que não conheci a nenhuma outra, chagava sempre a desoras à verdade, a maioria das vezes chegava muito adiantada, acho que era por aqui que ela me fascinava, o que dizia ser a verdade acabava por acontecer, anunciava a alguém que eu não sei quê e, mais dia menos dia, era certo que realmente eu acabava por não sei quê, o fascínio tem destas coisas, noutras ocasiões, mais raras, chegava atrasada à verdade, nessa altura era eu quem chegava a horas e ela, a segunda mulher mais fascinante que conheci, demorava-se no caminho com minudências e acabava por chegar à verdade mais tarde, quase sempre demasiado tarde, e foi por isso que ela lá está naqueles labirintos dela e eu cá estou como estou.
20 novembro 2021
La folie
Por acasos que não controlei, dei por mim a ouvir "Let me down easy", uma coisa antiga dos Stranglers, recordo vagamente a capa do álbum com uma orelha gigante, acontece-me que as músicas de tempos mais atrasados me transportam para o que estava eu a fazer por aqueles tempos, e era o tempo do Green Hill e da Seagull, de máquinas de flippers nos cafés de má fama, do Tetris em casa e do Space Invader nas salas de jogos, das longas noites de bilhar, quem perdia pagava, do Damas e do Jordão, dos sítios onde se ia à noite e nunca se sabia quem aparecia, não havia maneira de ligar e perguntar onde estava quem atendia, estava em casa, ora essa, uma coisa leva à outra e eu estava com tempo livre e com um telemóvel nas mãos, de maneira que sou agora o feliz possuidor de um bilhete para o Olympia de Paris, lá para Março.
04 novembro 2021
Post em tempo real
Está um casal de velhinhos estacionado ao meu lado, a ver o mar e com as janelas do carro abertas, os dois de máscara, cada um a ler a sua metade do Correio da Manhã, e o senhor velhinho está a ler as notícias à senhora com aquele ritmo de leitura e aquela entoação que os meninos do segundo catecismo usam quando lhes calha ler a epístola de São Paulo aos Coríntios, e eu não consigo sair daqui, de tão enternecido que estou, apesar de me chegar aos ouvidos um bocadinho de rádio Amália e eu ter uma reunião de orçamento daqui a nada.
18 outubro 2021
Diz que o facebook é uma má coisa
13 outubro 2021
Pipoco também quer dizer coisas de Squid Game
Quando os tipos acordam no dormitório, despertados por uma música boa, aquilo é Haydn, o concerto para trompete.
11 outubro 2021
Ai Weiwei
Se as outras opções forem fazer uma apresentação sobre a escala que é preciso ter para que o custo de produção de hidrogénio verde seja coisa para se pagar em cinco anos, acabar o último livro da Almudena Grandes ou tentar marcar mesa para jantar num restaurante decente em Lisboa, então sim, ir ver aquilo do Ai Weiwei é uma excelente opção.
09 outubro 2021
Do último Bond
De todos os desgostos maiores que fui tendo na minha longa vida, e aqui incluo os mais tremendos, o Sporting ter sido eliminado pelo Gençlerbirligi, as últimas quatro temporadas de "La Casa de Papel" ou já se terem passado quinhentos dias seguidos sem eu ter calçado umas botas de esqui, talvez o maior deles tenha sido esta situação do último Bond, James Bond, coisa para nos fazer repensar que sociedade deixamos como legado às gerações vindouras, uma página negra do que somos enquanto indivíduos e que nos deverá fazer reflectir em como aqui chegámos, os que se dedicam a estudar estes fenómenos dirão desta situação o mesmo que se disse de quando a Coca-Cola resolveu mudar de sabor ou quando a Mercedes achou que um Mercedes barato era uma ideia vencedora, a Bond, James Bond, pede-se que sobreviva ao pior dos bandidos, que esteja entretido com uma Bond girl no fim do filme enquanto o primeiro ministro o tenta contactar, que verifique que horas são no seu Omega para ver se ainda tem tempo para mais um Martini shaken not stirred, antes de entrar no Aston Martin que muda de matrícula e espalha pregos que furam os pneus dos carros que vêm atrás, o desgosto maior é ver que Bond, James Bond, sobreviveu ao Dr. No, Blofeld, Scaramanga e ao Goldfinger mas não sobreviveu ao politicamente correcto.
26 setembro 2021
E para jogar poker e comprar uma garrafa de Hennessy
Faltam-me horas para ir ver o último do zero zero sete, para ir ao Meridional ver Kiki von Beethoven, um monólogo daqueles que fazem de nós melhores pessoas, para ir ver o Sporting a Alvalade, para o jantar das pessoas da minha rua e das pessoas dos meus estudos, para o mítico fim de semana dos sobrinhos e para o fim de semana na Graciosa, para os projetos da bazuca e para o orçamento do ano que vem, para ler os livros que comprei este mês e para juntar mais Grieg e Mendelssohn ao meu Spotify, para decidir em quem voto e para escrever a uma espécie de amiga que, sei-o bem, sem mim irá de vitória em vitória até à derrota final.
23 setembro 2021
A verdade é que simpatizo com o processo criativo dos negacionistas...
...é um daqueles processos que é tão bom que é mau, primeiro a dúvida sistemática, nada os convence à primeira, lá está, com tantas notícias falsas por aí à solta há que analisar a coisa por outros pontos de vista, é vê-los a franzir o sobrolho como o velho Statler, o mais céptico dos Marretas, isto aqui há gato, lá está o poder a querer manipular, vamos lá criar uma narrativa que misture a frequência de Deus com os Illuminati, Rosewell com o triângulo das Bermudas, problema é quando a realidade não encaixa na narrativa que eles inventaram, o quê, o Sporting foi campeão?, ora vamos lá verificar isso, mostramos-lhes o vídeo dos jogos, dizem-nos que podem ser jogos de campeonatos passados, mostramos-lhes os estádios sem público por causa da pandemia, afinal é um sinal de que os jogos são do último campeonato, mas esbarramos no argumento de não ter havido pandemia, logo aqueles jogos sem público por causa da pandemia não podiam ter acontecido, é a lógica a funcionar, e acaba-se a conversa, assim se prova que não é certo o Sporting ter sido campeão, a não ser que eu queira ser da manada dos que acreditam nisso, o problema é meu que não sei pensar pela minha cabeça, impressiona-me o processo criativo, não sei se já tinha dito, afinal a realidade paralela é muito mais interessante que a outra, a da vida real, e eu, que cada vez sei menos de situações, sei que estas pessoas são muito mais divertidas e muito mais felizes do que eu, que continuo a acreditar no que vejo e sou cá manada, um tipo que aborrece as pessoas.
20 setembro 2021
Pipoco em modo bucólico
Às vezes sinto vontade de ter uma dessas vidas em que não se corre atrás de nada, teria um desses trabalhos onde as pessoas são promovidas porque estão lá há muito tempo, leria um livro por ano, de preferência um que tivesse conselhos para se mudar de vida, compraria um Fiat Tipo ou um Nissan Qashqai, iria ao Algarve no verão e à serra da Estrela quando nevasse, seria sócio do Benfica e do Automóvel Clube, para ter gasolina mais barata às terças-feiras, os meus filhos haviam de se chamar Vanessa e Ruben, saberia a vida passada da namorada do Cristiano Ronaldo e as promoções do Pingo Doce.
Depois convido uns amigos para um almoço cá em casa e um deles traz a mulher nova, que é tal e qual essas pessoas, mas em um bocadinho melhor, esta tem um filho que se chama Zé Paulo, e passa-me logo a vontade.
12 setembro 2021
São precisos dezoito dias e meio para se ter oitocentos e doze seguidores nisso do twitter
Escolhe um bom retrato, um que favoreça e onde apareças com um cão, não importa que o retrato seja tão antigo que foi tirado há dois cães atrás, escreve o teu nome, não é importante que seja o teu verdadeiro nome, coloca pelo menos dois apelidos, Bernardo Moura Thyssen é um bom nome, comenta com sabedoria os que aparecem na televisão, a Câncio e a Constança são aposta certa, são reactivas e estão sempre ligadas, provoca os trogloditas do momento, um insulto com pés e cabeça são trinta seguidores em caixa na hora seguinte, os trogloditas vão dar-te atenção, dão sempre, não resistem a uma boa ferroada, republicarão o teu comentário e duplicarás o teu tempo de antena, não carregues na tecla dos corações, só o dono da conta se preocupa com a tecla dos corações e a ti interessa-te toda a gente menos o dono da conta, foca-te no comentário, qualquer coisa entre o inteligente arrogante e o irónico corrosivo, acaba sempre com reticências, quando se termina com reticências é porque podemos estar a dizer aquilo ou outra coisa qualquer, o twitter gosta dessa displicência, não retwittes sem colocares o teu ponto de vista, escolhe um desgraçado qualquer para gozares, de preferência um que te pareça não ter andamento para isto do twitter, com três seguidores, explora o filão até o desgraçado fechar a conta, nunca concordes com ninguém, concordar com coisas dirá de ti que és um fraco sem opinião, foca-te num ódio de estimação, podem ser os ciclistas, o Jorge Jesus ou os que não gostam de foie-gras por causa daquilo do sofrimento dos perús, o teu ódio de estimação tem que ser qualquer coisa local, o Afeganistão ou o aquecimento global não dão em nada, analisa as coisas pela rama, com aquela profundidade que só o correio da manhã é capaz, as pessoas não querem saber, afinal andam todos ao mesmo, todos queremos pensar que alguém liga à nossa opinião, o monstro precisa de amigos, não comentes tudo o que acontece num jogo da bola, ninguém lerá o que te pareceu o quinto cartão amarelo nem saberá o que queres dizer com aquele "Nãoooo!" que fazia tanto sentido quando marcaram um penalty contra a tua equipa, orgulha-te por teres sido bloqueado e mostra-o a toda a gente, nunca expliques uma piada, se não resultou, se ninguém percebeu o teu sentido de humor alternativo, segue jogo, escreve duas ou três coisas seguidas sobre o direito que os homossexuais têm de ser felizes ou sobre a barbárie que são as touradas, estás safo, volta a escrever no blog.
02 setembro 2021
30 agosto 2021
26 agosto 2021
24 agosto 2021
Da viagem grande e outras situações (II)
Gosto do ambiente nostálgico destas estâncias de esqui no Verão, são uma espécie de lugares-fantasma, as lojas de aluguer de material para esquiar estão fechadas, os teleféricos estão em manutenção, as informações sobre a cor das pistas parecem deslocadas, restam um ou dois restaurantes de comida fácil e meia dúzia de pessoas que estão cá para estar em sossego ou para fazer uma descida de parapente, é uma espécie de Vilamoura em Dezembro, enfim, precisamente aquilo que eu procurava depois dos dias de montanha a sério, dos dias em autonomia e de me desviar dos bravos do Grand Raid des Pyrénées, bem mereço estes dias de livros e café quente.
23 agosto 2021
Ainda agora
São quatro da manhã, bela hora para sair e ver o nascer do sol no Pic du Midi, pelo menos ontem, depois de uma sessão de cervejas artesanais com oito graus e meio de teor alcoólico, malditos monges beneditinos ou lá de que confraria eles são, parecia uma excelente ideia, o melhor é levar os bastões de caminhada e água, comida e um impermeável, é cortar no peso, o tempo está bom, só o essencial, subimos, subimos sempre, caramba, como o tempo mudou, o impermeável afinal faz falta, logo hoje que trouxe t-shirt de algodão, o melhor é parar e comer uma barra energética, comida? ninguém trouxe?, siga, é subir, um pé a seguir ao outro, comandar a respiração e controlar o batimento, de quem foi a ideia de ver nascer o sol? não há sol mas há chuva com fartura, era para ter cortado à esquerda lá atrás e lá atrás são vinte minutos perdidos, sobe, sobe sempre, cá estamos, era aqui mas não há sol, é descer, reaperta as botas para a descida, os músculos são outros, dói? faltam só duas horas, é já ali, a rocha escorrega, foca-te, não digas palavrões, diz bonjour aos senhores que estranham ver-te descer tão cedo, não vaciles, pode ser que o homem que vende queijo de brébis no vale já esteja no seu posto, afinal não está, logo hoje que precisávamos dele, chegaste ao fim, tomas um banho quente, um café a ferver, daqui a anda estás noutra sessão de cervejas artesanais, o que vamos fazer amanhã?

