Quando se escolhe não chegar depressa e se usa a velha estrada para o Sul, a que atravessa a serra, bem entendido, a cada vez o caminho é único, por mais vezes que se faça a estrada velha ela nunca é igual à última vez, quer se faça de prego a fundo e com a electrónica desligada para que nunca nos esqueçamos de como se conduz, ou devagar, com uma sonata para piano a marcar o compasso e com os vidros abertos a deixar entrar os ares secos que fazem apetecer uma cerveja fria à chegada, as estradas que se fazem devagar são como aquelas ocasiões em que mulheres raras encostam a cabeça no nosso peito e é só aquilo, sem agitações nem promessas que ninguém vai cumprir, apenas uma mulher com os olhos fechados no nosso peito, sem defesas nem truques.
25 junho 2021
24 junho 2021
Do sul
De todos os protocolares afazeres destes dias de Sul, o jantar com os amigos que vivem na serra e de onde regresso noite alta com a lua cheia por estradas que me fazem ter saudades de um velho carro italiano que já não tenho, o gin tónico no restaurante que fica onde acaba o Guadiana e se observa o melhor fim de dia do Sul ou os dias feitos de mar e livros, o que mais me afadiga é o lendário almoço anual chez Don Gigi, o protocolo de atravessar a ponte de madeira, a curiosidade de saber que árias serão cantadas, a certeza de o peixe chegar no ponto certo de grelha, a conversa sobre o que a vida nos oferece de bom, afinal o assunto maior das nossas vidas.
10 junho 2021
Adolfo Dias
05 junho 2021
Zé Alexandre
O Zé Alexandre era um daqueles tipos a quem acontece todas as vizinhas das redondezas iniciarem-se nas artes do amor e ele não se poder gabar de ter alguma a coisa a ver com o processo, andávamos nós a esforçar-nos por trabalhar à noite num bar de praia que nos pagasse a volta pela Europa de comboio em Agosto e o Zé Alexandre a carregar caixotes de fruta no mercado antes das seis da manhã, uma coisa sem jeito nenhum mas que estranhamente lhe garantia ser sempre o primeiro, quase sempre antes de Março, a comprar o bilhete de inter-rail, disse-lhe um dia, quando ele se escapou no último dia de escalada na Suíça para comprar umas botas de montanha em condições que substituíssem uma lendárias botas de trabalhar nas obras com que ele tinha arriscado duas semanas ficar sem dedos dos pés, e nunca mais chegava de comprar as botas e quase nos fez perder o comboio para Paris, tendo que se mudar em Berna, disse-lhe, dizia eu, as sábias e sobranceiras palavras "Zé Alexandre, daqui a dez anos estarás a viver em Massamá, num rés-do-chão de onde verás o pessoal mijar à noite na parede do teu prédio, com um Fiat Uno azul cobalto comprado em segunda mão estacionado à porta e com Lava-me Porco escrito a dedo no vidro traseiro, sairás de manhã para trabalhar na propaganda médica ou num balcão de um banco, terás duas semaninhas de férias no Inatel de Ferragudo, ou lá onde é qua há Inatéis, onde andarás todos os dias de calções de jogar à bola e uma camisa às riscas, de manga curta, terá dois filhos, um vai-se chamar Fábio e à miúda chamarás Soraia".
Enganei-me bem.
04 junho 2021
Das coincidências
Eu, que não creio em coincidências, quando elas acontecem mesmo e não são uma manipulação bem encenada tendo sempre a atribuir-lhes alguma coisa de místico, um cruzamento sobrenatural de situações inexplicáveis que se encontram no tempo, mas ontem aconteceu mesmo uma dessas coincidências, um desses acasos que ficamos sempre a pensar que são coisa lá do grande algoritmo, estava eu em ambiente de franca confraternização com amigos de poucas exigências, servi-me de gin Gordon's, era o que havia, nem meia hora passada apareceu na confraternização uma velha conhecida que, num tempo muito lá ao fundo, me ensinou coisas variadas, a mais importante das quais foi que havia vida para além da beberagem inventada pelo senhor Alexander Gordon e eu, que não creio em coincidências, fiquei a cismar com tão perfeito alinhamento de situações.
02 junho 2021
Eu...
... que depois de um terceiro gin já dancei como o Travolta no Pulp Fiction, que já agarrei uma mulher pela cintura como o Di Caprio na proa do Titanic, que já apresentei um cão ao mundo como o macaco apresentou Simba no Rei Leão, que já perguntei a um homem que mandava mais do que eu se ele estava a falar comigo como o De Niro em Taxi Driver, que digo várias vezes por semana Mostrem-me o dinheiro como o Cruise em Jerry Maguire, que já cantei à chuva como o Gene Kelly em Singin' in the Rain, que já rasguei páginas de relatórios inúteis como o Robin Williams em O Clube dos Poetas Mortos, que já fiz propostas irrecusáveis como o Marlon Brando em O Padrinho, ...
...nunca me aconteceu ver uma mulher cruzar as pernas como a Sharon Stone no Basic Instinct.
01 junho 2021
Às vezes chegam notícias
Chega-me a boa nova de os meus bilhetes para o espectáculo de John Cleese serem válidos para Junho de 2022, ora , sucedendo que eu já nem sequer me lembrava de ter ser proprietário de dois bilhetes para John Cleese, caiu-me bem a notícia, agora é esperar que John Cleese colabore...
31 maio 2021
Quatro e meia
Que importa se são quatro e meia, põe-te a pé, está certo que não há voos das sete para não perder, agora quase não fazes voos das sete, na verdade nem das sete nem nada, mas quatro e meia é uma hora tão boa como outra qualquer, avança, sempre despachas dois episódios do "Método Kominsky", temporada três, antes do sol nascer, depois escolhes correr o caminho para poente, terás o sol de frente na volta, talvez te ajude a decidir se é desta que compras o barco a remos para aproveitar melhor a barragem em fim de dia, ou então lês o que te falta dos livros que tens meio lidos e espalhados pela casa, afinal parece que vais ler um livro de respeito, é melhor enfrentá-lo sem contaminação, em não te apetecendo correrias com o cão ao lado, podes decidir por sentar-te em posição de flor de lótus e deixar que nada mais importe senão respirares, podes escolher uma voz que te guie e que invariavelmente te sugira, sem impor, que os teus pensamentos se passeiem pela empatia e pela quietude, desistirás ao fim de trinta segundos, bem-entendido, e escolherás afinal a correria, não há nada pior que os teus pensamentos deambulem por verdes prados e por terras de leite e mel, são sete da manhã, o tempo passa a correr, prepara um bom sumo das tuas laranjas e selecciona a Bartoli, não há melhor combinação do que Bartoli e sumo de laranja, isto tirando bola e bifanas ou imperial com camarão da costa.
(inspirado pela Flor e pela Susana, que não vislumbram a beleza que há em acordar às quatro e meia)
30 maio 2021
Em que seu pai o levou para conhecer o gelo
Às vezes, quase nunca, falham-me todas as artes da fuga e não tenho como escapar, eu e a flute de champanhe a ter que ficar até ao fim, felizmente não me falham as palavras, valha-me deus, continuam a ocorrer-me as mais adequadas às circunstâncias.
29 maio 2021
Havia de recordar aquela tarde remota
Estou prestes a abalar para o Sul, faço-o como as abetardas ou os flamingos, ou lá como se chama a passarada migradora que volta todos os anos, excepto nos anos de pandemia ou nos anos de viagens grandes que calham na mesma altura em que me sabe bem o Sul, um par de anos são muitos anos, bem sei que hei-de estranhar o que mudou, talvez o bar onde se via a bola esteja fechado, talvez Don Ramiro não esteja lá para me perguntar se prefiro lingueirão ou ventresca, talvez o mar não esteja tão batido pela ventania de sotavento, talvez os livros sejam mal escolhidos porque me faltará a feira de Junho, mas, em verdade vos digo, estão próximos os dias em que a melhor parte é ter demasiado tempo.
28 maio 2021
Diante do pelotão de fuzilamento
Da mesma maneira que as famílias felizes se parecem todas umas com as outras e cada família infeliz é infeliz à sua maneira, os amores que realmente contam são os que estão sempre revoltos, as pazes sempre por fazer, os outros, os da lareira acesa e cafunés, os de mantinhas e mau cinema, os de suspiros e concórdia, soam-me todos a música de elevador e a bacalhau com natas.
27 maio 2021
Muitos anos depois
Um dia, há demasiados anos, perguntaram-me por que nunca me despedia com lágrimas ou, pelo menos, com a voz entrecortada e as palavras a saírem a custo e eu fiquei de pensar nisso, disse-o com aquela convicção com que se diz a alguém que não estimamos por aí além que um dia destes havemos de ir jantar, afinal descobri que me despeço sem lágrimas nem voz entrecortada porque sei que havemos de nos encontrar lá à frente, num acaso cuidadosamente preparado.
17 maio 2021
Estava aqui a pensar...
... que o melhor da pandemia foi nunca mais se ter visto por cá nem o Riverdance nem aqueles tipos do Harlem Gospel Choir, embora estes só viessem por alturas do natal, a boa notícia era que estávamos avisados e podíamos sair da cidade a tempo, mas realmente, o que eu queria dizer é que hoje apertei a mão a um homem, um aperto de mão mesmo a sério, nada dessas bizarrias de encontros de punhos ou de cotovelos, um aperto de mão em que dois homens se olham nos olhos e apertam a mão com firmeza, coisa de serem pessoas em quem se pode confiar.
11 maio 2021
28 abril 2021
Sonhei com Lamborghinis roxos
O homem que vendia bolas de berlim à beira da autoestrada do norte, logo a seguir à saída de Aveiras sentido sul-norte, conhecia de vista o Fábio Coentrão, do tempo em que lhe orientava convites para a superior norte do estádio da luz e tinha um Ford Capri a gasolina que gastava quinze litros aos cem que só conseguia aguentar com um negócio paralelo de marcar golos de trivela no Sacavenense, mas só se fossem jogadas pelo corredor direito porque o homem que vendia bolas de berlim à beira da autoestrada do norte era esquerdino, quer dizer, não era bem, na verdade o pé direito tinha um estilhaço de granada, coisas dos tempos de boina negra na Guiné e o estilhaço, embora fosse bom para aviar com fratura exposta o defesa esquerdo adversário, prejudicava a trajetória em forma de curva de gauss, mas observada por uma rotação longitudinal de noventa graus, das trivelas, e foi por isso, e também por não lhe ter sido oferecida a oportunidade de sair com caução, que o homem foi preso, ele e um fornecedor de bolas de bolas de berlim de alfarroba, era o tempo em que estavam na moda porque se dizia que não engordavam tanto, isto se fossem sem creme, como é bom de ver, e tinha a polícia os dois facínoras em celas separadas, mas como não tinham artilhado a coisa de forma a apanhá-los em flagrante delito só os podiam condenar a seis meses de cadeia por um delito menor, mas não mais do isso, não os conseguiam condenar à pena máxima de cinco anos de cadeia, que é o castigo justo para quem vende bolas de berlim à beira da autoestrada do norte, a não ser que um deles confessasse o crime e é aqui que a polícia se lembra da solução, tecnicamente chama-se o dilema do prisioneiro e, consiste em apresentar o seguinte acordo a cada prisioneiro: em troca de uma acusação do parceiro, é-lhe concedida a liberdade e o parceiro leva com cinco anos de prisão mas se nenhum incriminar o outro a coisa fica em 6 meses para cada um, se ambos se incriminarem o resultado é uma pena de 2 anos para cada, ora a coisa acaba como tem que acabar, é assim a natureza humana, cada um escolherá incriminar o parceiro, as pessoas olham só para o seu problema e é por isso que cada um vai apanhar dois anos de prisão, sem cuidar de pensar que afinal a melhor opção era não incriminar o parceiro, fosse assim e estavam livres ao fim de seis meses, passa num instante, mas realmente o que vos queria dizer é que começo mesmo a acreditar que somos campeões este ano e a verdade é que nunca se escreveu neste blog que somos campeões este ano, isto se excluirmos estas duas vezes, a desta linha e a da linha de cima.
16 abril 2021
Pipoco opina sobre "The One"
Devidamente aconchegado por generosas doses de Ardbeg, um malte que tem um final de madeira fumada que não vos passa pela cabeça, lá me dediquei àquilo do "The One", uma séria simpática que nos fala da beleza da alma compatível, é entregar um fio de cabelo e recebemos na volta do correio o contacto da nossa alma gémea, depois é fazer vir a pessoa lá do Burkina Faso ou das Ilhas Caimão, que isto das almas gémeas nem sempre são as girls next door, e não há que duvidar, em estando frente a frente libertam-se as feromonas ou a serotonina ou lá o que é, e a coisa dá-se, percebe-se que é para a vida, que com aquela mulher ao lado, bem sei, sou um dinossauro, resumo a coisa a um mundo heterosexual, mas com aquela mulher, dizia eu, não há quem tenha vontade de ir ao Brasil em negócios nem dar um salto ao Bairro Alto só para analisar o mercado, e vice-versa, ela tem-nos cativados para sempre, principezinhos e raposas, é aproveitar, poupa-se uma fortuna em restaurantes de boa fama, já não precisamos de fazer de conta que somos uns intelectuais incompreendidos para as conquistar, não teremos que escolher ser maus ou bons rapazes, elas não terão que espalhar generosas doses de essência de pêssego pela pele nem pintar as raízes do cabelo, os preliminares serão uma opção que ninguém usará, parece tão boa ideia, tão perfeito, tão vibrante e, afinal, é tão sem jeito nenhum.
15 abril 2021
Dos emojis e outras inutilidades
Prova de que ainda se aprendem coisas de valor nos blogs é eu ter tomado conhecimento pela São João que o lendário emoji “Chorar a rir”, essa bizarria
que apenas as pessoas vagamente minhas conhecidas me enviam quando lhes digo o
que me vai na alma, deixou de ser emoji mais usado. Enquanto damos um tempo a
nós próprios para recuperarmos totalmente desta notícia aziaga, cuidava eu que
o novo rei dos emojis fosse o emoji “coração”, afinal o amor é um sentimento
difícil de descrever por palavras, um coração encarnado dá sempre jeito para
estas coisas, é de espectro largo, tanto serve para declarar um amor para a
vida como para se dizer ao Ruben Patrick que foi um grande querido por ter
aparecido para nos desentupir o lava-louças, afinal não, o emoji “Coração” aparece
num miserável quinto lugar, é uma espécie de Vitória de Guimarães dos emojis, o
novo emoji-mor é agora o “Chorar Ruidosamente”, o que nos faz assumir que há
uma necessidade de majorar o riso, “Chorar
a rir” já não é suficientemente exuberante para expressar a piada que se acha
quando se recebe uma mensagem a dizer “O Ruben Patrick já me desentupiu a canalização…”,
isto é coisa para um “Chorar ruidosamente”, para uma coisa desta categoria temos
que ter disponível um riso superlativo, onde as lágrimas escorram em torrente
pela cara abaixo, mas afinal que sei eu? que nunca precisei de usar emojis para
dizer as coisas.
12 abril 2021
Pipoco visualizou o "The One" nos tempos mortos do fim de semana e já cá vem contar como foi
Isso que te dizem ser a química, Ruben Patrick, saberás que ela é a tal no preciso momento em que, quando dizes o nome dela, a palavra significa coisas diferentes do que significava antes, as letras são as mesmas mas o significado é outro, já não é só um nome de mulher, agora é uma palavra nova, com descontrolo lá dentro.
01 abril 2021
Páscoas
Preocupei-me com os futuros do carbono e despachei num instante a série da Netflix onde entra a filha do Bono Vox, tivesse eu menos oitenta e cinco anos e seria o tipo de miúda que me agradaria, isto se desconsiderarmos o corte de cabelo das cenas de flashback e aquela mania de trocar de alma, comprei croissants do Careca e Pastéis de Belém sem ter que esperar na fila, plantei tomate e hortelã, perdi ao poker porque me desfoquei mais do que uma vez, de manhã dei conselhos matrimoniais a um grande amigo e ao fim da tarde dei os mesmos conselhos, mas ao contrário, à mulher dele, e afinal, realmente, o que eu queria estar a fazer é o que sempre fiz por esta época, era ter um par de esquis enfiado nos pés e deslizar montanha abaixo.
