No dia em que discutires temáticas sensíveis com uma mulher e não te intimidares com os seus silêncios, quando resistires à tentação de os preencher com palavras tuas, quase sempre desadequadas, sempre em teu desfavor, quando conseguires que seja ela a não suportar o silêncio e a não resistir a quebrá-lo, nesse dia, Ruben Patrick, ganharás os seus favores para sempre.
28 novembro 2019
27 novembro 2019
Em verdade te digo, Ruben Patrick
A verdadeira ciência, nisso dos pesadelos, é saber acordar a tempo.
22 novembro 2019
Post em tempo real
A mulher com cara de Mia Khalifa, mas em bom, que está na mesa ao lado da minha, na mesma condição de quem espera que nos tirem da ilha ainda hoje, fala demasiado e demasiado alto com a amiga que não sei que cara tem porque está de costas para mim, a mulher com cara de Mia Khalifa, mas em bom, estraçalha a colega nova, obviamente ausente, concluindo que quem chega é que tem de se adaptar e passa num instante para a temática da casa nova que acabou de comprar, referindo por três vezes que a casa tem um hall de entrada gigantesco, elencando com entusiasmo as vantagens que uma casa com um hall de entrada gigantesco apresentam quando comparadas com casas com hall de entrada inferiores, eu, que não tenho livros para ler que aguentem tantas horas de atraso da aeronave que, dizem ao microfone, está com chegada tardia e, sei-o eu, ainda não saiu de Lisboa, eu, dizia eu, fico a matutar que raio de vantagens são essas do hall de entrada gigantesco e desce-me uma nostalgia dos tempos em que as velhinhas me perguntavam pelas portas de embarque dos voos para Palma de Maiorca.
20 novembro 2019
O mundo seria um melhor lugar se...
…os lugares que consegui para o John Cleese fossem mais jeitosos,
não tivesse falhado Jorge Palma por causa de uma coisa que era muito importante
mas afinal não, Paris estivesse mais sossegada lá para o fim deste mês, o
Sporting me brindasse com uma vitória por alturas do jogo em que inicio o meu
sobrinho nestas lides de ir à bola, os blogs fossem como os discos de vinil e
voltassem um dia com o glamour de coisa em bom, os olhos do meu cão não
brilhassem no escuro de maneira tão assustadora quando vamos correr à noite, Dona
Júlia não tivesse insistido em mostrar-me retratos de tempos antigos estava ela
num areal à beira mar, Jo Nesbo não se tivesse aventurado em avançar sem o fiel
Harry Hole, as meias de Madame Palmier Encoberto não fossem como são.
13 novembro 2019
04 novembro 2019
O que não nos salva nem nos condena
Ler um qualquer de Paul Auster, saber de cor aquela parte do cativar do Principezinho, dizer que até tenho amigos que são, pedir caipirinhas e mojitos mas sem palhinha, apostar cinquenta euros em como o Famalicão é campeão, comprar um carro elétrico para ajudar o planeta, ensopar o sashimi no molho de soja, pedir uma francesinha em Cascais, correr no paredão a um sábado à tarde, comprar bananas biológicas, jogar poker sem ser a dinheiro, dizer que gosta a um amigo do facebook, usar óculos de massa preta para me impressionar, ir a Paris de férias, almoçar de marmita porque assim sabemos o que comemos, assinar peticões para não sei quê da Joceline.
(inspirado aqui e aqui, bem sei, estou meio preguiçoso...)
(inspirado aqui e aqui, bem sei, estou meio preguiçoso...)
01 novembro 2019
30 outubro 2019
Em verdade te digo, Ruben Patrick
O problema, Ruben Patrick, é que ela reterá implacavelmente cada palavra que
profiras, bem podes mais tarde alegar que não te recordas, aplicar as melhores técnicas de
manobras de diversão, informar que as palavras, depois do quinto gin, têm
geometria variável, bem podes invocar os amigos com memórias mais esclarecidas,
todos te vão falhar, os humores de uma mulher que não se esquece de palavras são
território que ninguém quererá invadir, se, por desventura, te cruzares com uma
dessas mulheres de memórias de longo prazo, mais vale fazer de conta que tens
presentes as palavras que, no ardor do momento, proferiste, afinal elas ficaram
escritas na pedra e não será essa tua quase certeza de que ela as retorceu,
manipulou e cuidou que aderissem ao que ela quer que as tuas palavras digam,
que te dará qualquer tipo de absolvição.
28 outubro 2019
Encomenda
Quando se é o infeliz possuidor de uma mente ortonormada, onde
todos os acontecimentos são arrumados numa referência vectorial, quase sempre
espaço-tempo, dá-se o caso de nos inquietarmos quando não conseguimos relacionar
um determinado acontecimento, aconteceu-me não conseguir alinhar a gargalhada compulsiva
de Joker, com outro espaço e outro tempo em que já tinha visto coisa igual, dei
por mim a quase desistir de me lembrar em que outras circunstâncias vi um riso igual
ao de Joker, quase três semanas depois a resposta chegou-me a meio de um almoço
com pessoas dessas que me fazem descansar o cérebro num ponto de fuga, o Joker
tem um riso igual ao do tipo que cantava músicas italianas no Hotel des Bains,
em Morte em Veneza, de Visconti, e eu posso, enfim, voltar a acreditar que tudo
está no seu lugar.
Escusais de vos deslocar a esses sítios onde se pode visualizar o Woody Allen deste ano
Pelo mesmo preço que custa um bilhete para a sessão da noite
de “Um dia de chuva em Nova Iorque”, podemos comprar uma garrafa de Quinta do
Gradil Chardonnay branco, um vinho honesto com notas florais, é fácil, todos os
brancos têm notas florais, seja no início ou no final de boca, pelos mesmos
sete euros, pode-se adquirir um Júlio Verne e meio num alfarrabista honesto ou
dez cafés numa esplanada razoável em Lisboa, tudo isto sem nos aborrecermos com
a sensação de dinheiro atirado ao lixo, tudo isto sem aquele travozinho a déjà
vu que toma conta de nós a cada filme de Woody Allen, esse espertalhaço que
conta com aqueles que compram o Expresso ao sábado, que pedem sempre uma
francesinha no Capa Negra ou que não perdem nenhum livro novo de Philip Roth,
enfim, Woody Allen conta com os homens de hábitos, que não perdem um novo
Tarantino, um novo Bond, James Bond ou um novo Woody Allen e intruja-nos sem piedade,
contando-nos sempre a mesma história, bem sei, eu faço o mesmo, mas pelo menos
eu não peço sete euros por cada post novo.
21 outubro 2019
The Lello experience
Talvez o estimado turista mereça a maldade de o tratarem como imbecil, tudo vale a pena quando, por fim, o estimado turista se fotografa nas escadarias de madeira, carinhas felizes, afinal o Harry Potter deslizou naqueles corrimãos, precisamente ali onde o estimado turista publica o seu retrato, que importam os asiáticos fazendo marcação corpo a corpo?, time is running out e o tuc-tuc está à espera, a emoção de finalmente entrar na Lello & Irmão, depois da procissão da compra do bilhete de entrada, aliás, o voucheur, que será trocado mais tarde por um Paulo Coelho encarecido nos tais cinco euros, o estimado turista paga o que tiver que pagar, um dia não são dias, aquilo é praticamente Hogwarts, caramba, vale bem a pena, até eu, que sou eu, lá comprei um Jo Nesbo, não tirei foi os retratos, a minha preocupação era sair dali, que para sofrimento já me bastaram os filetes de polvo da Casa Aleixo.
20 outubro 2019
O problema sou eu
Ela era uma dessas mulheres que aprecia Peixoto, que se emociona com os quatro minutos e trinta e três segundos de Cage, que disserta sobre o Azul de Klein, que reivindica achar "O Couraçado Potemkine" um filme demasiado comercial.
(e assim se transforma um jantar com potencial numa conversa demasiado curta, um destes dias, no Bistrot du Nord, ali para os lados de Antuérpia)
(e assim se transforma um jantar com potencial numa conversa demasiado curta, um destes dias, no Bistrot du Nord, ali para os lados de Antuérpia)
09 outubro 2019
Joker
Joker, o filme, não aquela coisa em que o apresentador calça meias de padrões alternativos, não me fascinou por aí além, joga às escondidas com as nossas emoções, isso é certo, mas falta-lhe aquele je ne sais quoi que nos perturbe mesmo a valer, que abane mesmo as nossas certezas sobre as coisas serem como são.
(mas eu, que acompanhava Batman nas vinhetas a preto e branco de um jornal que já não existe, pensava que Joker tinha tido uma vida menos sofrida, por isso me aborreci tanto com a revelação)
(mas eu, que acompanhava Batman nas vinhetas a preto e branco de um jornal que já não existe, pensava que Joker tinha tido uma vida menos sofrida, por isso me aborreci tanto com a revelação)
02 outubro 2019
De como o furacão Lorenzo me proporcionou um dia inesperadamente sem agenda
Eu, que sempre me vi em dificuldades para distinguir os Men at Work dos Fischer Z, Dan Brown de Ken Follett, as últimas palavras de Cristo segundo Mateus e segundo Lucas, Di Caprio de Brad Pitt, a marcha nupcial de Mendelssohn e a de Wagner, sei distinguir perfeitamente uma Hoegaarden de uma Mort Subite.
01 outubro 2019
De volta a casa
Serei sempre feliz a subir montanhas, enregelado e respirando
como posso, descendo montanhas com Strauss nos ouvidos e sentindo o vento na
cara, mergulhando nos mares, deslumbrando-me com a tridimensionalidade dos meus
movimentos, esgueirando-me por grutas e algares, aproveitando o silêncio e o
rumor das asas dos morcegos, falando com pessoas que sabem de plantas que curam
e de chás que tudo podem, mas, caramba, Londres é Londres…
30 setembro 2019
Em verdade te digo, Ruben Patrick
O problema, Ruben Patrick, é que nos dizem que isso do tofu
e das palhinhas de papel e de andar de comboio serve para salvarmos o planeta,
ora isso não é a verdade, o planeta já se debateu com aquilo que dizimou os
dinossauros e continuou a rodar alegremente, já teve a situação dos grandes
frios e aguentou-se, já explodiram vulcões, desabaram asteróides, guerrearam
civilizações e o bom velho planeta cá está, recomendando-se e continuando a
girar, ao planeta é-lhe verdadeiramente indiferente o que nós fazemos ou deixamos de fazer.
O problema, Ruben Patrick, é que se trata de coisa diferente,
isso do tofu e das palhinhas de papel e do andar de comboio serve para nos
salvarmos a nós.
28 setembro 2019
27 setembro 2019
19 setembro 2019
São onze da noite, o Sporting perdeu outra vez e isso não está certo
Enquanto Jarrett, em modo vinil, inventa magia no concerto de Colónia, resolvo dar mais uma oportunidade a um vinho que todos me dizem ser desses que deixam alfazema no final de boca, dizem que é coisa de valor, obviamente desisto, dar segundas oportunidades a maus vinhos é como dar segundas oportunidades a mulheres com má conversa, penso que talvez me apazigue pegar em Dickens, afinal não foi boa ideia, há demasiadas sombras, termina o lado bê do primeiro disco, levanto-me para que Jarrett continue a tocar, fico a cismar na minha velha convicção de as paixões que ficam para a vida serem as que nunca chegam a acontecer, um destes dias quase me apeteceu testar a coisa, quase, verifico o stock de chocolate que trouxe de São Tomé, a situação é dramática, de repente dá-me vontade de conhecer uma pessoa disto dos blogs, repenso, é melhor não, ela havia de me achar bom rapaz e não há nada pior do que dizerem de mim que não sou mau rapaz.
15 setembro 2019
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