O cidadão que inventar uma maneira de beber café sem tirar a máscara cirúrgica terá a minha admiração.
14 maio 2020
Ouro
Quando se introduz alguém novo no grupo, "Um amigo meu" está imediatamente abaixo na escala de confiança de "Um amigo nosso", dizia Al Pacino a Johnny Depp, aliás Lefty Ruggiero a Donnie Brasco, eu a deter-me no estereotipo do gangster, os gestos sempre em movimentos tangenciais, o cabelo puxado para trás, os óculos escuros que nunca assentam bem e Al Pacino, aliás, Lefty Ruggiero a dizer uma coisa desta grandeza que quase me escapava.
13 maio 2020
Peregrinações
Este mês, no caminho que me leva da lezíria ao sítio onde me pagam cinco vezes mais do que aquilo que realmente valho, não me cruzei com os peregrinos mais as suas bandeiras, os seus coletes amarelos com marcas de lojas de ferragens e oficinas de mudar pneus, as suas furgonetas com pessoas que massajam pés, os seus rostos avermelhados, os seus fatos de treino justos e as sapatilhas compradas de propósito para o caminho.
Talvez seja porque este mês pouco fiz o caminho.
Talvez seja porque este mês pouco fiz o caminho.
Das coisas realmente importantes
Contei-lhe que o sítio onde estava a árvore que tinha os troncos onde eu lia os livros já não existe, primeiro foi um campo onde se semearam batatas, depois centeio, depois foi murado e agora está lá uma piscina que quase nunca é usada. E os livros, perguntou ela?
08 maio 2020
Em verdade te digo, Ruben Patrick
O problema, Ruben Patrick, é quando os beijos estão mortos à nascença, é o sinal da falência sem retorno, é nessa altura que terá que te preocupar a sério e, em nome do respeito que lhe deves, voltar a assinar a Sport TV.
07 maio 2020
Breves, mas sábios, conselhos de Pipoco
Lê autores que nunca tenhas lido antes. Mas não o Chagas Freitas. Arrisca na cozinha. Sobretudo no empratamento. Aprende uma coisa nova por dia. Cancela a Netflix. Não desligues a câmara quando estás em reunião. E sorri para as pessoas. Liga aos teus pais. Diz-lhes que isto está quase. Corre com o teu cão. Corre outra vez. Não penses em viagens grandes. Talvez o Algarve em Agosto não seja tão mau como pensas. Corta no café. Mas assegura-te que não falhas quatro por dia. Não vejas notícias na televisão nem abras os vídeos que os teus amigos te enviam. Não digas que vai tudo correr bem. Não vai.
06 maio 2020
E agora uma coisa completamente diferente
Brian Chesky, o CEO da Airbnb, escreveu hoje esta carta às pessoas que vai despedir.
É uma carta que vai ficar para a história pela forma clara e preocupada como se dirige às suas pessoas ou é uma genial manobra publicitária?
É uma carta que vai ficar para a história pela forma clara e preocupada como se dirige às suas pessoas ou é uma genial manobra publicitária?
05 maio 2020
Os problemas das mulheres
Desligar a câmara nas videoconferências, cuidado que nós não tínhamos já notado as raízes dos cabelos descoloradas.
04 maio 2020
Nós, os que de cá não saímos, te saudamos
Sê bem vindo à cidade, rapaz, notarás que há diferenças, que não correu tudo bem, há agora um desses silêncios como os que acontecem a seguir a uma velha tia desbocada dizer o que lhe vai na alma, os nossos restaurantes são agora uma espécie de locais sem alma e sem vibração, não terás bifanas e imperial à saída do nosso estádio, não há brindes ao que quer que seja porque a dois metros de distância não se pode brindar, todos temos a mesma cara de máscara de hospital, a mesma que estranhávamos nos chineses que viam Orsay a correr, demorará até que o café te seja servido em chávena de qualidade, terás que te contentar com copo de cartão, que sugam o aroma e a experiência, ainda assim, sê bem vindo à cidade, rapaz.
03 maio 2020
Retomando
Perguntasse-me Tim Burton qual a película da sua autoria cujo personagem eu gostaria de ter sido, e eu, apesar de Willy Wonka, apesar de Victor Van Dort, sem surpresa havia de escolher Edward Bloom, não há melhor pessoa que um incorrigível contador de histórias, esses alquimistas do que realmente aconteceu e do que todos gostaríamos que tivesse acontecido, os contadores de histórias, tirando os da praça Jemaa el-Fna, estão fora de moda, já ninguém arregala os olhos quando eles fazem compassos de espera para gerir o suspense, talvez reste eu, que não faço outra coisa que não contar histórias para alinhar WTI com Brent, Henry Hub com futuros de carbono.
(dando resposta a um desafio lançado pela Cláudia Filipa aqui há atrasado)
(dando resposta a um desafio lançado pela Cláudia Filipa aqui há atrasado)
30 abril 2020
Um post por dia até eu me aborrecer com um post por dia - Dia 46
De todas as coisas bizarras que acontecem por estes tempos, a que mais me diverte são os cidadãos que os canais de televisão convocam para comentar situações variadas, vamos designá-los por cidadãos da categoria "Eu não sou especialista, mas...", acontece que o cidadão, pouco habituado a isto de ter uma câmara apontada, até começa com um bom discurso, coerente, perceptível e assertivo, bastante fundamentado, quando anuncia "Eu não sou especialista", o problema é que, à beira do abismo decide dar um passo em frente e avança, o cidadão sente a pressão de ter que ter alguma coisa para opinar, sai-lhe então o fatídico "mas...", é aqui que perdemos o cidadão, na voragem do momento, sabendo que amigos e familiares o estão a ver na televisão, o cidadão diz coisas e, dizendo coisas, aventura-se por caminhos que não domina, acontece a catástrofe, o cidadão entusiasma-se consigo próprio, imagina factos, e, inevitavelmente, apesar da carinha sorridente, apesar de nos imaginar imbecis, esbardalha-se até ao plano final de poker face da entrevistadora a tomar nota mental para jamais convocar de novo aquele cidadão, sentimos vergonha alheia do pouco saber do cidadão, mas pouco importa, tão certo como nascer o sol, amanhã teremos um novo carregamento de cidadãos a dizer coisas e a não resistir ao "mas...".
29 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 45
Fascina-me que objectos outrora absolutamente essenciais para o bom andamento da minha vida estejam agora reduzidos a inutilidades absolutas, o contacto do Porto de Santa Maria para uma mesa pedida à última hora, o cartão das milhas que permite tomar um café decente quando o voo não saiu a horas, a gravata italiana que assenta bem em fatos cinzentos ou o veloz carro alemão têm agora tanta utilidade como um pager, um walkman ou um bom lugar de estacionamento na Avenida da Liberdade.
28 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 44
Eu, que já entrei no Ganges e no glaciar de Galdhopiggen, que já tive um pé no sul e outro no norte do mundo, que já estive no Monte Branco e nos Himalaias, que já dormi nos relvados do Champ de Mars e no Bauer de Veneza, que já fui a Nova Iorque num dia e regressei no outro, que já estive em Praga e ainda era a Checoslováquia e em Zagreb e ainda era a Jugoslávia, nunca conheci uma mulher que não gostasse de maus rapazes.
27 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 43
Há uma imagem, dessas que marcam os filmes, como a da rapariga de cabelos ao vento na proa do navio prestes a afundar-se ou a da cabeça do cavalo na cama do realizador, há uma imagem, dizia eu, de um filme baseado num livro desses escritores que as leitoras devoram entre suspiros, em que o rapazola convence a donzela a deitar-se no asfalto de um cruzamento da rua principal lá do sítio, a adrenalina, o risco de morte, na altura parecia coisa ousada, fosse hoje e era coisa para meninos.
(o que tinha previsto para hoje era Lisboa-Paris-Joanesburgo-Maun-Kasane, em vez disso vou ali ao supermercado comprar ração para o meu cão grande)
(o que tinha previsto para hoje era Lisboa-Paris-Joanesburgo-Maun-Kasane, em vez disso vou ali ao supermercado comprar ração para o meu cão grande)
26 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 42
Faz-me falta beber café na esplanada com cheiro a mar num dia cinzento, ir a Alfama aos fados, jantar com a vista do último andar do Sheraton, sair sem destino e ir dormir a Marvão, abraçar os meus amigos, ouvir Tchaikovsky na Gulbenkian com chuva atrás da orquestra, ir a um cinema que não tenha pipocas ver o ultimo Bond, nadar no Guincho.
E a ti?
E a ti?
25 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 41
Os que hoje me enviaram as odes mais inflamadas de quanto vale a liberdade foram aqueles a quem pedi que deixassem de me enviar cópias da imprensa do dia acabada de sair.
24 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 40
Se algum conselho de valor te posso fornecer, Ruben Patrick, é que evites as mulheres que te sabem ler, as que, certeiras, te traçam o perfil e sabem de ti aquilo que tu não queres que se saiba, evita-as e serás poupado à má fortuna de seres apanhado sem rede, de te explicares com o que, sabes bem, não tem explicação, de te expores como o imbecil que na realidade és.
(é claro que essas são as que te podem salvar se algum dia precisares ser salvo, mas isso agora não interessa nada para esta conversa)
(é claro que essas são as que te podem salvar se algum dia precisares ser salvo, mas isso agora não interessa nada para esta conversa)
23 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 39
De todos os meus amores, o mais antigo e o mais fiel é o livro, um amor que me acompanha desde que me lembro, nunca me faltando nas horas de pouco sono, nunca se negando a fazer-me companhia, sempre pronto para me contar uma história de embasbacar, para me ajudar a pensar melhor ou simplesmente para me fazer rir quando ninguém está a ver.
Hoje é o dia não sei quê do livro, esse amigo de sempre que nunca nos fez tanta falta como agora.
Hoje é o dia não sei quê do livro, esse amigo de sempre que nunca nos fez tanta falta como agora.
22 abril 2020
Um post por dia até ao fim de Abril - Dia 38
O que aprendemos com estes tempos, Ruben Patrick, é que se passarmos a viver só com o que realmente precisamos, não vai ser bom para ninguém.
21 abril 2020
Um post por dia até ao fim do Corona - Dia 37
Espantemo-nos, porque estes são os tempos em há quem pague para se livrar de petróleo, são os tempos em que nos perguntamos se fomos mesmo nós quem, ainda não há dois meses, usávamos fatos italianos e gravatas de seda, são os tempos em que descobrimos que afinal não precisamos de quem nos traga café ou nos marque viagens de avião para ir e vir no mesmo dia, são os tempos em que estamos em casa à hora de almoço e é terça-feira, são os tempos em que afinal não precisamos de assinar ou de ir, são os tempos em que as reuniões à volta de mesas de boa madeira se transformaram em mosaicos de imagens de homens de cabelo curto e barba de três dias, são os tempos em que ninguém sabe se o nosso aperto de mão é firme.
Espantemo-nos, pois.
Espantemo-nos, pois.
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