13 agosto 2013
Ontem na exposição da rapariga dos crochets a envolver animais de louça
12 agosto 2013
Pipoco também foi ver a Gaiola Dourada
Se calhar somos mesmo aquilo, mansos, sempre prontos a dizer que sim senhores, que estamos cá para isso, sorrimos enquanto se nos revolta o estômago, se calhar só ganhamos coragem para dizer que basta, que merecemos respeito quando ganhamos a taluda e, forrados com o poder que achamos que o dinheiro nos dá, falamos então grosso, como vimos fazer aos outros, aos que tinham dinheiro antes de nós. Se calhar somos mesmo assim, levamos a marmita para hotéis de luxo e compramos atrelados para os Cayennes, escolhemos mal as roupas, temos vergonha de ser quem somos, gostamos de bola na televisão e de coisas penduradas no espelho retrovisor.
Talvez sejamos tudo isso, mas, por Deus, não somos gente de beber Ricoré...
Meu caro J. Rentes de Carvalho...
Noto, com agrado, que o meu caro é um optimista dos graúdos, já que cuida que o território onde se movimenta o alfacinha é de tal maneira grandioso que se espraia pela tão grande lonjura que vai de Loures (onde diabo será Loures, caramba?...) até ao Terreiro do Paço. Seria o mundo um lugar melhor se assim fosse, meu caro J. Rentes de Carvalho, mas a verdade é que encontrar um alfacinha para esses lados, tão além da sua zona de conforto, como se diz agora, é tão provável quanto encontrar um trasmontano além de Quintanilha.
O que é notável no alfacinha, meu caro J. Rentes de Carvalho, é que, com epicentro no Terreiro do Paço, sendo que falamos do epicentro de uma meia cirunferência, a religião do alfacinha não permite que se considere o que está para além do rio como seu territrório natural, não se movendo para Oeste senão para jogar um par de horas na roleta do Casino do Estoril ou almoçar um recomendado robalo no Porto de Santa Maria, tudo o resto desenvolvendo-se até às Avenidas Novas, com o Estádio de Alvalade como limite a norte, e até Santa Apolónia, para apanhar parte de Alfama que interessa, o que é notável, dizia eu, é que, apesar deste espartilho geográfico, anos e anos de transmissão de saberes resultaram num aprimoramento de qualidades tal que permitem que o alfacinha, não dominando mais que dois saberes, três, nos casos de alfacinhas mais dotados, quatro no caso deste que lhe escreve, transmitindo-se os saberes fundamentais por osmose, de pai para filho, convida aqueles que com os alfacinhas se confrontam a assumir de imediato uma posição respeitosa, conveniente, que permite em última análise ao alfacinha, parco de recursos, assumir o comando e liderar por improvável aclamação.
Veja a escolha do vinho, meu caro. De um lado um trasmontano pleno de saberes, um homem que sabe construir uma casa com as próprias mãos, que domina as malas-artes de um bom jogo de sueca, que diferencia se hesitar uma macieira de uma oliveira, que sabe assar um porco inteiro ou em que mês se semeiam as batatas. Do outro, o alfacinha, que não sabe senão conjugar o vinho certo com rosbife au meunier. O trasmontano tenderá a escolher um Dão encorpado, uma mistura de casta malvasia e aragonês. O alfacinha, diplomaticamente, tenderá a sugerir um Romanée-Conti, entusiasticamante aprovado pelo escanção do restaurante, escavacando assim o ego do trasmontano. Daí em diante, bem poderão falar de astronomia ou de matemáticas aplicadas, de arte bizantina ou do modo como operavam os sarracenos, que vingará sempre a visão do alfacinha, de tal forma o trasmontano está ainda perturbado com a sua desajustada escolha inicial.
Seja como for, meu caro J. Rentes de Carvalho, e certo que me perdoará a ousadia, o que eu gostava mesmo de saber é o que ainda o pica (para usar uma sua expressão que nós, alfacinhas de certa classe, não usamos). O que pica um homem com mundo, um homem que já viveu tantas vidas, um homem que fez tantas coisas e tão diferentes que alguns de nós, mesmo os alfacinhas de certa classe, não desdenharíamos fazer igual?
(e, à laia de segunda pergunta com subliminar encadeamaneto na primeira, muito gostaria eu de saber como lida o meu caro com a tribo da faixa do meio, se por essas lonjuras que calcorreia também há disso, dos da faixa do meio, e, não sendo muita maçada, se a sua preferência por faixas de autoestrada sofreu alterações ao longo dos tempos, se a maturidade o levou a escolher faixas preferenciais que não imaginava possíveis nos tempos de maiores efusividades próprias da juventude, se a música que o meu caro escuta no carro o impele para uma ou outra faixa).
Se o meu caro me julgar inconveniente, basta fazer-me aquele olhar que eu faço ao Ruben Patrick quando desejo que o rapaz vá à vida dele e não me aborreça com menoridades.
Aceite um abraço, saiba que o abraço está no meu topo de afectos.
Pipoco Mais Salgado, sempre a considerá-lo.
11 agosto 2013
Às vezes, quase nunca, isto é mais que só um blog
Como avisadamente desistimos de terçar adagas, permita que eu, sem paixão, tente esclarecer donde vem o prurido que me aflige cada vez que esbarro com o que me parece a altaneira condescendência lisboeta.
Aquele seu incómodo acerca do emigrante que, desleixado, roda na faixa central dos IPs, foi o rastilho de uma impensada e apressada explosão de humor. Tivesse eu a sensatez de ponderar, reflectir, sabiamente pesar prós e contras, de meter a mão na consciência e depois a viola no saco, encontraria um sem-número de ocasiões em que o comportamento do emigrante me fez e faz perder a cabeça, esquecer as conveniências, o amor do próximo, dar urros, envergonhar-me de ser compatriota, fingir que não falamos a mesma língua nem somos do mesmo chão. Como poderá verificar aqui http://tempocontado.blogspot.nl/2013/01/exodo.html ainda recentemente ele me entristeceu, e outros momentos poderia apontar de maior tormento.
Todavia, o que provavelmente me picou não foi ver que o estimável D. Pipoco zombava do pai de Sandrine, Danielle, Jeannot ou Patrick, mas discernir no texto, aliás de cuidada e elegante prosa, aquele tom altaneiro e desdenhosamente moqueur que atribuo ao lisboeta de certa classe.
Não se zangue ainda. Não comece a franzir o sobrolho. Permita-me que explique. Desde há muito, andaria então pelos sete, oito anos quando comecei a ler a história pátria, e depois, já rapaz, num dia de Setembro de 1947, subindo pela primeira vez o Chiado, criou-se em mim a estranha noção de que Portugal não se divide em províncias, mas se compõe de três partes, desiguais em tamanho, importância, mentalidade e comportamento. O Norte fica acima do rio Douro, e meto nele as Beiras que olham para Castela. O restante, da margem esquerda do nobre rio até à costa algarvia, é tudo Sul. Temos depois o quadrilátero que, grosso modo, vai de Loures ao Cabo da Roca e do Cabo Raso ao Terreiro do Paço.
Aí reside o problema. Não necessita Vossa Senhoria, D. Pipoco, de formular argumentos para rebater a minha ideia. Eu próprio estou ao corrente de que cada cabeça sua sentença, e a cada razão se pode opor outra. Tão-pouco irei tecer loas às virtudes da gente do Norte, ou criticar a do Sul, que de facto pouco conheço. Mas tenho de ser franco: o alfacinha arrasa-me. Sinto-me mesmo obrigado a confessar que até os alfacinhas amigos, uns quantos, me fazem perder as estribeiras.
Creio que não se dão conta, mas têm aquele jeito de se ver diferentes, sofisticados, exprimindo-se num vocabulário que, de peculiar, me traz à lembrança a lengua das terras dentre Sendim e Miranda.
Refinam na gastronomia, nos vinhos, conhecem paragens exóticas, mas desdenham da vizinhança do quadrilátero. Para eles, Marão e Marrocos é o mesmo, têm ideia de que vive por lá uma gente tosca com o hábito inconcusso (vocábulo que a um lisboeta ouvi) de a páginas tantas, como a cegonha ou o salmão, ir de jornada sem cuidar da rota e ignorando o destino. Anos depois, também como o pássaro e o peixe, esse bom povo, que entretanto desovou hábitos de impertinência e descuido, barulheira e bazófia, ressente a urgência de visitar o ninho. Com o resultado que Vossa Excelência elegantemente apontou, e com o qual eu desastradamente me assanhei.
Temo que não explico o bastante, nem as minhas desculpas soam como desejaria, mas acho melhor parar, não vá entusiasmar-me e meter ainda mais os pés pelas mãos.
De V. Exa, atento, venerador e obrigado,
J. Rentes de Carvalho
Os Novos Maias,ou lá como se chama aquilo (IV)
10 agosto 2013
Os Novos Maias, ou lá como se chama aquilo (III)
Carlos da Maia e João da Ega são agora credíveis, Rentes de Carvalho coloca-os num espaço onde acreditamos que podiam ter sido colocados e falam do que supomos poderem ter falado. Vêmo-los ambos falhados, como esperávamos, de acordo com as Escrituras. Carlos da Maia "nada fez com o estudo da Medicina. Nada gerou, criou ou plantou. Nada escreveu", Ega conclui que "ter saúde, inteligência, possuir fortuna e ser um inútil, é crime".
Há falhas, claro que sim. Nada justifica que numa casa de homens de bem não exista uma garrafa de Chartreuse. E, havendo Bénédictinne, não se me afigura que João da Ega tivesse escolhido Cointreau. Pormenores que não deslustram, Rentes de Carvalho consegue a fórmula de escrever como Rentes de Carvalho e quase parecer que estamos a ler Eça. Notável, só acontece aos melhores.
Por aquilo das mariquices dos da beira-mar e por não haver Chartreuse sete em dez. Vá, sinto-me generoso: oito em dez, pelo final.
09 agosto 2013
Mas os homens não choram
Ver o pôr do sol no mar de Patmos, tomar consciência que a mulher da nossa vida nunca será a mulher da nossa vida, passar o portão de Dachau, perder o melhor amigo, perceber que a Ilsa não terá senão Paris, ver no estádio Portugal perder uma final, ver os esboços de Guernica em Guernica, fechar os olhos e ver (sim, ver) Baremboim a dirigir, escalar calcário e chegar lá acima, beber um Bellini em Veneza, chegar a Compostela, beber um Barca Velha que o nosso pai guardou para nós durante vinte anos.
08 agosto 2013
E tu Pipoco, onde arrumas os teus Rentes de Carvalho?
Espanto-me sempre com este desleixo, toda a gente sabe que não se deve deixar Saramago ao lado de Lobo Antunes, nunca se sabe o que pode acontecer durante a noite na estante, podem acontecer refregas graves e depois, é sempre assim, ninguém tem a culpa, ninguém sabia, ninguém é responsável. Sousa Tavares jamais deve ficar sequer na mesma estante dos livros sobre a história do Benfica ou ao lado do livro do blog dos Gato Fedorento, é criminoso deixar Sherlock Holmes ao lado de Jaime Bunda, os argentinos Borges ou Cortazar não podem ficar junto dos brasileiros Jorge Amado ou Machado de Assis, As Pupilas do Senhor Reitor não podem ficar perto d'O Crime do Padre Amaro.
Já Tintim pode ficar ao lado de Corto Maltese ou dos livros do Gonçalo Cadilhe, O Gineto de Esteiros fica bem arrumado ao lado de Pedro Bala d'Os Capitães de Areia e Joyce não se dá mal ao lado de Truman Capote.
Arrumar os livros do mesmo autor ao lado uns dos outros também pode ser um problema. Ninguém pensa nisto, tenho que ser eu a pensar em tudo, mas a verdade é que o Primo Basílio pode perfeitamente desinquietar Maria Eduarda se estiverem muito próximos e Carlos da Maia pode sempre convencer Amélia a passar um bom par de horas no Ramalhete e não se sabe o que fará Jacinto se lhe aparecer pela frente o Conde de Abranhos.
(sim, voltei a sonhar com Lamborghinis roxos)
07 agosto 2013
06 agosto 2013
Às vezes recebo mails
Hoje foi dia de Planta Manteiga. Alguém no mundo das relações públicas faz um trabalho de casa tão profundo que estabelece uma relação directa com a minha dissertação sobre o quotidiano, cuidadosamente vertida em quarenta e nove anos de blogs, e Planta com sabor a manteiga. Que podiam ter inventado uma margarina com sabor a marshmallows, a couves de Bruxelas ou a amêndoa amarga, podiam sim senhores. Mas não, inventaram uma margarina com sabor a manteiga, é coisa parecida com vinho de pacote com sabor a Pera Manca ou hamburgers com sabor a posta mirandesa.
O press-release diz que é difícil resistir a uma fatia de pão barrada com Planta sabor a manteiga. Eu digo que é facílimo, tão fácil como resistir a um copo de Pisang Ambon, a um livro de Paulo Coelho ou a cerveja morna. Facílimo.
Informam-me que a coisa se vende em embalagens de um quilo. Um quilo de Planta sabor a manteiga em troca de quase cinco euros e ainda assim é com desconto. Cinco euros que eu trocaria de bom grado por oito cafés Camelo. Seis imperiais Super-Bock.
Ah, esperem, dizem-me que há promoções da coisa. Onde? No Pingo Doce. Caramba, alguém no seu perfeito juízo, que acompanhe a minha brilhante obra literária de cinquenta e três anos de blogs me imagina a entrar no Pingo Doce? E, blasfémia, a comprar Planta? Planta com sabor a manteiga? Céus.
(rapaziada da Old Bushmills, da Cohiba, da Fundação Eugénio de Almeida, da Rosa & Teixeira e da Livraria Bertrand, nada temais, é avançar...).
Estava aqui a ler a entrevista de ontem da Helena Sacadura Cabral ao Diário Económico...
...e ainda não decidi se a entrevista é o mais potente anticoncepcional que já se inventou ou se, por outro lado, nos faz desatar a ter uma vontade incontrolável de ter descendência.
(seja como for, é uma grande entrevista de uma mulher como já se fazem poucas)
05 agosto 2013
Queridos emigrantes, é Pipoco quem vos quer falar ao coração
Os novos Maias, ou como se chama aquilo (II)
04 agosto 2013
Os novos Maias, ou como se chama aquilo
O José Luís não escreveu como se fosse o José Luís, optou por escrever como achava que escreveria Eça. Não saiu grande coisa, é como se tivessem convidado Saramago para isto de continuar os Maias e Saramago resolvesse começar a escrever parágrafos curtos a torto e a direito, com pontuação e tudo. Aquela bizarria que por lá aparece, se calhar o José Luís achou que ficava bem a piscadela de olho, é um pouco como aquele filme que eu vi, filme de época sobre o Robin Hood e a maçã tinha um autocolante com a marca da empresa das maçãs. Ficou mal, como fica mal deixar Eça ali a pairar, esse Queirós, dizem eles, como se Carlos da Maia fosse mais importante que o criador. De resto, para sair o que saiu tinham-me encomendado o trabalho a mim e eu, que só tenho um blog e li livros de Eça, fazia igual, numa noitada de trabalho.
Quatro em dez, portanto.
03 agosto 2013
02 agosto 2013
Isto sim, incomoda-me. Porque a estes sou eu que pago.
Neste caso sou eu quem está a pagar o divertimento dos juízes do tribunal da relação do Porto que se entretiveram a fazer um concurso em que o vencedor seria quem dissesse a barbaridade maior. Imagino os doutores da lei, em casa de um deles, os processos capeados com uns cartões verdes de expediente transitado, um deles a mandar para o ar "Ó Petersen Silva, escreva aí que o trabalho deles não é agradável", O Petersen Silva havia de concordar, morangoska na mão, e, todos a rebolar de riso com a ideia da vida sem graça nenhuma dos recolhedores de lixo, havia de se sugerir "Ó Paula Ferreira Roberto e se a alegação dissesse que com álcool o trabalhador pode esquecer a agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos?". E os três, rebolando-se de riso, mais um caipirão para alegrar as existências, haviam ainda de dizer "Frias Rodrigues, que parece ao caro colega incluir que não há nas leis laborais nenhuma exigência que o trabalho não possa ser realizado com o trabalhador a pensar o que quiser, com ar mais satisfeito ou carrancudo, mais lúcido ou, pelo contrário, um pouco mais tonto?". Talvez um deles ainda tenha sugerido "vejam lá, colegas, isto é só a gente aqui a falar, não enviem isso assim", mas demasiado tarde, um deles já tinha carregado em "send" e estava feita a coisa.
Isto sim, é coisa para me aborrecer porque, lá está, a estes são os meus impostos que pagam.
Zico-Mandela, o cão fofinho
Fui ver os estatutos da Associação Animal e diz lá que não recebem dinheiros públicos. Fiquei contente, não me estava mesmo nada a apetecer começar o fim de semana com este desconforto no estômago de ser eu que estava a pagar o tal "check-up" geral e o comportamentalista animal e o tal especialista em recuperação de animais agressores.