28 junho 2017

Salvador Sobral, chega-te aqui ao Tio Pipoco, que te quero dar uma palavra

Meu bom rapaz, a gratidão de vermos os países a anunciarem uns a seguir aos outros "Portugal twelve points", quando em tempos antigos "twelve points" era o que tínhamos quando todos os países já tinham votado, e isso era nos anos bons, a gratidão, dizia eu, é coisa com um curto prazo de validade, como tu, meu bom rapaz, depressa anteviste quando ganhaste lá o concurso. O deslumbramento é um pecado dos grandes, e nós, que não desgostamos do teu ar cuidadosamente descuidado, não apreciamos muito que aqueles de quem gostamos se comportem como rapazolas, nota bem, qualquer um de nós, menos tu, poderia notar que fizesses o que fizesses serias aplaudido, alguns de nós, os menos bafejados com esmerada educação, poderiam mesmo ser inconvenientes a ponto de sugerir que, se desses um peido serias, ainda assim, aplaudido. Agora tu, bem rapaz, em verdade te digo, que não tens ainda estrada para seres inconveniente, não tens ainda arcaboiço para dizeres coisas tontas e ninguém notar.

 Por isso, meu bom rapaz, não tenhas trejeitos parolos tão cedo, não menosprezes os que serão sempre o teu sustento, não aborreças as pessoas com saídas tontas.

E agora vai em paz e venha de lá esse jazz e essa maneira tua de estar em palco que tinhas antes de ontem.

(e quer-me parecer que deste um nó cego à produção e meteste ali a Joni Mitchell sem ninguém saber...)

Os problemas das mulheres

Quererem-nos tão perto que nos afastam.

A sul (IV)

O melhor destes dias de sul é a sequência de acontecimentos, abrir as portas da praia e ainda não são sete da manhã, correr na linha de água, comprar os jornais, intercalar as leituras dos livros que escolhi por companhia com mergulhos de mar, almoçar com amigos que chegam de outros suis e que regressam aos seus poisos no final do dia, jantar fora deste sul com amigos que não são os do almoço, parar no Guarita Terrace para um último gin tónico antes do regresso a casa e amanhã será igual.

Costumo fartar-me disto por volta do final do quarto dia.

26 junho 2017

A sul (III)

A sul (II)

O que Don Gigi, aliás Don Bernardo, tem de diferente, para além das ameijoas e do arroz de lingueirão e da feijoada de búzios e das garrafas de champanhe abertas à catanada e do sino e da ópera que se ouve nas mesas cá de fora, é ser um homem com mundo, desses contadores de histórias que já quase não existem, dessa estirpe de homens que não se deslumbra e que, com a casa a abarrotar de pessoas que aparecem nas revistas, escolhe ficar à conversa com um tipo normal, está bem que é o melhor blogger daqui até aos Alpes, mas Don Gigi não sabe dessas niharias, nem é preciso que saiba, assim temos tempo para falar das coisas realmente importantes, informando-me onde se serve o melhor gin do reino dos Algarves, como se cozinha a pescada que tenho à minha frente e invocando Woody Allen e a sua tirada dos espermatozóides não voltarem para trás para explicar a razão pela qual o vidro não entra na garrafa de champanhe quando a catana faz o serviço que tem que ser feito.

A sul


24 junho 2017

Pipoco entraria na guerra das flores viçosas. ..

...e colocaria aqui as suas alfazemas magníficas.

Não fosse estar a caminho do Gigi e assim seria...

22 junho 2017

Em vez de prestar atenção aos senhores que estão a falar sobre estruturas societárias

O tipo sentado ao meu lado, o do fato de má qualidade, está a ver coisas no facebook e a fazer "like" a tudo, mas rigorosamente tudo, o que lhe aparece naquilo, sem sequer se inteirar do que por lá estará escrito.

(o que importa é que as pessoas que prantaram as situações ficarão felizes porque o tipo gostou muito daquilo...)

18 junho 2017

E é isto

E agora enviam-se sentidas condolências às famílias, reservaremos o nosso melhor semblante grave e sério para citar o número actualizado de mortos, não despegaremos os olhos dos carros retorcidos, a repórter da televisão do Correio da Manhã entrevistará pais e irmãos dos que se foram, perguntando-lhes que tal se sentem, amanhã teremos na primeira página as caras sorridentes de crianças que já cá não estão, havemos de ter luto oficial, não menos que três dias, teremos na ponta da língua o número de homens que estão no teatro de operações, comentaremos, com ar sofrido mas assertivo que o número de mortos tem tendência para subir, o presidente abraçará abnegados bombeiros e ninguém ousará tirar selfies, assumiremos que a coisa foi um acto de Deus  e, evidentemente, apaziguaremos a alma levando pacotes de leite aos bombeiros e transferindo dez euros para uma conta solidária.

E, evidentemente, continuaremos a achar que a guerra contra o fogo se ganha com água e aviões, que uma festa sem foguetes nem é coisa de gente cristã, continuaremos a mandar pela janela as beatas acesas, continuaremos a achar que limpar mato é um custo afundado, continuaremos a fazer de conta que para o ano vai correr melhor.

16 junho 2017

Dos objectos que nos sobrevivem

Questiona Don Xilre, aqui na casa de Capitã Cuca, ide ver, se os objectos que nos sobrevivem serão os mesmos objectos que eram quando eram nossos. Não são. A pedra de lava de um vulcão, uma pedra mágica que carreguei por mais de muitas milhas marítimas, não será mais que uma pedra sem préstimo, preta e leve, no caso improvável de eu afinal não ser imortal, alguém se encarregará de a colocar nos caixotes de lixo indiferenciado, sem cuidar do quanto acariciei aquela pedra só por me ser agradável ao tacto, e aos riscos acrescidos que corri quando a transportei vulcão abaixo, onde cada grama a mais faz diferença. A minha colecção de cartões de hotel que dizem "Do not distrurb" irá para o contentor azul, quem nunca esteve naqueles mais de setecentos hotéis, and counting, não lhes achará préstimo, por não ter estado lá, por não saber que o "do not disturb" é o verde código verde para se entrar na minha vida. E os meus livros, que só eu sei o que me ensinaram, o que senti enquanto os lia, só eu recordo se os li devagar por necessitarem ser digeridos em suaves prestações ou depressa pela urgência de saber afinal como tudo se encaixaria no final, serão só livros normais, desses que quem sabe de livros dirá se são bons ou maus, agnóstico ao facto de alguns bons me terem parecido maus e muitos maus me terem parecido razoáveis.


15 junho 2017

Há escritos de Cuca, a velha Capitã...

...que são para ler ajoelhados.

(Muitos anos depois, por sua livre vontade, Pipoco Mais Salgado havia de recordar aquela tarde remota em que este post havia de ser considerado melhor que aqueloutro do professor de esqui)

Fosse eu de apostar, lá está...

Acaba de passar por mim um homem a correr, a fazer voar a mala de cabine, o cinto na mão, a mochila presa por uma única alça, dizendo baixinho, como se fosse um mantra, as libertadoras palavras "fuck, fuck".

Estou capaz de apostar que está atrasado para o voo.

14 junho 2017

Toda a gente sabe que nos blogs não há amigos

Os meus estimados Outro Ente e Impontual escrevem, com a graça que lhes reconhecemos, sobre a nunca esgotada temática disso de não ser ideia de gente cristã isso de fazer amigos nos blogs. Reflectisse eu sobre o assunto, que não reflecti, e diria que não estamos completamente alinhados.

É bem capaz de ser o princípio de uma bela amizade.

Nestes dias de tempo contado...

... o maior luxo é ter uma imprevista tarde por minha conta numa cidade que não é a minha, poder decidir se ponho o sono em dia ou se bebo uma cerveja na cidade velha, se procuro um sítio tranquilo para ler um livro ou se me perco num museu onde haja quadros, se corro pelas ruas ou se antecipo a chegada a casa.

Mas não

Pudesse eu desligar os fios da memória, dominasse eu as más artes de esquecer, tivesse eu o superior poder de fazer de conta que nada aconteceu, que não doeu, que não notei a maldade desproporcionada nem a verdade de geometria variável e podíamos ser bons amigos, pelo menos desses amigos que se telefonam no dia de anos e no Natal.

13 junho 2017

E tu, quanto tempo demoras a preparar uma comunicação sobre banalidades?



E agora vou só ali falar do que não sei

Quando cheguei ao meu destino, o Hilton de Barcelona, esta parte era escusada mas as coisas são como são e a persona faz-se de deixar estes pormenores espalhados displicentemente ao longo do texto, quando cheguei ao meu destino, dizia eu, arredondei a conta do táxi par um valor que incluía uma gorjeta generosa, tão generosa que o taxista se virou para trás, tirou os óculos escuros e agradeceu, surpreendido. Foi pela música clássica, justifiquei. E então o taxista explicou-me que ajusta a escolha musical ao que lhe parece que o passageiro está mais necessitado e que eu, engravatado com quarenta graus em Barcelona e o meu ar taciturno, lhe pareci estar precisado de música que me acalmasse durante o percurso e, acrescentou, foi também por isso que não me dirigiu a palavra, até porque notou, através dos seus óculos escuros, que eu fechava os olhos para melhor apreciar a sonata.

Depois apertámos as mãos e cada um foi à sua vida, ele divertindo-se a escolher a música que os clientes estão precisados, eu a desejar que o próximo cliente seja um casal que se adeque a uma coladera.

06 junho 2017

Maria Athayde de Bettencourt

Podíamos não nos ver durante muitos meses, e não víamos, a Foz nem sempre me fica em caminho, mas retomávamos sempre a conversa no preciso ponto em que a tínhamos deixado da última vez, e a última vez tinha sido quase sempre numa dessas ocasiões que ambos frequentámos porque nos pagavam para isso, em que as pessoas serpenteiam com flutes de champanhe na mão, sorrindo e murmurando "posso dar-lhe uma palavra?", enquanto esticam o dedo indicador para nós, eu gostava sempre que falássemos de viagens, a Maria Athayde de Bettencourt sabia de lugares onde poucas pessoas tinham estado, para além disso tinha o dom especial de me aconselhar os livros adequados ao meu estado de espírito do momento, Moby Dick nunca fazia sentido nas semanas antes de me fazer ao mar, Herberto só fazia sentido no Inverno, eu compensava-a com o dom de adivinhar com trinta segundos de antecedência o exacto momento em que ela precisava de sair dali para fora e apanhar ar, quase ninguém acreditava que nos bastava aquilo que tínhamos, mas bastava.

A Maria Athayde de Bettencourt vai casar com o tipo mais desadequado à Maria Athayde de Bettencourt que eu conheço, prova maior, se necessário fosse, da minha completa inaptidão para perceber o que vai na cabeça de uma mulher.

Post da uma e meia da tarde

Aquilo do selinho em bom chegou tão longe, mas tão longe, que a certa altura até já havia pessoas que nem sequer dedicavam o selinho ao Pipoco Mais Salgado.

Post da uma da tarde

Ela era daquelas mulheres que nunca se arrependiam daquilo que escreviam.

Não era um problema, havia sempre quem se arrependesse por ela.