04 fevereiro 2016

Ser snob-chic é saber...

...que  o indicativo do "Cinco Minutos de Jazz" se chama "Lou´s Blues" e que Lou Donaldson, o saxofonista que o escreveu, tocará este mês no Hot Clube do alto dos seus oitenta e nove anos.

03 fevereiro 2016

Vasconcellos de Carmona

O Vasconcellos de Carmona não é mais velho que eu, mas parece. Sabíamos sempre quando o  Vasconcellos de Carmona estava para chegar, o tempo ficava igual ao da Cornualha no Inverno, cheirava a terra onde se apanham trufas e a queijo Roquefort, a vinhos de Château e a tabaco de cachimbo. O Vasconcellos de Carmona usava sempre uma boina e colete, que cobria com casacos de tweed de corte irrepreensível. Ligavam-nos os livros, o Vasconcellos de Carmona tinha a biblioteca mais fantástica que eu já vi e não se negava a emprestar-me edições antigas, demorando-se a explicar-me as diferenças entre aquela edição e as edições menores.

Hoje almocei com o Vasconcellos de Carmona e com a mulher com quem vai casar daqui a umas semanas. Chama-se Vanessa e tem unhas de várias cores.

Não antecipo nada de bom.

02 fevereiro 2016

Em verdade vos digo

Não há melhor rede social que uma mesa com amigos meus à volta.

01 fevereiro 2016

Eu? Ora, eu tenho a Dona Judite...

Das mulheres que mandam na minha vida, a Dona Judite será, talvez, a que mais manda. Quando peço o peixe certo no dia errado, a Dona Judite abana quase imperceptivelmente a cabeça e eu percebo logo que é melhor pedir outra coisa qualquer, quando eu reclamo que não me cobrou o café, a Dona Judite informa-me que não era o meu dia de pagar café, quando não me apresento à hora aprazada no dia de bacalhau cozido, a Dona Judite faz com que me informem que só me "aguenta a mesa mais cinco minutos" (e é ver-me a terminar a reunião à pressa). A protecção da Dona Judite começou no dia em que lhe entrei com o arrumador de carros porta dentro, deu-se o caso de o arrumador de carros me ter pedido uma moeda para comer e eu disse-lhe que o convidava para almoçar comigo. O arrumador de carros passou os olhos pela lista e informou-me que deixasse estar, que não lhe apetecia nada daquela lista de mais de dez pratos. Desde esse dia feliz, a Dona Judite achou que eu era um inocente e jurou que me havia de proteger das coisas sérias da vida e o arrumador de carros nunca mais me falou de moedas. A Dona Judite decide quando eu preciso de um desses guardanapos que protegem as gravatas (e não se afasta enquanto eu não o coloco), decide quando a minha sobremesa deve ser maçã maçã assada (ainda que eu insista "é só um café, Dona Judite"), decide quando manda o Senhor Mendes, o marido que está a aviar ao balcão, falar um bocadinho de bola comigo, sempre nos dias a seguir ao Sporting ter perdido um jogo (não temos falado muito nos últimos tempos), decide quando senta um desconhecido à minha frente (acho que ela percebe logo quando eu entro se isso de partilhar a minha mesa com desconhecidos é ou não uma boa ideia) e decide quando me traz mais um quarto de dose, ainda eu vou a meio da dose inicial.

No restaurante da Dona Judite, eu mando pouco, mas mando alguma coisa: a Dona Judite encomenda o "Público" porque sabe que não lhe leio o "Record" nem o "Correio" e encomenda um vinho que só eu é que bebo, que ela pede com voz de trovão ao Senhor Mendes "dá-me uma garrafa da marca do Engenheiro!".

(dando seguimento às crónicas de Don Xilre, Madame Palmier Encoberto, NM e Linda Blue)

29 janeiro 2016

Pipoco está a viajar para sítios muito longe e hoje não pode

Digam-me que o sacana do cão (aquilo é um cão, não é?...) tem as unhas aparadas...

Politicamente correcto

Rebolar com os meus sobrinhos na relva e ninguém achar estranho, jogar à bola na praia às duas da tarde de Agosto e mergulhar no mar para arrefecer sem ninguém me lembrar que aquilo não são horas, chamar preto ao Eliseu, um tipo que há-de ser meu amigo até ele querer, e ninguém me lembrar que o preto se chama Eliseu, dizer a uma mulher bonita que ela é efectivamente bonita sem esperar que me denunciem e me multem, beber um gin e conduzir sem que me olhem como um assassino, comer carne de vitela mal passada e acompanhar com batatas fritas com sal grosso sem que insinuem que o colesterol e a hipertensão não sei quê, dizer que o Charlie Hebdo é uma bela merda sem que me recordem que o meu dever é ser Charlie, cantar alto a La Habanera no trânsito da segunda circular e ninguém fechar as janelas do carro.

28 janeiro 2016

Há vacas sagradas nisto dos blogs?

Isto é, bloggers que, escrevam o que escreverem, têm o nosso acordo, opinem sobre o que opinarem pensaremos "é isto o que eu penso sobre o tema", bloggers excelentes com os quais concordaremos sempre?

(excluindo-me a mim, quero dizer...)

Don Xilre e eu

Don Xilre havia de chegar cinco minutos antes da hora aprazada, havíamos de nos reconhecer pelos livros combinados que levaríamos debaixo do braço, eu o Manhã Submersa, Don Xilre os Poemas, de Borges. Não seriam necessários os livros, ainda Don Xilre caminhava para a porta do Martinho da Arcada e já eu o tinha identificado pelo fato de bom corte e pelo chapéu de feltro, este tempo de Lisboa pede um bom chapéu, Don Xilre também se me dirigiria de imediato, aperto firme, "Como está?", havíamos de dizer que era um privilégio conhecermo-nos um ao outro, enquanto terminávamos os nossos charutos, antes de entrar.

Ainda antes do prato principal, perdiz de caça para ambos, Don Xilre havia de assentir em deixar-me escolher o vinho, um Pintas de 2012, e já eu atacava o tema que ali nos trazia, que não tinha cabimento Don Xilre acabar assim os seus escritos, que havia que resistir a deixar isto entregue a blogues menores, quem sem ele ficaria só eu e mais meia dúzia a escrever em condições.

Don Xilre havia de contrapor, a maçada da rotina, o assédio das donzelas, primeiro gabando-lhe a inteligência e as temáticas, para logo a seguir lhe contarem que as coisas da intimidade lá delas já tinham visto melhores dias, quisesse Don Xilre ter a maçada de as aconselhar... . E continuaria Don Xilre desfiando as suas razões, o não haver quem lhe entenda as entrelinhas, o endereço electrónico xilre.mail(at)gmail.com a abarrotar de bons conselhos e de pessoas de boa vontade a partilharem com Don Xilre que também já se sentiram assim, Don Xilre a não estar certo de ele próprio se sentir assim.

Já no café, que não adoçaríamos, havia eu de fazer as alegações finais, que todos ficaríamos mais pobres, que havia de se poder fazer uma requisição civil, que não se admitia Don Xilre ser insensível ao ponto de admitir privar-nos das cartas do Professor Andrada, que não se concebia não mais termos notícias de Dona Aureliana.

Don Xilre, havia de prometer considerar as minhas palavras e, finalmente, havíamos de nos despedir com um "até breve", eu na secreta esperança de Don Xilre retomar os escritos, Don Xilre certamente impressionado com as minhas capacidades de persuasão.

Afinal não foi preciso. E ainda bem.

Come chocolates, pequena

O Atahyde de Vasconcellos foi quem começou com aquilo da Ofélia e do Pessoa se ter desconjuntado por causa do Álvaro de Campos, não se tivesse Ofélia deslumbrado com Álvaro de Campos, e teríamos poeta por muitos anos. Pior poeta, concedia, que isto dos poetas de amores felizes não era coisa para fazer prosperar a boa poesia, mas ainda assim. Eu não disse nada, tenho a minha conta de mulheres que confundem tudo, respondem ao heterónimo quando estão defronte do poeta, ele mesmo, acabam por confundir-lhes as idiossincrasias, misturar-lhes os predicados, somar-lhes os defeitos. Acabam por esmorecer, pois claro, que isto de organizar as emoções não é da natureza das mulheres.

(Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

27 janeiro 2016

Diz-me, Ruben Patrick

É certo que lhe ligas não poucas vezes só para teres a certeza de não ires notar pequenas inflexões na voz que te forneçam um sinal de que alguma coisa não está conforme, desesperando quando a má cobertura de rede não te dá certezas?

Podes afirmar que já entraste numa dessas perfumarias de centro comercial e desesperaste por não existir um frasco de teste com a marca do perfume dela, impossibilitando-te de aspergir um lenço monogramado que compraste só para esse fim?

Confirmas que há ocasiões em que, durante a espera num num semáforo encarnado, fechaste os olhos e sorriste enquanto pensavas nela e tiveste que levantar a mão para o tipo do carro de trás que buzinou, pedindo-lhe desculpa pela tua desatenção?

Já deste por ti a notar que alguém havia de inventar uma forma de medir a saudade, mas medir mesmo a sério, numa escala que não fosse de tempo?

Já deste por ti a caminho de muito longe, e muito longe é sempre a caminho do mar, e só notaste o tarde que era quando sentiste muito frio e era de manhã?

Então, Ruben Patrick, estás oficialmente apaixonado.

(Estás fodido.)

26 janeiro 2016

Entretanto na Disney

Enquanto usufruía de um pequeno intervalo nas minhas elucubrações , fumando um merecido Partagas e degustando o providencial cognac de meio da manhã, passei os olhos pelos jornais e os meus sentidos foram estimulados com a incrível história que o Washington Post me ofertava, precisamente uma situação sobre um drama dos nossos dias, uma espinha entalada nas nossas gargantas que acabaria por nos passar despercebida. não se tivesse dado o caso de eu cá estar para ler o artigo e estar aqui a falar destes temas aziagos.

 O Washington Post diz-nos que houve quem andasse a ver os filmes de princesas da Disney só para tomar nota de quem fala mais, se os personagens femininos ou masculinos. E se em Branca de Neve e os sete anões a coisa se equilibrava, o que equivale a dizer que a Branca de Neve e a bruxa falavam tanto quanto os sete anões (sete!) e o príncipe, a coisa vai andando aos altos e baixos a partir daí, oscilando entre os dez por cento de falas femininas em Aladdin ou pouco mais de vinte por cento em Mulan ou Brave. Tudo histórias de princesas, note-se.

Ora isto acontece porque as princesas estão ali só para arranjar maridos. Bons maridos de preferência. E toda a gente sabe que para se arranjar um bom marido não é necessário falar muito. Aliás, até dasajuda.

Já os rapazes das histórias são donos de lojas, polícias. Estão a cantar alto nas tabernas ou a organizar batidas a monstros. Tudo coisas que carecem de diálogo. As mulheres? Ora, estão a sofrer por causa do tal marido que se está a fazer difícil. A sofrer em silêncio.

Eu era capaz de começar por aqui.

25 janeiro 2016

O método do discurso

Habituei-me a escolher as minhas guerras. Respeito as guerras de quase toda a gente mas dá-se o caso, maçador, bem sei, de nem todas as guerras serem as minhas. E, em não sendo as minhas guerras, não há grande maneira de me arregimentar, não há estatísticas nem estudos americanos que transformem uma guerra que não é minha, na minha guerra. A não ser que me apeteça, evidentemente. E raramente me apetece, a não ser em episódios em que suceda eu ter tempo e debruçar-me com mais detalhe sobre os temas e pensar de mim para comigo que sim senhores, ali está um bom motivo para me fazer guerrear. E então dá-se o milagre, um tema que estava lá arrumado no meu cerebelo, ou lá onde é que se guardam os temas que são capazes de ser putativas guerras minhas, ganha vida própria e eu passo a acarinhar com todas as minhas energias a minha guerra novinha em folha. Ora isto não é coisa que me suceda todos os semestres.

É claro que eu também sou um vendedor das minhas guerras, aprendi que, se as guerras não forem só minhas, passo a ter mais possibilidades de as ganhar. E ganhar guerras é muito mais importante do que a excitação de arregimentar pessoas para a  minha fileira. Além de muito mais divertido. E eu sou um tipo que ainda se diverte a ganhar guerras. 

Para ganhar as minhas guerras eu preciso de ter quem mas compre. Há muitas maneiras, posso fazer de conta que não quero vender a minha guerra a ninguém e acontece que as pessoas a compram, mesmo fazendo eu de conta que não a quero vender. Outra maneira, que dá mais trabalho, é explicar bem a minha guerra e, muito mais importante, porque é importante ganhá-la. Bem sei que é difícil acreditar nisto, mas nem sempre as pessoas compram a minha guerra. Às vezes apetece-me abaná-las e dizer-lhes que não estão a ser muito inteligentes, tão evidente me parece o mau caminho por que seguem. Apetece-me mandar-lhes uns artigos e exigir que os leiam. Educar as pessoas, não sei se me estão acompanhar. No entanto, aprendi cedo que as pessoas ficavam aborrecidas comigo por eu estar a insinuar que elas não tinham capacidades cognitivas para me acompanhar intelectualmente. Algumas podiam fazer de conta que compravam a minha guerra, mas era só para deixarem de me ouvir, afinal eu tinha sete anos e a minha voz não era tão máscula como é agora. 

Aprendi a aceitar que há quem não compre a minha guerra. Não são más pessoas, apenas têm outras guerras, tal e qual como eu. Felizmente há quem esteja mais capacitado e admita comprar as minhas guerras. É nesses que eu me foco, acarinhando-os, incentivando os seus pequenos avanços, aprendendo com eles. Explico-lhes as vantagens de ganhar aquela guerras e pergunto-lhes se conhecem uma maneira mais rápida e melhor para lá chegar, ao resultado final. E eu gosto de ganhar guerras. Até porque, depois de as ganhar, posso sempre começar outras, sejam das minhas ou seja daquelas que me apeteceu comprar. 

Confesso que sei qual é o melhor método: é nunca pensar que sei mais do que aqueles a quem quero vender a minha guerra. Mesmo que seja verdade.

Pipoco pergunta

Deveria a Gillian Anderson ter recusado liminarmente fazer de novo de Dana Scully e dar uma lição à FOX, que havia de ajoelhar porque os X-Files só funcionam com a Dana Scully ou a coisa certa foi a  Gillian Anderson reclamar e ter um salário igual ao do David Duchovny/Fox Mulder?

24 janeiro 2016

Pipoco comenta as eleições (final)

Ficamos então aqui à conversa? E tiro a moderação ou quê?

Pipoco comenta as eleições (XV)

Abril Vencerá, dizem lá na sede do Edgar Silva.

(alguém lhes conte o que se passou, por favor...)

Pipoco comenta as eleições (XIV)

Marisa diz que levará consigo os problemas das pessoas. Lá em Bruxelas ela trata disso.

Pipoco comenta as eleições (XIII)

Isto das eleições presidenciais é como o campeonato nacional este ano, sabe-se logo quem é o grande vencedor.

Pipoco comenta as eleições (XII)

Maria de Belém agradece aos que nela votaram. Na sala ninguém acusou o toque.

Pipoco comenta as eleições (XI)

Como fará Jorge Sequeira para se auto-motivar?