28 abril 2016

Palmier, chega de ter com quem brincar?

No princípio criou Sansão, o pássaro-alfa, o Lago Tanganica. E o Lago era sem forma e vazio e havia trevas e Sansão, o pássaro-alfa, movia-se sobre a face das águas. E disse Sansão, o pássaro-alfa: Haja pássaras; e houve pássaras. E viu Sansão, o pássaro-alfa, que era boa a passarada. E foi o dia primeiro.

E disse Sansão, o pássaro-alfa: Haja pássaras preferidas. E houve, e Sansão, o pássaro-alfa, fez separação entre as preferidas e as menos preferidas e mandou cunhar medalhas e as pássaras deram muito valor à bugiganga e chamou-se à bugiganga  "certificado de pássara preferida". E foi o dia segundo.


E disse Sansão, o pássaro-alfa: Juntem-se as pássaras debaixo dos céus num lugar; e assim foi. E as pássaras, vendo-se cada uma com sua bugiganga, questionaram muito Sansão, o pássaro-alfa e muito sofreram e se atormentaram; e viu Sansão, o pássaro-alfa que melhor teria sido se tivesse produzido erva verde, erva que desse semente, árvore frutífera que desse fruto segundo a sua espécie, cuja semente estivesse nela sobre a terra; mas era tarde para retroceder e viu Sansão, o pássaro-alfa que era era melhor fazer alguma coisa. E foi o dia terceiro.

E disse Sansão, o pássaro-alfa: Que as pássaras guerreiem para decidir qual delas fica como a mais preferidas das preferidas, que se amotinem em navios pirata, que cavalguem pelas margens do Lago Tanganica com óculos de massa preta e blusas brancas com generosos decotes, que formem alianças entre si, e que, de acordo com as escrituras, desfaçam essa aliança e formem uma nova, que raptem cães minúsculos, que convoquem pássaros da estirpe que não é pássaro-alfa para se iludirem com protagonistas menos capazes. E foi o dia quarto.

E disse Sansão, o pássaro-alfa: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus. Sansão, o pássaro-alfa, criou as grandes baleias, e as baleias fizeram blogs de moda e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies, e os répteis fizeram blogs de maldizer; e viu Sansão, o pássaro-alfa que era bom e os abençoou, mesmo aos dos blogs fraquinhos e de poesias, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas do Lago Tanganica. E foi o dia quinto.

E disse Sansão, o pássaro-alfa: que se façam pássaros-alfa à minha imagem, e que os pássaros-alfa dominem sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou  Sansão, o pássaro-alfa, o pássaro-alfa à sua imagem; pássaro-alfa e pássara-alfa os criou e abençoou, e  Sansão, o pássaro-alfa, lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei o Lago Tanganica, e sujeitai-o; e dominai sobre os peixes do Lago e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre o Lago. E assim foi.

E viu  Sansão, o pássaro-alfa, tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi o dia sexto.

27 abril 2016

Depois de ver a peça que vai no Teatro São Luís

Todos somos contadores de histórias, sejam elas nossas, inventadas por nós ou mudadas pelas histórias que ouvimos aos outros

(e passamos a ser portadores de uma nova história)

Tanganica report

Sansão, o pássaro-alfa, planava nas alturas, aproveitando as correntes mais favoráveis, olhar fixo no horizonte, taciturno, circunspecto, antecipando o momento em que daria por terminado o seu momento de tranquilidade e desceria de novo sobre o Lago, apaziguando-as nos seus maus humores, apartando-as com gentileza, porém com vigor, tranquilizando-as nas suas pequenas dúvidas existenciais, mostrando-lhes o caminho da verdade e do bem.

Era um dia normal no Lago Tanganica, portanto.

26 abril 2016

A lenda do Lago Tanganica, outra vez

Diz a lenda que, deste tempos imemoriais havia nas margens do lago Tanganica uma colónia de passarada variada. Expostos a ambientes agrestes, quer fosse o tempo da mais extrema canícula, o lago Tanganica em chamas, a passarada menor afligindo-se com a tensão que emergia do fundo do lago, quer fosse o tempo do gelo em que os elementos eram inclementes e só os mais fortes sobreviviam, os habitantes do lago acostumaram-se a depender da gentileza de estranhos para sobreviver naquele meio inóspito. Todos? Não, Sansão, o pássaro-alfa planava nas alturas, indiferente aos humores meteorológicos, tudo supervisionando, abrigando uma flaminga menos resistente ali, salvando no último momento uma rouxinola acoli, resgatando à morte certa uma pardala mais à frente, sempre vigilante, sempre em voo picado sobre os alvos, altivo, sorrindo sempre com o que murmuravam sobre si os que voavam mais baixo, esperando o momento que todos sem excepção desejavam que nunca chegasse, o momento em que Sansão, o pássaro-alfa descansasse enfim da sua missão.

Estava o lago Tanganica numa dessas quietudes que deixavam Sansão, o pássaro-alfa, em estado de vigilância reforçada, quando uma das flamingas mais antigas, uma referência para as flamingas por ser a mais palradora de todas, interpretando uma pequena atenção de Sansão, o pássaro-alfa, que, nobre e gentil, a tinha encaminhado para uma das portas de embarque para o voo migratório nas margens do Lago Tanganica, se deslumbrou com a força que emanava a presença de Sansão, o pássaro-alfa, e logo ali tratou de se destacar das demais e proclamou a quem a quis ouvir que era a sua preferida, tentando atormentar as suas iguais, lançando a dúvida sobre a lendária imparcialidade de Sansão, o pássaro-alfa e desejando para si as atenções que judiciosamente e com um rigor geométrico, Sansão, o pássaro-alfa, distribuía equitativamente.

Estava lançado o caos.

Guerra dos Blogs

A nossa Palmier, uma das mais brilhantes bloggers da sua geração, a Palmier que, quando nos conta histórias da Tia Mimi e da criada Maria das Dores, nos toca no mais fundo das memórias que nunca tivemos mas gostaríamos de ter tido, a Palmier dos cabelos ao vento em automóveis velozes, a Palmier que tanto é capaz de nos maravilhar com o detalhe do fascinante mundo da construção civil como nos amolece o coração com as tropelias da sua pequena cadela Fox Terrier, a Palmier que parece que sempre fez parte das nossas vidas, ao ponto de quase nos apetecer tratá-la por Tia Palmier, pois dizia eu que a nossa Palmier está ali numa tristeza sem fim, enroscada a um canto, a dormitar, implorando por uma boa brincadeira com alguém que seja uma referência nisto dos blogs, alguém com poderes para a tirar daquela letargia, uma sumidade capaz de a entreter com elegância, com graça, com inteligência, com criatividade, que a estimule verdadeiramente.

Que me sugerem?

Gaveta dos retratos da casa dos meus pais

E este sou eu de calções a abraçar o meu irmão, aquele era o tempo em que eu ainda era mais alto que o meu irmão, e este sou eu de gorro a correr atrás das pombas no Rossio, a minha mãe ficou no canto da fotografia a rir, este sou eu deitado numa rocha alta, a mão que quase não se vê é do meu pai, não fosse dar-se o caso de eu cair, este sou eu a jogar à bola na final de um campeonato, perdemos por um-zero porque a bola me bateu na mão e foi penalty, este sou a fumar charuto num fim de ano muito frio, aqueles olhos era porque já tinha nascido a manhã e tínhamos estado a comer chouriço assado e a beber Macieira durante toda a noite, este sou eu a aquecer as mãos numa fogueira em Arganil, dali a nada havia de passar o Hannu Mikkola, este sou eu a caminhar na ilha das Flores e na de Santo Antão, no Gerês e no Monte Branco, este sou eu de fato e gravata, dez amigos abraçados no casamento de um deles, alguns já não são meus amigos e outros já cá não estão, este sou eu na praia com o meu polo cor-de-rosa, é sempre bom saber que já tive um polo cor-de-rosa, este sou eu a jogar poker numa véspera de exame de Complementos de Matemática II e mesmo assim tive treze, este sou eu abraçado ao meu primeiro cão, que era uma cadela grande e preta e estava com muitas feridas e muita fome no primeiro dia que nos vimos, este sou eu com pés de gato e cordas à cintura a escalar uma parede fácil no Montejunto, este sou eu a segurar a minha sobrinha e ela tem uns binóculos e ainda nos lembramos os dois do que vimos nesse dia, este sou eu de barba de quinze dias e t-shirt branca a ler Pamuk.

25 abril 2016

Dupond & Dupont



Sem Título, 1974, Acrílico sobre gaze e bambu, Michael Biberstein, Fundação Eugénio de Almeida

Menir, a caminho do cromeleque dos Almendres

Entretanto, em Escoural...



23 abril 2016

22 abril 2016

Gloriosos Anos Oitenta

Depois de Bowie e Prince, quem se seguirá? Spandau Ballet? Alphaville? Ou Manuel João Vieira?

Sonhei outra vez com Lamborghinis roxos

Talvez fosse por estranhar a almofada de hotel, a minha vida agora é isto, beber menos café e estranhar coisas que estranho estranhar, talvez fosse por ter ceado uma selecção de queijos e vinho Rioja, mas a verdade é que sonhei outra vez com Lamborghinis roxos, eu entrava no Lamborghini roxo e arrancava depressa demais, em vez de seleccionar o modo automático, garantia de arranques suaves, tinha escolhido o manual, coisa só ao alcance de quem tem mãozinhas para aquilo, e eu tenho, mas não depois de cear queijo e vinho, e fiquei a matutar nisto, nos Lamborhinis roxos, tal como com as pessoas é sempre melhor arrancar com suavidade, as pessoas cada vez se importam menos que seja em modo automático.

21 abril 2016

Pequeno desvio no caminho para Madrid


Das perguntas

"Jon Snow morreu mesmo?" é o novo "Quem matou Laura Palmer?".

Post das oito e meia

Cofiando a barba, munido do meu melhor ar taciturno, interrompo a leitura de Joyce, James Joyce, levanto-me da minha poltrona favorita, acendo um Cohiba Lanceros e sirvo a mim próprio um cognac em balão aquecido, enquanto descanso os olhos na caixa de comentários e verifico que Lady Kina implora um gesto meu, algo que ilumine o mundo dos blogs, uma força, uma visão.

E eu, apesar de estar a apreciar este remanso, a começar a acostumar-me aos dias longos de livros e viagens, a apreciar as verdadeiras coisas boas da vida, não posso ficar indiferente a tal apelo, à vaga de fundo, não posso observar o estertor de apostas que pareciam talhadas ao sucesso fácil, não posso ficar indiferente à temática das comparações de quem tem mais cavalos ou de que é possuidor de mais centímetros, não posso pactuar, como se não fosse nada comigo, com o deteriorar do conceito de blog de homem, um segredo passado de geração em geração, de pai para filho.

Mas depois, Lady Kina? Depois passa-me a vontade e volto a Joyce, James Joyce...

19 abril 2016

Teremos sempre a Lezíria

E hoje de manhã, ainda não eram sete horas, enquanto caminhava para o carro, documentos por assinar debaixo do braço, os óculos encavalitados na testa, a chave do carro na mão, o iPod pendurado ao pescoço, a minha cadela nova a tentar mordiscar os atacadores dos meus sapatos e o nó da gravata ainda por apertar, percebi que o damasqueiro está a começar a florir. Fui ver e ofereci a mim próprio trinta segundos de olhos fechados, o sol a bater-me na cara, o aroma da flor do damasqueiro a entrar-me pelas narinas.

Não fosse ter que ir comprar atacadores novos para os sapatos e diria que foram os melhores trinta segundos da semana.

18 abril 2016

Pipoco dava dinheiro...

...para participar numa dessas sessões de brain-storming de onde saem as propostas do Bloco de Esquerda.

Cinco bons blogs, a escolha final

Das sugestões de blogues que generosamente me apresentaram, o difícil foi escolher cinco, mas as coisas são como são, se imponho regras tenho que ser o primeiro a dar o exemplo, com grande pesar meu tive que escolher, até tive insónias tão forte foi o afrontamento de poder não estar a escolher os cinco certos, mas finalmente a escolha está feita e escolhidas as cinco melhores sugestões.

Sejam então bem vindos à minha exclusiva, selectiva e praticamente inatingível lista de bons blogs meus caros Impontual, Gina G, Maria Eu, hmbf, Manel Mau-Tempo, Flor e Grão de Milho.