15 janeiro 2018

Livros dos sítios

Um homem tem as suas manias, umas piores, outras mais aceitáveis, esta de ler livros que têm a ver com os sítios onde vou nem será das piores, mais vale isto que outra coisa pior, olhem se me desse para ler livros de elevar a auto-estima, desta vez levei "Perguntem a Sarah Gross", de João Pinto Coelho, claramente um seis e meio em dez, por um lado é uma boa escolha ter a história contada em duas dimensões, uma a decorrer no tempo em que Auschwitz era uma aldeia feliz, tão feliz que não se chamava Auschwitz, outra a acontecer nos anos sessenta, uma e outra história a fazerem sentido, a mostrarem que houve ali estudo sério, a bater certo com o que está escrito nos cartazes que estão no museu de Cracóvia, podia perfeitamente ter menos duzentas páginas e não ter aquela trapalhada final do bibliotecário, a Sarah Gross e a Kimberly Parker podiam ser um pedacinho diferentes uma da outra, mas sim, Cracóvia e "Perguntem a Sarah Gross" ligam muito bem, quase tão bem como Jo Nesbo e Oslo, Paris e Hemingway, Londres e Conan Doyle.

14 janeiro 2018

Nanny não sei quê

A Nanny não sei quê, com aquele cabelo apanhado, aqueles óculos de massa preta, aquela camisa decotada, aquela maneira de dar ordens, aquilo é coisa para entusiasmar uma pessoa...

(o Tio está ali meio incrédulo, copo de whiskey na mão, a dizer em voz baixinha "mas o que é esta bizarria, que é isto caramba?")

Que assim seja

Continuarei a segurar-lhes a porta e a não aceitar repartir a despesa do jantar, continuarei a subir e descer as escadas à frente delas, continuarei a dizer-lhes que estão muito bonitas - se estiverem -, continuarei a escolher o vinho e a esforçar-me por olhá-las nos olhos quando estiverem com decotes vertiginosos, continuarei a pegar nas malas mais pesadas e a não me importar de ser eu a conduzir o carro.

Sou um brutamontes, bem sei.

12 janeiro 2018

Cracóvia

Correr junto ao Vístula. Jantar no bairro judeu. Ir a um concerto de Chopin. Ir ao museu da cidade que fica na antiga fábrica do Oskar Schindler. Colocar um kipá e visitar a sinagoga velha. Beber cerveja numa esplanada com neve. Pensar que afinal talvez as bascas não sejam as mulheres mais bonitas do mundo. Andar pela cidade à noite. Ler. Ir à mina de sal, mas só se já não houver mais nada para fazer.

11 janeiro 2018

Post em tempo real

Acabo de sair de um concerto de Chopin.

Estive o tempo todo a pensar em Santana Lopes.

Ainda Auschwitz

Não se regressa igual depois de pisar Auschwitz. Mesmo que se vá preparado, que se tenham lido os livros e visto os documentários, sente-se o mal na sua plenitude, fechamos os olhos para melhor apreender tamanha maldade discricionária, há empatia incondicional pelos que aqui morreram.

(E percebemos, quase a desculpando, a cobardia dos que não viram, não sabiam. E é essa a pior parte)

09 janeiro 2018

Em verdade vos digo

É tão potente esta sensação de estar numa cidade desconhecida sem ter tido tempo para preparar os dias que cá passarei.

06 janeiro 2018

No more Lago Tanganica

E um dia houve em que Sansão, o pássaro-alfa, voando altivamente e sobre o Lago Tanganica, tomou consciência da quietude das tribos, o tempo tem destas coisas, esmorece os maus humores, apazigua ancestrais questiúnculas, as gentes tribais escolhem a paz, os pequenos nadas das vidas normais substituem com vantagem as outrora magníficas pelejas, mais vale focarem-se nas pequenas graças das crias e nas insignificâncias dos maus lugares que frequentam que alimentar as bizarrias de antanho, Sansão, o pássaro-alfa, sorri quando recorda os tempos em que lhe bastavam duas ou três palavras cirurgicamente escolhidas para que as hostes se agitassem, intranquilas e tementes, agora não é assim, pensa Sansão, o pássaro-alfa, as tribos são outras, umas houve que se afastaram do Lago Tanganica, outras por cá andam sem sombra do anterior vigor, e era nisto que Sansão, o pássaro-alfa, cogitava enquanto observava as tranquilas águas de Tanganica, sabendo porém que hoje, como ontem, basta um quase nada, uma meia palavra, uma invocação dos tempos antigos, para que o Lago se agite, para que os antigos habitantes se espreguicem, acordando da longa hibernação, e, ainda esfregando os olhos, se alegrem por verificar que Sansão, o pássaro-alfa, plana sobranceiro sobre o lago, por todos zelando, não negando a ninguém os seus saberes nem a sua palavra de verdade e bem, sabedor de que é bastante o seu querer para que as águas se agitem e os contadores de visitas se agigantem.

Daqui onde me encontro

A chuva bate nos vidros e Grieg toca para mim  enquanto procuro o livro certo para levar a Cracóvia, "Perguntem a Sara Gross" não seria desadequado, as cadelas correm lá fora, felizes, à chuva, o vento é cada vez mais forte, gosto de ver as minhas árvores a ser fustigadas assim, sirvo-me do meu novo amor de malte, fecho os olhos, se esta não é uma má vida por que estou prestes a fugir dela?

03 janeiro 2018

Toda a gente sabe que o meu ano começa em Setembro e a minha única decisão de ano novo é ser imortal

Mas, ainda assim, neste ano que agora entrou quero ler pelo menos um par de páginas de Ulysses, quero reduzir a dose de maus livros na minha vida, quero jogar mais póquer, quero ir a Auschwitz e à Cidade do Cabo, quero esquiar nos Alpes e mergulhar em São Tomé, quero correr mais vezes de manhã e chegar mais cedo a casa, quero continuar a ir jantar e passar o fim de semana lá onde ardeu tudo, quero ter os meus amigos mais vezes à minha mesa, quero que o Sporting seja campeão e ganhe a taça de Portugal e a Liga Europa e a taça da Liga, quero continuar a não ter facebook nem instagram nem telemóvel em cima da mesa, quero levar os meus pais a subir o Douro, quero mudar meia dúzia de coisas na minha vida, quero continuar com isto do Pipoco quando já não existirem mais blogs, quero continuar a ter claro quem quero e quem não quero.

29 dezembro 2017

Teremos sempre a segunda lei da termodinâmica, Ruben Patrick

Porque, em verdade te digo, a entropia num sistema tende a aumentar com o tempo, existirá um momento em que a desordem será tal que nada mais restará senão o caminho do equilíbrio. Na vida, Ruben Patrick, esse momento acontece quando alguém diz: "é melhor darmos um tempo".

Grandes dúvidas disto dos blogs

A série "Notícias da Grande Obra", que, não o percamos de vista, não é mais do que um apartamento, terá enfim o seu epílogo, privando-nos do inalienável direito a expressarmos a nossa opinião sobre a qualidade da pedra dos bidés e a cor das exóticas madeiras do fundo das despensas?

Ou será substituída pela saga "Custou isto uma fortuna e afinal...", partilhando-se com o respeitável público o infortúnio que um mau tijolo pode proporcionar?

Teremos finalmente bloggers truculentas sentadas no banco dos réus, defronte de severos juízes que, cofiando as longas barbas, as confrontarão com resmas de livros de capas pretas contendo nefastos IPs, a partir dos quais foram vertidos comentários atrozes?

E quais serão este ano as grandes causas, essas que galvanizam multidões na cidade, insurgindo-se contra situações variadas, dando conta da sua indignação e de como temos que fazer alguma coisa, que isto assim não pode continuar, há que ordenar o território e criar condições para as pessoas não sei quê e o que é preciso é prevenção?

E será este ano que teremos mercaditos de livros desses sem ilustrações, charutos cubanos e vinhos raros, whiskeys de trinta anos e blasers de boa lã?

E as dos blogs que vendem coisas, será este o ano em que os sábios companheiros de vida, "o maridão", como elas dizem, homens sensatos que ganham a vida a exercer profissões sãs, que implicaram estudo de matemática e filosofia e leis, se abeiram delas e lhes transmitem que as crianças não são para maçar com retratos com fracas farpelas, que mais vale pagar os fins de semana em hotéis em condições que andar de câmara a tiracolo para registar ovos com presunto em cima de mesas de pequeno almoço em troca de uma noite em hotéis de classe média-baixa?

E as dos blogs de paz e boas palavras de ânimo para os azares da vida, que nos dizem que temos que levantar-nos e seguir em frente, quer nos tenha falecido a família toda num ataque de filisteus ou a nossa equipa tenha perdido um jogo da taça da liga, sobreviverão com as lengalengas do costume, agradecer o dia, aceitar o que a vida nos dá, sorrir para toda a gente, e o caralho?

E os blogues de amigas para a vida, regressarão para nos entreter, ou é moda que não volta, passando à memória das coisas de antigamente, entrincheirada entre os blogs irónicos e os blogs de poesia caseira?

E será este ano que os blogs acabam de vez?

28 dezembro 2017

Retomando a coisa

Os deuses da fortuna, esses que sempre me levaram ao colo, protegendo-me das grandes amarguras, colocando camadas sucessivas de plástico com bolhinhas de ar entre mim e as arestas da vida, voltaram a não me falhar nas festas de natal, precavendo que fracos vinhos monocasta não se cruzassem com o meu palato, cuidando que maus livros não me fossem ofertados, ainda que com talão de troca acoplado, protegendo-me enfim dos jantares com pessoas que não aprecio mas que me tratam com deferência e com melhores modos que aqueles que considero convenientes, os deuses da fortuna asseguraram que não me faltasse a viagem grande, providenciaram duas toneladas de lenha de azinho em troca de uma boa acção que já nem me lembrava de ter feito, trataram que Damásio e Lobo Antunes, Quinta do Vale Meão e Château Margaux fizessem parte dos meus dias, faltando apenas que se tivessem lembrado que eu e as gripes, ainda que ligeiras, não somos compatíveis.

27 dezembro 2017

Bocejando

E cá estamos nós depois da coisa, este ano não houve luxúria de presentes, cada criança recebeu no máximo dois, um foi um livro e o outro foi uma peça de roupa que fazia falta, de cor politicamente correcta, nada de jogos de consola nem brinquedos electrónicos, esses foram todos recambiados para as criancinhas de África, também não houve desperdício de comida, aliás, o almoço de dia 25 foi o jantar de dia 24 reciclado, o cabrito e o bacalhau sobrantes foram guardados numas caixas herméticas e distribuídos por quem mais precisa, a caminho da missa do galo, a família abraçada como se fosse um todo, as crianças vestidas de igual, os cavalheiros de lenço ao pescoço e blusões Burberry, vieram os tios do Canadá, as primas de França, todos na cozinha com um copo de vinho na mão, numa boa conversa que se havia de estender pelo jantar de consoada, as crianças prepararam pequenos teatrinhos de fantoches, tudo feito por elas, argumento incluído, depois cantaram-se afinadas músicas de natal acompanhadas por instrumentos feitos de material reciclado, é assim o natal das pessoas dos blogues, uma boa merda, sem jeito nenhum.

10 dezembro 2017

Post para estarmos aqui entretidos num domingo em fim de tarde

O problema, Ruben Patrick, é que, tal como dizia Bukowski, não há nada mais aborrecido que a verdade, as pessoas preferem quem lhes conte uma boa história do que uma história verdadeira, se non è vero è ben trovato, a culpa é destes tempos em que competimos no único campeonato que interessa, o campeonato de termos uma vida melhor que toda a gente, se alguém se lembra de dizer que jantou no Bairro do Avilez quem vem a seguir não pode dizer que jantou na Valenciana, só faz sentido vir a jogo se disser que jantou no Pedro Lemos, originando o esbardalhanço de quem vier a seguir, que dirá que jantou no Noma, isto até alguém mandar dizer que o Noma está fechado por uns tempos, eu, por exemplo, na verdade nem sempre consigo bons lugares para o concerto de Natal do Scala, tenho que me ficar muitas vezes por lugares na quinta fila, é certo que continua a ser a plateia mas é a quinta fila, nem sempre bebo Petrus de 1945 ao jantar, há ocasiões em que tenho que me contentar com Château Lafite Rothschild 2000, nem sempre leio Joyce com Bach em fundo, a verdade é que são mais as vezes em que conjugo Roth e Bartoli, nem sempre apanho o voo das sete da tarde para Madrid que me fará chegar a horas de jantar no Paraguas, há dias em que me apetece chegar a casa cedo e preparar um risotto de trufas, mas quê? é vir falar no blog de risotto de trufas cozinhado por mim, de Roth com Bartoli, de Château Lafite Rothschild 2000 ou do concerto de Natal do Scala visto da quinta fila da plateia e logo as pessoas se desanimam, notam a fasquia baixa, quase lhes adivinho um bocejo e o passar ao próximo blog, um que lhes conte uma história melhor que a minha, como se tal coisa fosse possível

Ficai sabendo

Nas ocasiões em que Don Xilre se dirige a mim como "leitora", não interrompo a leitura, não me sinto ali a mais, não fico constrangido, bem pelo contrário, leio até ao fim, sem sentimentos de culpa nem remorsos.

(não faz mal, pois não?...)

09 dezembro 2017

Falando de coisas sérias

Diz-se de Hemingway que ele afirmava que não conhecia melhor forma de gastar dinheiro do que com champanhe.

Naquele tempo não existia o Quinta da Falorca Reserva de 2011.