01 Setembro 2014

Pipoco, esse desalinhado

Ainda ninguém me desafiou àquilo do balde de água fria, estou para aqui com os nervos porque ninguém me diz se o William Carvalho fica ou não fica, fui à FNAC e não mexi em tudo o que me apareceu à frente para depois devolver às prateleiras, ainda não tive nenhum acesso de nostalgia de fim de férias, ainda não me queixei a niguém de que a água estava fria.

Porque hoje é o dia em que começa um novo ano.

Que se troque o fato de mergulho pelo fato às riscas, que se troquem os óculos escuros pendurados ao pescoço pela gravata, que se troquem as "t-shirts" dos Monty Phyton pelas camisas com botões de punho, que se troquem as botas de monhanha pelos sapatos pretos, que se troque a vista de mar pela vista do escritório, que se troque a janela aberta pelo ar condicionado, que se troquem os livros de férias pelos relatórios com gráficos, que se troquem a vida à hora que ela nos apetece pelas reuniões às horas certas.

31 Agosto 2014

Sim, cheguei a tempo...

O que vês da tua janela, Pipoco?

Crónicas da viagem grande (VI)

Vamos ser claros: a comida do Peter é má, a esplanada clama por limpeza e as outrora lendárias tostas mistas são iguais às de um snack-bar do Cacém.

Mas o gin tónico, senhores...

(sem sementinhas, sem fruta a boiar, sem cores estranhas. Apenas gin, água tónica na medida certa e uma rodela de limão. Como mandam as regras)

29 Agosto 2014

Crónicas da viagem grande (V)

Descendo a serra do Topo a partir do exacto ponto em que olhamos para a esquerda e damos com o mar no norte da ilha e olhamos para a direita e admiramos o mar que banha o lado sul, passados cinco quilómetros, chegamos à Fajã da caldeira do Santo Cristo. Boiando na água tremendamente salgada, virado para a montanha, transformo-me, sem me dar conta, numa pessoa melhor. Penso naqueles a quem devo explicações, decido ligar aos que não vejo há muito, afigura-se-me que só fazendo o bem poderei ser feliz.

Mais tarde, já depois de ter nadado na Fajã dos Cubres, quinze quilómetros calcorreados, ofegando com a subida de seiscentos metros de declive em menos de duas horas de caminho, concluindo da pior forma que talvez fosse avisado não ter decidido por tamanha empreitada duas semanas após a fisioterapia, o efeito Santo Cristo esvai-se e reconheço-me de volta à boa vida real.

Crónicas da viagem grande (IV)

Talvez o senhor Nunes tenha apreciado eu ter declinando o pacote de açúcar quando me serviu do seu café, talvez tenha percebido que me apetecia conversa, talvez tenha apetecido conversa ao senhor Nunes, a verdade é que o senhor Nunes, que tem estabelecimento aberto na Fajã dos Vimes, passando da Calheta é ir na direcção do mar com vista para o Pico, o senhor Nunes, dizia eu, fechou a café Nunes só para me mostrar os arbustos de café nas traseiras do estabelecimento e explicar como consegue produzir o seu próprio café, que me soube como um dos melhores cafés que já bebi, bem sei que talvez tenha sido da conversa e de ter visto com os meus olhos todo o processo. Talvez no próximo ano o senhor Nunes tenha café para vender a quem o queira beber fora da Fajã dos Vimes, assim cresçam os pés de cafeeiro plantados no ano passado.

(A quem possa interessar: o senhor Nunes não emprega mulheres. Nem homens. E também não escreve em blogs.)

Que vês da tua janela. Pipoco?

28 Agosto 2014

Crónicas da viagem grande (III)

Ainda antes, muito antes, de me mostrar como fazem o melhor atum do mundo, o homem da fábrica de Santa Catarina explica-me que a função maior, o que mais o orgulha, é dar trabalho a mais de cem mulheres da ilha. Cem mulheres que levam dinheiro certo para casa, cem famílias onde o dinheiro que entra todos os meses é o delas, o deles entrará ou não, cem famílias onde são elas que decidem as prioridades. O atum é excelente, a nova imagem é cuidada, as exportações lá vão no bom caminho. Mas aquele homem, antes de tudo, orgulha-se de dar trabalho a cem mulheres e isto vale infinitamente mais e é infinitamente mais eficaz que cem feministas a reclamar dos piropos e a proclamar que não sei quê.

27 Agosto 2014

Crónicas da viagem grande (II)

Enquanto conduzo pela estrada da hortênsias que me traz do mergulho no Atlântico que há em Topo, onde acaba a ilha, rádio sintonizado em Mahler, a velocidade de um velho Nissan a não ultrapassar sessenta, braço de fora, cabeça limpa de coisas que poderiam aborrecer-me, penso que a felicidade é bem capaz de ser isto.

(sei o suficiente sobre mim para me lembrar que lá para Dezembro, esquis nos pés, estarei a pensar a mesma coisa)

23 Agosto 2014

Crónicas da viagem grande (I)

Jonas, o gato da fábrica de óleo de baleia, sabe que domina. Recebe os visitantes na bilheteira e não há quem não queira afagar o pelo preto e lustroso de Jonas, o gato, que se esquiva, elegante, sem ser desagradável para os visitantes. Talvez eu tenha sido o primeiro dos visitantes da velha fábrica de óleo de baleia a ignorar Jonas, o gato preto. Talvez Jonas tenha intuído a minha preferência por cães grandes, talvez Jonas tenha pressentido que eu estava ali pelas velhas autoclaves e pelas caldeiras. Jonas, o gato da fábrica de óleo de baleia não gostou que eu não o tivesse notado e seguiu-me até ao café, enroscou-se nas minhas pernas, decidiu-se por subir para o  meu colo, implorando o afago queaté então não me tinha apetecido dar-lhe.

Jonas, o gato da fábrica de óleo de baleia, tal e qual algumas mulheres com quem me fui cruzando.

19 Agosto 2014

Crónicas do interior (IV)

Fascina-me a quantidade de tonterias que quatro homens conseguem dizer, sempre em crescendo, numa relação perfeita com a quantidade de minis que estão em cima da mesa, mulheres e carros, esses eternos temas de conversa de homens, fascina-me que nenhum ouse desmentir o parceiro, se um conta as aventuras com cinco mulheres na última semana, logo há quem conte que nos velhos tempos nunca se contentava com menos de sete, e conta com pormenores, pedindo confirmação a um terceiro, "lembras-te Acácio? Na praia da Tocha?", e o Acácio confirma que sim, aquilo é que eram tempos, mais à frente há-de o Acácio precisar de validação para os duzentos e cinquenta à hora que o AX Sport deu na descida da serra de Aire, e o Fernando, o das sete mulheres, confirmará que sim,
duzentos e cinquenta e era porque o mostrador não apontava mais, fascina-me este "temos que ser uns para os outros", e ninguém fica mal na fotografia, não se deixa ninguém para trás, fascina-me que sejam estas pequenas coisas que de facto nos distingam das mulheres e das suas alianças tácitas e tão bem medidas.

18 Agosto 2014

Crónicas do interior (III)

E fascinam-me ainda os que chegam de Lisboa, todo o ano sem dispensar a camisa branca e os botões de punho, todo o ano escanhoados e perfumados com Bulgari de aeroporto, todo o ano com a fiel secretária a segredar-lhes o essencial da reunião que vai ter a seguir, fascina-me vê-los agora com barba de três dias mal cuidada, o fato Boss trocado pelo pólo Timberland de um cor de rosa que os desconforta, fascina-me vê-los levar tareias dos da terra a jogar matrecos, com o ar imbecil de quem acha justo os da terra jogarem melhor matrecos por contraponto de eles jogarem melhor na Bolsa, fascina-me a dificuldade com que se equilibram numas sandálias Havaianas, os pés a clamar por sapatos pretos que os protejam das pedras do caminho, fascinam-me os livros tontos que lhes aconselharam para leitura de férias que substituem os relatórios e contas e que eles deixam na toalha com a capa para baixo, não vá um igual estar por aquelas paragens e vislumbrar tão fraco livro, fascina-me o Record lido de trás para a frente, tal e qual o Diário Económico. Hei-de cruzar-me com eles algures em Setembro, em frente ao meu espelho.

17 Agosto 2014

Crónicas do interior (II)

Fascinam-me os emigrantes e as suas mulheres louras com sobrancelhas pretas, os seus filhos que se chamam Patrick e os seus carros com o símbolo da Federação da bola cravado no capot, fascinam-me as cervejas pagas com sobranceria aos da terra e as camisas com padrão exuberante, fascinam-me os fios de ouro e a necessidade de falar alto, fascina-me que consigam andar na faixa central da autoestrada durante tanto tempo e a forma como se riem de um café só custar um euro nas estações de serviço.