26 agosto 2016

Dias da Bretanha, um

No livro dos visitantes da abadia do Mont Saint Michel, onde os visitantes deixam as suas impressões sobre o local, dizendo que gostaram muito de ali estar, desejam paz no mundo ou agradecem ao santo uma intervenção qualquer, alguém escreveu "graças a Deus não nasci lampião".

Não fui eu.

(eu sei, fica no limite da Normandia, mas o que conta é a minha base...)

23 agosto 2016

Dias da Normandia, cinco

Estou a um bocadinho assim de trocar Ian Kershaw por Ken Follett.

Ostras e cidra



22 agosto 2016

Dias da Normandia, quatro

Entro no cemitério dos alemães e pergunto-me se a minha t-shirt dos Monty Python estará conforme o dress-code para um lugar assim. Não me sai da cabeça o sketch da melhor piada do mundo, com os alemães a morrer de riso no campo de batalha quando os ingleses lhes contavam a piada e penso que não é pensamento que se tenha num cemitério alemão.

Entretanto estou a ficar viciado em ostras acompanhadas com cidra, o que não é necessariamente uma má coisa.

Dias da Normandia, três

Estarei porventura na mais insignificante das aldeias normandas, um desses sítios que escolho por serem pouco dados ao turismo. Ontem foi o dia de festa cá do sítio, uma regata oela manhã, uns carroceis à tarde e fogo de artifício à noite.

A mais recôndita das aldeias normandas, no seu dia de festa, bloqueou os acessos à rua principal com umas barreiras muito feias, colocou seguranças que pediam que se abrissem as mochilas e, posso apostar, havia gente que, em vez de olhar para o céu, onde estrelejava o fogo de artifício, procurava pontos de fuga, para o caso de haver algum azar.

21 agosto 2016

A tal situação da amplitude das marés (não pediram mas de certeza que vão pedir...)



Dias da Normandia, dois

O homem da banca dos queijos percebeu que eu era português por causa de Pessoa debaixo do braço e obrigou-me a provar uma dúzia de queijos diferentes, ainda não eram onze da manhã. Despiu o casaco e lá estava a camisola da selecção, diz-me que tem dezassete e todos os domingos veste uma diferente. Uns franceses que estavam a acertar entre eles se optavam por um chévre dos Pirineus ou por uma espécie de camembert quase desistiam da compra mas o português dos queijos prometeu-lhes um desconto e a coisa resolveu-se.

Se algum leitor pedir, eu ponho aqui dois retratos que mostram a amplitude das marés do canal, que é coisa que me tem fascinado.

20 agosto 2016

Dias da Normandia

Ainda não são sete da manhã e já estou na minha janela com o Canal defronte, fascinando-me com a amplitude das marés. Um Hemingway meio lido fica à espera de melhores dias, interessa-me agora o livro sobre os pormenores da Operação Overlord, fecho os olhos e imagino-os a vir de onde a minha vista alcança, percorrendo esta mesma Utah Beach, acabando por ficar sepultados no cemitério americano, o das cruzes de soldados onde está escrito que Deus sabe o nome de quem ali está enterrado, entre um James Harris do Iowa e um John Cinatti de Nova Iorque, volto a abrir os olhos e encomendo ostras, volto a pegar em Hemingway, sempre me descansa mais os olhos.

19 agosto 2016

A ideia era cristã

Por uma sucessão de acasos, acabei a jantar na esplanada do Casa Nostra, esse, o dos atentados de Paris.

Não foi um jantar muito animado.

Que vês da tua janela, Pipoco?


16 agosto 2016

Numa parede, ainda não há cinco minutos


Disto dos blogs

Enquanto investigador do fenómeno disto dos blogs, investido de uma senioridade inquestionável no estudo de problemáticas variadas, o fenómeno que mais me espanta é o dos fracos números de Agosto onde, nos piores dias, nem quatro mil pessoas se dignam visitar esta vossa casa, uma miséria, comparando com os números de uma segunda-feira de Outubro em que o post das oito seja sobre os problemas das mulheres e o das duas da tarde sobre aconselhamento do livro adequado para a ocasião não sei quê.

(Nas férias está o escriba mais predisposto para escrever em condições e estão as pessoas em geral mais disponíveis para ler, uns e outros com tempo de sobra, é nas férias que os dias são mais diferentes dos dias normais, é nas férias que nos cruzamos com o que não pode esperar para ser contado, que nos deslumbramos, ainda assim preferimos isto dos blogs quando estamos lá no escritório numa sub-cave em Queluz de Baixo ou em Ermesinde, entre uma fotocópia e uma ida ao registo notarial para reconhecer as assinaturas do senhor doutor, alguém, de entre as quatro mil pobres almas que, calhando, só irão de férias em Novembro, me explique este fenómeno)

15 agosto 2016

Normandia

Um dia mostrei Leonard Cohen a uma das três mulheres que, em toda a minha vida, me conseguia despertar aquele instinto de química pura, de urgência em estar, aquele calafrio de cada vez que ponderava a possibilidade de a perder.

"Quem é ele? Parece que está a cantar no fundo de um poço", atirou ela, sem deixar de fazer o que estava a fazer.

Foi aí que nos perdemos.

14 agosto 2016

Porque lês blogs, Pipoco?

Sou eu quem tem as chaves da praia, é por isso que antes das seis percorro o areal com o meu cão grande e digo às gaivotas que são horas de sair, também sou eu quem ordena ao sol que desça sobre os mares quando me parece que é hora de as crianças abandonarem à sua sorte os castelos de areia, só depois de fechar a praia é que me servem um gin de fim de dia e gozo o luxo supremo de ler Hemingway, que me conta histórias de velhos lobos do mar até surgirem os amigos de uma vida, trazem sargos acabados de pescar, depois de grelhados com sal e saber acompanharão vinho branco gelado e conversas e risos que se estenderão noite dentro, até eu me retirar, invocando a minha condição de guardião das chaves da praia, eles assentirão, abrindo caminho para o meu último mergulho nas águas cálidas daquele mar iluminado pelo luar, o meu cão grande sem pêlos brancos nas patas, sabendo-me com a mulher mais bonita da praia, escolhe esperar-me sentado no areal, de costas para o mar.

(Nos blogs o vinho branco nunca está quente nem a água do mar está fria, as crianças nunca são uma maçada e os amigos aparecem sempre de surpresa só para nos ajudarem a rir pela noite fora, o areal é sempre só nosso até perder de vista e as horas de areal são sempre as remendadas pela associação dos dermatologistas. A família Prudêncio guarda os pesticidas num lugar seguro.)

12 agosto 2016

Danos colaterais de ter que escolher dois e só dois livros

Pela primeira vez em muitos anos, não levo para férias Ulisses, de Joyce, James Joyce.