13 junho 2018

Do Sul e Eu e Madame Pardal (III)

Enquanto Don Gigi trata de mim como só os maiores sabem tratar, propondo-me iguarias que, de tão simples, mais requintadas não poderiam ser, enquanto entremeio Dickens com Saint-Exupéry, enquanto me entretenho com empregados de mesa demasiado palavrosos, ontem um chegou ao ponto de me anunciar que tem muito boas críticas no Facebook, desesperando quando lhe comuniquei que tão conhecia nada disso do tal Facebook, enquanto corro à hora do nascer do sol até ao farol, penso em Madame Pardal, terá notado as sementes que, displicente, entornei nas imediações do ninho? terá notado a área de segurança que criei para que Cão Grande não se tentasse com um aperitivo demasiado fácil? terá já educado as Pequenas Crias para se absterem de pios obscenamente matutinos?

11 junho 2018

Do sul (II)


Do Sul (I)

À quinta refeição no Sul, quer-me parecer que os empregados de mesa receberam formação durante todo o inverno sobre a temática de dizer muitas palavras aos Clientes durante as refeições.

Está um tempinho de merda.

O Sul parece um imenso centro geriátrico. 

O restaurante da foz do Guadiana não tinha fila para jantar no exterior. Meninos.  

A água está não fria que dá para despachar um livro por dia. Estou a ficar sem munições.


07 junho 2018

Eu e Madame Pardal (II)

Combinei comigo próprio que não fotografaria o ninho onde espreitam os cinco bicos sempre ansiosos por comida, talvez Pequenos Pardais nasçam já adolescentes, meteu-se-me na ideia que Pequenos Pardais eram capazes de se assustar com o flash, isto apesar de ainda não abrirem os olhos, ainda assim é melhor não arriscar, que isto nunca se sabe das idiossincrasias de Pequenos Pardais.

Descobri um "canto morto" que me permite observar Madame e Monsieur Pardal na sua rotina de ponte aérea de transporte de víveres, sem ser visto, isto apesar de me parecer que Madame Pardal me pressente para além do vidro duplo e da camuflagem.

Cão Grande começa a mostrar-se demasiado interessado na janela do meu quarto, chegando mesmo a abandonar a sua bola de ténis favorita e até o ramo de sobreiro com cortiça roída. Desejo sinceramente que Madame Pardal ensine Pequenos Pardais a voar em condições à primeira tentativa, apostaria que Cão Grande estará atento a voos titubeantes.

06 junho 2018

Eu e Madame Pardal (I)

Madame Pardal, pousada na maçaneta da minha janela com meia minhoca a pender-lhe do bico, olha-me nos olhos, a cabeça meio inclinada, hesitando se entra ou não no minúsculo ninho onde cinco bicos se abrem e reclamam pela demora do almoço. Eu não desvio o olhar e mantenho-me imóvel, quero que Madame Pardal saiba que existe um preço para eu não poder fechar a portada do meu quarto virado a Nascente, e esse preço, o de eu acordar com a luz das seis e um quarto da manhã, é Madame Pardal confiar em mim. Monsieur Pardal aproxima-se e mantém-se parado no ar com um insecto dependurado no bico, agitando as asas, não há lugar para dois na maçaneta da minha janela, exaspera-se e acaba por entrar no ninho, desprezando o potencial perigo que eu represento, imóvel, do outro lado da janela. Monsieur Pardal apazigua as crias e volta a sair mas Madame Pardal, mais céptica, continua a olhar-me nos olhos, a cabeça inclinada, estudando-me, avaliando o risco, fazendo-me sentir a mais, um intruso nesse momento sagrado que é alimentar as crias. Monsieur  Pardal volta uma segunda vez, agora ignorando-me a mim e a Madame Pardal, entrando directamente no ninho, despachando a temática da alimentação das crias, não se demorando mais que um par de segundos. Afasto-me, saindo do campo de visão de Madame Pardal que, finalmente, sobranceira e segura de si mesma, se aproxima do ninho e provoca a algazarra das crias.

Podemos dizer que Madame Pardal ganhou esta batalha.

03 junho 2018

Apetecer-me chegar a casa

Primeiro dei conta que, de uma sexta-feira para um sábado, nasceu um ninho na minha janela, aconchegado entre a portada semiaberta e o vidro. Primeiro um ovo, depois outro, finalmente cinco ovos. A pequena ave e eu fizemos um acordo tácito, eu não a aborreceria demasiado com a minha curiosidade e não voltaria a fechar a portada até ao Outono (valerá  bem a pena acordar com a claridade do sol no meu quarto virado a nascente), ela faria o que tinha que ser feito.

Nasceram esta noite.

29 maio 2018

Eutanásia

Mas afinal qual é a dificuldade de legislar no sentido de, não me apetecendo transformar-me num vegetal ou não me apetecendo sofrimento desmesurado, alguém se apiedar da minha condição e, a meu pedido, desligar a máquina ou fornecer-me uma dose extra de morfina, concedendo-me uma réstia de humanidade?

23 maio 2018

Roth, Philip Roth

Quando os meus heróis se vão, quando me faltam os que me convocaram para o exercício de pensar, mais do que lamentar a perda, agradeço as suas obras terem feito de mim uma pessoa diferente.

22 maio 2018

E tu, onde estavas quando foi inaugurada a Expo98?

Eu estava no Gambrinus a apostar que a pala do Siza não caía.

20 maio 2018

Post escrito antes do jogo começar. Não me lixem, rapazes...

Temos então mais uma taça, não foi fácil, tivemos que aviar vários colossos, o Oleiros, o Famalicão, o Vilaverdense, o Cova da Piedade e o Aves, é claro que também aviámos o Fócuporto mas isso agora não interessa para nada, o que interessa é que este era o jogo do século, a festa do futebol, a salvação das florestas amazónicas, o espevitar da reprodução dos pandas no seu estado selvagem, o regresso dos golfinhos ao Mondego, para o mundo ser perfeito só faltava a demissão do homem, e eu envergonho-me de presidentes nossos desde quase sempre, ainda sou do tempo em que tínhamos o Sousa Cintra, naquele tempo era um empecilho, agora é quase um cavalheiro da bola, mas ganhámos e foi merecido, quem ganha merece sempre, é uma verdade válida desde que o Mourinho ganhou a Champions pelo Inter, foi bonita a simbiose dos jogadores com os adeptos, quase se misturando as funções, depois do presidente-adepto, os jogadores-adeptos, virá o dia em que teremos o presidente-jogador ou o roupeiro-presidente, tal e qual como nas famílias, todos a fazer tudo, o pai executivo a levar o lixo à rua, a mãe em licença de maternidade numa call para fechar o forecast, só nos falta o ex-presidente-adepto mas só mesmo adepto, havemos de ter saudades de saber que anda à procura da filha desaparecida mas afinal não, havemos de ter saudades daquela personagem pitoresca, a querer que os jogadores sejam seus amigos e os jogadores a tratá-lo como se fosse um tio-avô meio senil, dos que dizem coisas inconvenientes à mesa no Natal e que só queremos que seja hora de alguém o levar a casa, ganhámos, dizia eu, e isso é que é importante.

E agora vou ali ver o jogo da bola

Não é que interesse muito, a não ser a mim próprio, e as coisas são como são, baste que me interesse a mim e a coisa dá-se, mas a verdade é que os meus dias têm sido parecidos com os créditos finais do Kill Bill 2, a Uma Thurman a conduzir um descapotável por uma estrada secundária ao som de Shivaree, Goodnight moon, cabelos ao vento, sorriso na cara, aproveitando o que a vida nos dá de melhor, isto com a diferença, lá está, que eu não sou a Uma Thurman, o meu carro não é descapotável e por isso não posso andar de cabelos ao vento, não tenho memória de alguma vez Shivaree ter sido banda sonora das minhas viagens.

11 maio 2018

Do livro dos blogs (Capítulo 2, versículo 12)

Quando a inspiração te abandonar de todo, escreve sobre mulheres que amamentam em público ou insinua que é uma bizarria desejar mudar de sexo. Depois, polvilha a caixa de comentários com três comentários anónimos, um a concordar ferozmente, outro a insultar-te, o terceiro a contar-te uma história pessoal alinhada com a temática.

(agradecerás ao primeiro, devolverás a picardia ao segundo, empatizarás com o terceiro mas ressalvando que a história é uma caso de excepção e deixarás um quarto comentário a dizer "não vale a pena, anónimo, não vou publicar isso)

10 maio 2018

Pipoco, a ressuscitar blogosferas há setenta e dois anos

Era um desses tipos que se sentam à cabeceira da mesa, diziam-me que era um negociador dos duros, ainda não tinha chegado e já o odor a Kouros o fazia anunciar-se, verifiquei se tinha todos os indicadores de ser um tipo dos rijos e sim, lá estava o Rolex de mostrador dourado, o fio grosso de prata ao pescoço com um Cristo dependurado, os dois botões cimeiros da camisa preta desapertados, o cumprimento sem se desculpar e em voz grossa para os que tinham chegado a horas, os óculos Ray-Ban dependurados do bolso do casaco. Durante a reunião gritou muito, abusou dos gestos largos, pediu à secretária que lhe trouxesse uns documentos que não chegou a abrir, anunciou que ia fazer uma chamada ao António para desbloquear a situação, fez a chamada e disse "António, sou eu, pá..." enquanto me olhava com ar fulminante, o telemóvel dele vibrou e não consegui evitar saber que quem ligava era a "Fofinha, Amor" antes que ele tivesse tempo de virar o écran para baixo.

Acho que foi a partir desse momento que comecei a ganhar a reunião.

Do Livros dos Blogs (Capítulo 6, versículo 32)

Não confundirás a tua lendária inépcia para escrever um blog com o fim da blogosfera.

03 maio 2018

Pipoco, a escrever o mesmo post há oitenta anos, mas com umas diferençazinhas


E foi assim que tudo se passou

Ligar o botão do carro que diz "sport mode", apontar ao Guincho, abrir as janelas, seleccionar apenas Cohen e Aznavour, o Hallelujah a seguir a Emmenez-Moi e I´m your man a seguir a Que c'est triste Venise, colocar a palma da mão esquerda contra o vento, quando a mão estiver salpicada de mar, aspirar com força e deixar entranhar no cérebro o cheiro a sal e a algas, parar o carro em posição perpendicular ao mar, tirar os óculos de sol e colocar os outros óculos, ler uma dúzia de páginas de Saramago, recostar com as mãos entrelaçadas atrás da nuca, sorrir, meditar dez minutos notando o ar frio e salgado a entrar pelas narinas, fazer o caminho de volta com Bowie e com os tons graves no máximo, atacar então o relatório do primeiro quadrimestre.

02 maio 2018

Os não-problemas dos homens

Tomamos café quase todos os dias, às vezes vamos ao futebol juntos, de vez em quando almoçamos numa esplanada perto daqui, uma vez por outra celebramos as nossas pequenas vitórias com um gin ao fim da tarde.

(mas não fazemos ideia se o tipo gosta de sushi, se viu alguma vez um filme de Visconti, se tem uma gabardina Burberry, se foi a Cabo Verde nas últimas férias, se é intolerante ao gluten, se os filhos se dão bem uns com os outros)