26 março 2015

Bocejando

E finalmente sentamo-nos numa esplanada com vista de mar. E pedimos um café. E, em vez de o tomar de um trago, temos tempo, por uma vez, para sentir a chávena quente, notando o fio de fumo que se desprende da chávena, admirando a consistência da espuma, fechando os olhos e aspirando o odor do café, talvez imaginando os grãos ainda antes de serem torrados, sentindo a mescla de odor de maresia e café quente. E tomamos o primeiro gole de café, sentindo o sabor, apreciando a mistura de arábica e robusta, sentindo no palato o sabor forte, sentindo agora mais forte, porque mais próximo, a feliz mistura do cheiro quente do café com o ar frio marítimo. Às vezes não é má ideia apreciar as pequenas coisas. Nem sempre temos tempo.

25 março 2015

Parábola dos peixes do lago Tanganica

Estava aqui a lembrar-me, Ruben Patrick (sim, podes servir-te dessa garrafa, para ti serve bem, eu fico com o meu Yamazaky single malt, uma descoberta deste ano) que existe no lago Tanganica um peixe que muda de cor, agora quer impressionar e transforma-se num peixe colorido, brilhante, até parece que aumenta o tamanho (senta-te, não fiques em pé, rapaz), agora transforma-se num peixe cinzento, sem jeito nenhum, um peixe indiferenciado, se é que me explico, um peixe em que ninguém repara. O mesmo peixe, Ruben Patrick, falamos do mesmo peixe.

O problema, Ruben Patrick, problema para o peixe, bem entendido, é que o peixe colorido, o que dá demasiado nas vistas, é precisamente o peixe que os flamingos do lago Tanganica primeiro vêem, não importa se há flamingos no lago Tanganica (sim, é Cohiba Lanceros, acho que o mereço no fim destes dias com tantas horas, as coisas são assim mesmo, um homem tem que se mimar quando os dias tem demasiadas horas), o problema, dizia eu, é que os peixes muito coloridos ficam mais visíveis para os flamingos. E os flamingos, Ruben Patrick, adoram peixe.

22 março 2015

Tudo o que retive da Happy Conference

Os vencedores do Oscar vivem, em média, mais quatro anos do que aqueles que são apenas nomeados.

20 março 2015

O Estranho Caso do Teste aos Níveis de Charlização

Trovejava. O vento uivava, o frio entranhava-se pelas frinchas da caixilharia de alumínio daquele snack-bar infecto, um odor eterno a copos mal lavados de vinho barato dilacerava as narinas das jovens moças que, havia dias, decidiam a liderança. Um som de botas com biqueira de aço fez-se ouvir acima do ruído da trovoada. "Foda-se, caralho, puta que pariu esta merda", disparou, à laia de cumprimento, a nova entrante, enquanto pousava a Uzi em cima do balcão de fórmica. "Foi a tua chefe, outra vez?", questionaram as que já lá estavam. "Não, caralho, vim de bicicleta e chove que é uma coisa que puta que pariu". Elas assentiram, não queriam contrariar, afinal uma Uzi é uma Uzi e ela, a Uzi, estava ali à vista de todos, o melhor era não contrariar, não sugerir que mudasse de emprego, não sugerir nada, não perturbar os nervos, uma Uzi é uma Uzi, não sei se já tinha dito.
"Eu tenho muitas visitas, olhem, eu tenho muitas visitas" - ouviu-se, som abafado, vindo de parte incerta. "Outra vez ela, caralho?". "Sim, está nisto há dois dias, sempre a repetir a mesa coisa, tivemos que meter dentro do cesto da roupa suja, para abafar a lengalenga. Já lhe mostrámos o link que está no blogómetro, mas se calhar é melhor levá-la para Paços de Ferreira e fazer como fez o tipo do Goodbye Lenine à mãe".  "Foda-se, alguém que a cale".  " "Visitas, todos me visitam, olhem, tantas visitas". "Não devias ter inventado aquilo do incrementador de visualizações, só serviu para piorar a situação". "A intenção era boa, caralho. E as outras, onde estão as outras?". "Estão para ali a falar do costume, que os maridos não sei quê, que as crianças são muito lindas, a trocar receitas de culinária, o costume. Com essa três não podemos contar". "Então é connosco, caralho, a liderança decide-se entre nós, foda-se". "É verdade, estou de acordo". "Tu estás sempre de acordo, caralho. E não podes ser tu a mandar nisto, não resultas bem nas fotografias, essa cara circular, sempre pintada de preto não resulta bem". "Achas que devia tirar menos fotografias?". "Foda-se, claro que não, as fotografias são um chamariz, isso e os cães". "E então eu disse-lhe, veste a roupinha que a mãe escolheu, e ela, tão inteligente, minha rica menina, disse que não estava frio suficiente para levar calças, ela disse isso? disse, é muito adiantada para a idade, pois não é? e o meu homem vai buscá-la à escola, sempre me deixa tempo para fazer um jantar diferente, o que não se aguenta é tanto trabalho, ando estaf...". "Pum! Pum! Pum! Aiii". "Credo, não era preciso eliminá-las assim". "Foda-se estavam a irritar-me, pareciam a minha chefa". "Fizeste bem, então". "Visitas, tenho visitas". "Pum. Aiii". "Fizeste bem, fizeste bem". "Foda-se, agora nós, como é, quem manda nisto? E se fôssemos ler uns blogues, só para ter tema de conversa, depois dizíamos aqui que elas são assim e assado e sempre nos entretíamos? Que dizes, caralho?". "Está bem, então. Mas arruma a Uzi...".

19 março 2015

O Estranho Caso do Teste aos Níveis de Charlização

Parece que o Ruben Patrick tem um post quase pronto.

Só num capítulo. Sem parceria nenhuma.

17 março 2015

Mas agora a sério...

Todo o Correio da Manhã precisava de uma boa barrela, não vos parece?

(aprendi que quando termino um post com um ponto de interrogação as pessoas comentam com mais ganas)

(excepto neste caso, em que já se sabe que as pessoas estão mais atentas e farão d econta que não lhes apetece dizer nada)

16 março 2015

Isto dos blogues

Falas do caso do cão que morreu? Isso não é nada, ao pé das mulheres que morrem às mãos dos maridos, disso não falas, não é?

Falas das mulheres que morrem? E as crianças de África que morrem de fome, que insensível és tu que nem uma palavra tens para as crianças de África?

Falas das crianças de África que morrem de fome? E aqueles que morrem na Ucrânia, que além de fome morrem da guerra?

Falas da Ucrânia? Não é preciso ires tão longe, fica sabendo que aqui, bem perto de nós, onde podemos actuar, ainda um dia destes morreu um cão? Disso não falas tu.

14 março 2015

Idiossincrasia

E tu, qual é a palavra mais bonita que conheces?

13 março 2015

Pipoco ajuda a causa feminista e também se insurge contra as situações

José não sei quê Saraiva, de quem sabemos que ainda mexe a cada vez que nos dá conta da sua bizarra maneira de ver as coisas, conta-nos esta semana a incrível história das  aventuras diversas de uma artista, ou lá o que é, citando um artigo de um jornal e escarrapachando-nos a sua familiaridade com a tal artista, nada menos que ex-mulher de um amigo do filho de José não sei quê Saraiva, quase família, portanto.

A partir da movimentada vida sentimental da artista, José não sei quê Saraiva constrói todo um cenário de casas por construir, igualzinho às vidas desconstruídas por se ter uma vida amorosa efervescente, escancara-nos o caminho do bem, informando-nos que na vida raramente é possível voltar atrás, convida-nos a meditar profundamente na problemática de, nas casas como na vida, se estivermos sempre a desfazer o trabalho feito, quando damos por nós o tempo esgota-se e não há casa nenhuma.

José não sei quê Saraiva, num hino à imbecilidade, olvida o mais relevante, aquilo que é essencial nesta história, a única coisa que realmente importa: afinal qual é o contacto de Marta Leite de Castro?

Este blogue faz hoje anos

Cinco anos. Ou quatro, no princípio era uma aposta que durou um ano, depois finou-se por outro ano e cá vamos no terceiro ano da segunda vida.

Há dias em que me fica curto, há dias em que me assenta melhor, outros dias há em que me parece fora de moda, há dias em que me ajuda a passar o tempo, há dias em que me parece uma perda de tempo. Olho para trás, para o que escrevi antes, e parece-me que este blogue é um imenso e único post, escrito de maneira diferente, mas sempre o mesmo.

Tirando um ou dois episódios, têm sido dias bons, continuo a gostar da magia de poder haver quem me faz reflectir e nem sequer nos conhecemos, continuo a espantar-me com o rumo que as coisas podem levar, só porque alguém mostra um ponto de vista diferente, continua a divertir-me que o rumo seja exactamente aquele que eu lhe dou.

Já gostei menos deste blogue.

12 março 2015

Coisas que eu apostei que seriam esmiuçadas esta semana nisto dos blogues, mas afinal não. (e eu não posso estar em todas)

Zezé Camarinha faz não sei quê a Castelo Branco

O vizinho que mandou um balázio no cão do vizinho e o cão faleceu

Vamos então conversar sobre o assunto

Gasta as tuas energias a combater os homens maus. Nem todos os homens são maus.

Os homens não mudam muito. Se o tipo te agredia quando o conheceste, não o escolhas para passar uma vida ao teu lado.

Evita o folclore. Mulheres mascaradas de cães a entrar por uma barbearia dentro não é uma boa ideia. Nunca é uma boa ideia.

Os homens sabem cozinhar. E tratar de crianças. E passar roupa a ferro. Preferem ver futebol. Não lhes facilites a vida.

Uma entrevista para emprego em que o candidato tem um impedimento para meia dúzia de meses, pode correr mal. Aceita que o empregador, se está a recrutar, talvez precise de disponibilidade imediata. Um candidato com férias marcadas para a China na semana seguinte não será seleccionado. Uma mulher grávida, também não.

"É da natureza dos homens" é um conceito que não existe. Os homens fazem aquilo que tiver que ser feito. As mulheres também. Com excepções. Poucas e óbvias.

Aceita que podes não ter força para mudar um pneu. Isso não quer dizer que não o saibas fazer. Alguns homens também não têm força para mudar um pneu.

Não descanses enquanto não existir igualdade. Igualdade é quando uma mulher incompetente chefiar um homem mais competente que ela.

Usa a inteligência emocional. Há quem defenda que a das mulheres é superior à dos homens. Nota que eu não digo tal coisa.

11 março 2015

Isto somos nós a conversar, é claro...

Lá está outra vez o gajo com a mania que manda, lá em casa deve comer e calar; ele não sabe como é, não o carregou nove meses; é Dia da Mulher, onde está o meu presente?; sempre a queixar-se, se soubesse o que é parir...; ui, veste calças vermelhas...; deixa, eu faço, não queremos jantar comida queimada, pois não?; eu vi a maneira como olhaste para ela, não me mintas; ele é esquisito, nunca o vi com nenhuma mulher; eles não têm sensibilidade nenhuma; tem uma voz tão fininha, deve ser...; podias oferecer-me aquela mala, depois eu compenso-te; não me choca, até tenho amigos que são; eles são muito mais solidários uns com os outros; ui, viste como ela está tão gorda?; deve ter uma pila pequena...; ele é tão desajeitado com as arrumações...; si, vai lá jogar futebol, até me dá jeito para arrumar a casa; com aquele feitio, só se for mesmo bom na cama; mas olha que ele está tão bem na vida, não o deixes fugir; querido, podes vir aqui mudar o pneu?; e tu ficas-te?; e para que quer um homem entrar numa manicura?; este era para casar...; eu desculpo-o, aquilo foram só nervos; temos que lhes dar desconto, não há quem os ature quando o Glorioso perde; não lhe digas nada, ele pode prejudicar-te; prefiro mil vezes trabalhar com homens; não vou, não tenho a depilação feita; quero um casamento de sonho; hoje vou arrasar, estes sapatos de salto alto fazem-me sentir poderosa; eu vou conseguir mudá-lo; não posso acreditar, ela vai casar-se de branco?,...; aquilo foi da educação, a mãe não o deixava fazer nada; vai lá com o teu pai jogar à bola; fuck me bad once, shame on you, fuck me bad twice, shame on me; ui, esse é pior que as mulheres.

(baseado naquelas coisas que a Rititi escreve, que me chegou citada pela Luna, que jamais me citará)

E funciona?

 "Esquecer - disse Borges -, isso é tudo quanto se pode fazer. Quando me fazem mal, finjo que aconteceu há muito tempo e a outra pessoa qualquer.

- E funciona?


- Mais ou menos - mostrou os seus dentes amarelos -, mais para menos do que para mais."

Paul Theroux, O Velho Expresso da Patagónia

10 março 2015

Atentai nisto, vós que vos exasperais com isto dos blogues

"- A vingança não altera o que foi feito. Nem o perdão. Vingança e perdão são irrelevantes.

- Que se pode fazer, então?


- Esquecer - disse Borges -, isso é tudo quanto se pode fazer. Quando me fazem mal, finjo que aconteceu há muito tempo e a outra pessoa qualquer."


Paul Theroux, O Velho Expresso da Patagónia

09 março 2015

Adenda

Afinal não foi má escolha.

(tudo está bem quando acaba bem)