25 abril 2015

Pipoco também fala das conquistas de Abril

Quem sabia das conquistas de Abril era o velho Senhor Venceslau, que era da não sei quê Amizade União Soviética-Portugal e tinha estado em Moscovo para visitar Lenine, um Lenine embalsamado, mas Lenine. "Aquilo, menino Pipoco, é uma terra em que as crianças têm os brinquedos que querem, aquilo são ruas largas, as pessoas são felizes. E sabe por que são felizes? Porque são todos camaradas, é por isso". Eu sabia que o Senhor Venceslau era importante lá no Partido, era ele que falava no altifalante do carro do Partido, a anunciar "Grande Comício, não faltes camarada!" enquanto passava a Internacional e o hino do Partido. Todos os anos o senhor Venceslau me perguntava se eu não queria ir à Festa, o problema é que a Festa era no final do Inter-rail e isso era um problema, as finanças ainda não tinha tido tempo de recuperar e eu havia de ir à Festa só muitos anos mais tarde e era exactamente como o Senhor Venceslau me dizia que era. Um irmão do Senhor Venceslau tinha estado em Caxias, "em Caxias, menino Pipoco!" e eu não sabia porque me dizia o Senhor Venceslau que o irmão tinha estado em Caxias como se isso fosse coisa ruim, afinal o Mónaco era em Caxias e não me parecia muito mau.

O Senhor Venceslau trouxe-me Fausto e Sérgio Godinho e Janita e Vitorino e Brigada Vitor Jara (e ensinou-me que fora Victor Jara) e, isso sim, foi uma vantagem grande de Abril.

Obrigado, Camarada. Onde quer que esteja.

24 abril 2015

Grandes mistérios da blogosfera: Capítulo Três, de como um bom mexerico nos faz subir no blogómetro

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Parte final de "Tabacaria" de Álvaro de Campos

Grandes mistérios da blogosfera: Capítulo Dois, as 'migas blogosféricas

Hoje, ao ler este post de um blogue que me alumia os dias, tomei conhecimento da existência do maravilhoso mundo da amizade blogosférica. Num mundo tão malvado, com tanta inveja e perigos a espreitar a cada esquina, é maravilhoso que exista quem se dedique a trabalhar esta realidade paralela, quase me comovi com este sinal de esperança no futuro da humanidade, este raio de luz que trespassa a penumbra. A amizade blogosférica é a mais pura das amizades, o séquito de incondicionais apresenta armas sempre que é preciso estar lá para apoiar, dar carinho, dedicar poemas no dia do aniversário, ou pura e simplesmente dizer que está ali, na caixa de comentários, a dar força no dia em que os filhos se constipam, o tio-avô foi desta para melhor ou nos dias ruins de trabalho.

Às vezes a 'miga blogosférica pranta comentários simpáticos no blogue que fez maldades à bloguer 'miga e está o caldo entornado, isto nas amizades blogosféricas tem que se escolher de que lado estamos, ninguém perdoa uma 'miga imprudente ou demasiado ansiosa para deixar o primeiro comentário, as incondicionais são assim, 'migas para a vida, uma por todas, e tal. Ser 'miga blogosférica não custa nada, é quase como ser 'miga do Cocas, o Sapo ou da Josefina da novela do noite, é certo que é meio tonto ser 'miga de quem nunca vimos, com quem nunca fizemos o inter-rail, com quem nunca fomos aos pares ao WC do Lux, mas ser 'miga da "Flor de Luz" (com um nome tão bonito só pode ser boa pessoa), da "Devaneios de Solidão" (pobrezinha, tem sofrido tanto...) ou da "Boquinha de Fada" (vamos ajudá-la a sair do pecado) é uma experiência linda e que nos faz acreditar que, todas juntas, mão na mão, sorriso na boca, podemos deixar aos nossos filhos um mundo melhor.

23 abril 2015

O Alfa e o Omega

Se nunca esquecemos os amores primeiros, os Cinco e a torre do sábio é o livro da minha vida, o primeiro que me lembro de ter lido. E se hoje me fascinam os faróis e as ilhas, jangadas e circos nómadas, se sei distinguir entre estalactites e estalagmites, se gosto de cães e da costa da Cornualha e de Gales e de grutas e mar bravo, devo-o aos livros dos Cinco. 

Ulisses? Pois...

Grandes mistérios da blogosfera: Capítulo Um, os Anónimos Mauzões

Dos anónimos bonzinhos, essas criaturas de Deus que optaram por não ter blogue próprio mas que, ainda assim, não prescindem de não calar o que lhes vai na alma, sejam eles comentadores espontâneos que se comovem com um texto que lhes toca fundo ou comentadores de todos os dias, que gostam de dizer coisas variadas, desses anónimos trataremos depois.

Do que vos quero falar é dos anónimos mauzões, desses seres sagrados que, no momento de fazer logout, são abençoados por uma força que lhes chega do além e que lhes dá o supremo poder e coragem de dizer coisas que não diriam se se mantivessem ligados com o nome que usam lá no blogue das poesias ou das receitas culinárias ou, na loucura, dos blogues de mamã.

O anónimo mauzão nunca está contente nem feliz, parece sempre comentar a partir do seu velho Fiat Uno de oitenta e sete, mas que passou na inspecção, atenção, emblema do Benfas pendurado no retrovisor, parado na fila do Icêdezanove, autocolante "este carro é velho mas vai à tua frente" colado na traseira, preocupado por ir chegar tarde ao seu emprego de fiscal da EMEL, está cada vez mais difícil fazer o percurso Massamá Norte - Campo Grande num tempo razoável, o chefe de turno já a avisou, grande cabrão, sempre a implicar.

E desabafa. E desabafando fica melhor pessoa, sorri a pensar no impacto do seu comentário no humor dono do blogue e volta a sorrir, embevecido com o tal poder do logout, fecha os olhos e imagina o dono do blogue a ler o ser comentário e a ter uma apoplexia, a incomodar-se, a levar em conta o comentário do anónimo mauzão, e, de olhos fechados não vê que o trânsito avançou dez metros e o tipo do carro atrás buzinou e o anónimo mauzão assusta-se e tira o pé da embraiagem demasiado depressa e dá um toque no carro da frente e é uma maçada para todos, o atraso, o chefe, a vida.

O anónimo mauzão não sabe, nem sou eu que o vou tirar da ilusão, que o dono do blogue o vê com simpatia, com piedade. O dono do blogue conhece bem a sua missão benfazeja, sabe bem que desempenha uma função de escuta atenta, conhece bem o papel que desempenha na vida do anónimo mauzão. O dono do blogue, sorrindo complacente, só lê as duas primeiras palavras e apaga, passando ao próximo comentário, quase simpatizando com o anónimo mauzão, parado no Icêdazanove, colete reflector vestido, a ser destratado pelo segurança de discoteca, dono do Seat Ibiza em quem o anónimo mauzão acabou de bater. O dono do blogue, piedoso, sabe que desempenha uma papel regulador na vida do anónimo mauzão e sente-se feliz com isso. Mas não é necessário que o anónimo mauzão conheça este processo, pois não?

A seguir: O incrível mundo das amigas dos blogues

22 abril 2015

Os problemas das mulheres

Lidar mal com demasiado tempo livre.

21 abril 2015

Aos meus amigos do Fócuporto

Entendo perfeitamente...

Não sei precisar o exacto momento em que isto começou a descambar

Já ninguém atende a maioria dos números de telefone de que me lembro, já ninguém usa o Lotus 123, o Jordão já não joga à bola, a Seagull já não existe, Saramago nunca mais escreveu, o concerto de Alvalade do Bowie já foi há vinte e cinco anos, o 205 GTi já não me parece aquela máquina, já inventaram melhor que o Jet Set Willy, ter gostado de Paul Auster parece quase impossível, ser amigo da Guida Gorda para entrar no Frágil já não é tudo o que desejo, o comboio já não é  a melhor forma de chegar a Paris.

A Carrie já fez cinquenta anos.

19 abril 2015

Parábola do gin a caminho do Lago Tanganica

Naquele tempo, caminhava Salgadás, o profeta, sobre a cálidas areias do deserto de Nimedones, rumando a Tanganica, a cidade prometida, quando, morto de sede, entrou num estabelecimento desses que havia naqueles tempos e que serviam um gin que era apenas um gin e nada mais que um bom e honesto gin, e, fazendo o sinal que em todo o lado significa que se deseja ser servido, a mulher por detrás do balcão, uma bela mulher, dessas que podem ser aquilo que quiserem, excepto, talvez, estar por detrás de um balcão de um estabelecimento que serve gin, e a bela mulher, fazendo aquele trejeito de passar o polegar pelo queixo com ar indecifrável, igualzinho ao que fazia Nikita quando Elton John conduzindo um Rolls Royce encarnado lhe entregava o passaporte na fronteira e, num desafio à delicadeza das circunstâncias, cantava, precisamente, "Nikita", mediu Salgadás de alto a baixo e acabou por decidir que Salgadás era digno de lhe ser servida uma bebida, não sem antes questionar Salgadás se não se teriam conhecido noutro tempo e noutro local, ao que Salgadás, retomando sem demora o árduo caminho para Tanganica, esclareceu que não, sabendo que afinal talvez, quase de certeza que sim.

Miúdas, chegai-vos à beira do Tio Pipoco, que, a seu tempo, vos colocará sobre as suas pernas e vos dará umas boas palmadas nesses traseiros, mas antes deseja partilhar convosco palavras sábias e de valor, antes que chegue segunda feira e a coisa fique feia

O senhor que inventou isto dos blogues, o saudoso John Blog, que, com mãos laboriosas, criou esta obra notável, moldando, acrescentando funcionalidades, aqui uma possibilidade de moderação de comentários, ali uma alternativa ao modelo "simple", notando as imperfeições e, finalmente, entregando-nos uma coisa em condições, onde podemos deixar poemas ou retratos cá das nossas coisas ou as nossas histórias, mais ou menos buriladas, também nós sabemos depurar e deixar escrito só o que nos interessa, John Blog, dizia eu, ficaria triste e enfadado se soubesse que uso estamos a dar a isto dos blogues, ele que se preocupou em criar essa funcionalidade que é passar ao blogue seguinte de cada vez que nos aborrecemos com o que lemos, dando-nos a possibilidade de ficarmos apenas com os que gostamos e deixar na profundeza do esquecimento os blogues maus, os de fraca figura, os que nos fazem urticária, deixando-nos a possibilidade de ficar apenas com os bons, aqueles em quem nos revemos, os que nos dão prazer e são uma ode à obra de John Blog.

As pessoas, todas as pessoas, são boas, tanto Príncipezinho citado e ainda há quem não saiba estas coisas simples, É claro que as pessoas não são completamente boas, e isso, não parecendo, é o sal da vida, dá-nos a possibilidade de notar o que há de melhor e relevar essa parte. E eu, que sei de pessoas, sei que, relevando as coisas boas, notando-as, as pessoas acabam por dominar melhor os seus demónios, trabalhá-los, acabando por se tornar ainda melhores pessoas e, no fim do dia, gostar mais da parte boa e quase esquecendo que a pior parte existe. Por outro lado, se não notarmos mais que a parte má das pessoas, soltam-se os tais demónios, descontrolados e quase nunca é bom de ver, para além de ser uma trabalheira convencer os demónios a voltar outra vez lá para o sítio deles, aquietá-los, dizer-lhes que não há necessidade, que está tudo bem outra vez.

Por isso, miúdas, em vos aborrecendo a parte má das pessoas dos blogues, o melhor é informá-las, tranquilamente, em privado, não assarapantando toda a gente, que está cá para se divertir, para aprender com quem sabe mais, para espairecer, às pessoas pouco importam as pequenas quezílias que, sendo enormes, são enormes só para quem são, não há nada que não se resolva com uma boa conversa, caramba, se sabem tudo umas sobre as outras, é ir ao encontro, olhos nos olhos, desabafar, dar dois berros, sem toda a gente a ver e, enfim, talvez acabar a tomar um gin e a perceber o óbvio, que a maior parte de nós é boa, não sei se já tinha dito isto.

(ah, o que eu resisti a um "Os problemas das mulheres: não saber gerir crises", ainda bem que consegui resistir)

16 abril 2015

Em verdade te digo, Ruben Patrick

Isso de as mãos se tocarem por acaso nunca será por acaso, nada acontece por acaso, elas merecem saber que acontece porque era mesmo para acontecer.

Caros pilotos da TAP, daqui fala o Cliente

Enquanto se vão entretendo, vocês e a vossa Administração, a medir quem a tem maior, eu começo a aborrecer-me. Porque eu sou o Cliente, o que verdadeiramente manda, o verdadeiro gorila das bolas azuis. E eu, o Cliente, não sei se já tinha dito que sou o Cliente, enquanto vocês andam entretidos lá com as vossas vidas, vou descobrindo um novo mundo, vou percebendo que as low-cost não são assim tão más, começamos pelas viagens de uma hora e percebemos que o que se poupa dá para uma entrada no Scala, nas galerias, é certo, mas ainda assim sempre é o Scala. E eu, o Cliente, tenho tendência a habituar-me, a trocar os jornais e a sandes que me servem a bordo pela ideia de ir ao Scala com a diferença do custo do bilhete, depois noto que as low-cost fazem tudo para me seduzir, até há tripulação a falar português, afinal eu viajo sempre, mas sempre, com uma mala que posso levar na cabine, uma pessoa acaba por se habituar a ver o lixo ser recolhido pelas miúdas da tripulação, desde que o voo saia a horas.

A vida já não é como era, meus caros. O mundo mudou, que o digam os despachantes de alfândega, os ferradores, os polícias sinaleiros, os ardinas. O vosso mundo também mudou, há aquela coisa desagradável que é a concorrência e eu, o Cliente, tendo a aborrecer-me com as vossas guerras e já não me conseguem vender tão bem como vendiam essa coisa cada que é a "companhia de bandeira".

Talvez o vosso destino seja a Emirates. Diz que faz muito calor no Qatar, vejam lá se é mesmo isso que vos convém.

15 abril 2015

Em lendo blogues

Don Xilre, que escreve, sem sobra de dúvida, o melhor (não o mais bonito nem o mais fácil nem o mais consensual, apenas o melhor) blogue de homem que por cá temos, com a sua maneira gentil de arrumar as palavras na perfeição, resolve-me de uma penada uma quantidade de coisas cá minhas, com este belíssimo post, em que nos conta o quão mais divertido é trocarmos de óculos de ver o mundo e notar o pormenor que não havíamos notado com a nossa forma habitual de olhar.

A melhor parte é que, mais ricos, nada nos impede de continuar a ver o mundo da velha perspectiva de sempre. Se ainda nos apetecer, está claro.

(A caixa de comentários, com uma única excepção, é das caixas de comentários mais bonitas que já vi nestes setenta e oito anos que levo disto dos blogues)

Breve teoria disto dos blogues

As pessoas, em pressentindo um suave odor a escaramuça nisto dos blogues, interessam-se mais.

14 abril 2015

Parábola da alegoria

Entre, Benevides, entre, então? que temos? homem tire-me esse semblante tão sério, parece que temos morte de homem, o caso é grave, Senhor, então? é outra vez aquela situação, Senhor, a moça do mau cabelo? precisamente, Senhor, mas então não nos tínhamos já desembaraçado da moça? eu acreditava que sim, Senhor, entendo, o caso é mais melindroso do que eu pensava, mande chamar o Ruben, tomo a liberdade de sugerir que o menino Ruben Patrick não seja indicado para tratar desta situação, Senhor, creio que talvez devesse ser o Senhor a ter a maçada, Senhor, caramba, Benevides, a situação é assim tão dramática? o meu tempo está contado, não me posso perder com minudências, tem a certeza de o Ruben não dar conta do recado?, infelizmente creio ser do Seu interesse ocupar-se pessoalmente desta problemática, Senhor, a moça é ladina e está a inquietar meio mundo, não é como as demais, esta frequenta Alvalade, Senhor, sem desprimor para o menino Ruben Patrick, Senhor, bem, bem, muito me conta, e diz-me que esta moça é de melhor estirpe, Benevides?, estou inclinado a dizer que sim, Senhor, ao fim de tantos anos, Benevides? ao fim de tantos anos, Senhor, bem, bem, estou quase impressionado, traga-me cá a moça, Benevides, estou verdadeiramente interessado nessa novidade de haver quem me desperte algum interesse, ao fim de tantos anos, Senhor, ao fim de tantos anos, Benevides.

O leitor decide

Chamo o Tio Pipoco que está ali a assinar uns papéis e a caminho de uma conferência com o outro lado do mundo e asseguro-lhe que a miúda se aguenta como uma valente se ele resolver divertir-se um pedaço ou dou-lhe conta de que estatisticamente a miúda sai disto muito magoada e é uma maçada para todos, que é melhor dizer em que página de Ulisses vai?

13 abril 2015

Parábola do Lago Tanganica e dos caixotes de lixo

(nada, nada, estava a brincar...)

Porque leio blogues?

Porque, em lendo, sei que os cãezinhos lindos são a nova temperatura que faz em Leiden, que isso da ironia é muito bonito desde que seja com os outros, que o açúcar parece que não faz nada bem, que a melhor forma de se perceber que as diferenças de género existem é aquilo do atelier das papas, que os blogues da felicidade me aborrecem ao ponto de ver virtude na infelicidade, que as criancinhas são pau para toda a obra, que não se deseja a ninguém ter que escrever coisas boas sobre o Sana, que somos todos Charlie mas é o caralho.

12 abril 2015

Pipoco foi às compras

Branca, sem padrões nem texturas, sem bolso, sem slim fit, sem marca visível, com colarinho em condições, cem por cento algodão, sem botões quadrados, eventualmente para usar botões de punho. Eventualmente.

Caramba, o Homem já foi à lua, não deve ser difícil inventar uma camisa assim...

Uma coisa nova por dia

Ser transportado no banco traseiro do meu carro.