17 julho 2018

Dando provimento a uns rascunhos que tenho para aqui (I de III)

Aparecesse um génio, desses que têm uma lâmpada mágica, e dissesse-me o génio que, em vez dos clássicos três desejos, me concedia a graça de ser personagem de um livro durante um mês e eu havia de escolher ser Zorbas, o gato grande, preto, gordo e de olhos amarelos que ensina uma gaivota a voar, uma bela alternativa ao Principezinho, fiquem sabendo, havia de demorar o meu mês Zorbático a beber Hoegaarden no porto de Hamburgo, talvez me lembrasse de Aznavour e dos marinheiros que falam de mulheres e de amor, havia de mostrar que não há impossíveis quando se trata de cumprir uma promessa feita a um desconhecido, e sabem os céus que eu tenho a minha dose se promessas impossíveis, havia de explicar à pequena Ditosa as artes do primeiro voo, uma especialidade minha isso de estar sempre a aprender a voar, mais que o Júlio dos "Famosos Cinco" ou o Gordo da colecção "Mistério", mais que Florentino Ariza, o homem capaz de saber esperar pelo amor original, mais que João da Ega ou o Capitão Nemo, Zorbas, o gato grande, preto, gordo e de olhos amarelos seria a minha escolha perfeita.

(respondendo a um desafio da Cláudia Filipa, ainda era Março)

16 julho 2018

A vida, tal e qual ela é

Precisasse eu de provas de que os homens mudam e era ver-me ontem por volta das quatro da tarde na Comporta, alheio à final, sem uma cerveja na mão, sem uma algazarra de amigos à volta, sem querer saber de uma final do campeonato do mundo, eu numa rotina que consistia em trinta páginas de leitura, quinze minutos de mergulho, dez minutos de sol, em loop, o mundo a vibrar com a fotogenia da presidente da Croácia com o penalty inventado, com o frango do guarda-redes, eu no meu mundo, até o telemóvel ficou em casa, se posso ignorar uma final do campeonato do mundo, então posso tudo, e afinal uma final do campeonato do mundo não é nada que não se possa ver num condensado de cinco minutos no telejornal da uma da manhã.

13 julho 2018

Sobre aquilo da figura do Juncker, ontem

O meu bisavô tinha ciática e nunca lhe deu para ter aquela cara rosadinha e alegre, nem para beijar todos os homens que lhe apareciam pela frente.

(aquilo era uma puta de uma bebedeira e não há mal nenhum nisso)

11 julho 2018

À atenção das Capazes (III)

Quando filmam o público dos jogos do Mundial, o realizador só escolhe miúdas. E só as giras.

À atenção das capazes (XVII)

Não havia uma única miúda dentro da gruta da Tailândia.

10 julho 2018

Agora que os meninos das grutas estão salvos...

...já se pode perguntar se sempre é o treinador, que também é monge budista, que partilha a sua comida com as crianças e as ajuda com meditação, que será o último a sair da gruta, que é um tipo impecável e bom amigo, que perdeu toda a família aos onze anos, já se pode perguntar, dizia eu, se é este rapaz quem vai pagar a conta do salvamento?

Mulheres sem sobrancelhas

Nunca conseguirei explicar convenientemente as minhas reservas mentais com mulheres sem sobrancelhas, é uma coisa epidérmica, pior que as mulheres com unhas pretas, muito pior que mulheres que cheiram a gel de banho de pêssego, infinitamente mais devastador que o efeito que as mulheres que começam frase com "é assim" provocam sobre a minha delicada sensibilidade, não sei precisar o momento zero desta falta de empatia, ainda ontem, entre a Terceira e São Miguel, num desses aviões pequenos, uma mulher com tudo para me proporcionar uma boa meia-hora de cavaqueira gentil, o habitual nestas situações, ele eram os óculos de massa preta, o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, a camisa branca com dois botões cimeiros desabotoados, o documento aberto no portátil a dizer "notas do Conselho de Administração", o olhar decidido, o ter escolhido um lugar ao meu lado, o sorriso aberto, a pergunta "está a gostar de Rentes de Carvalho?", enfim, todo um conjunto vencedor para os meus padrões de homem simples, mas, lá está, calhou ter vislumbrado a ausência de sobrancelhas e logo as minhas defesas subiram a níveis máximos, colocando-me em estado de alerta e respondendo à gentil senhora com monossílabos, tendo mesmo que simular uma curta sessão de sono, perfeitamente justificada pelo horário da sete de manhã, a que se somava o voo das seis e quarenta do dia anterior, para além da noite de sonhos agitados, destaco o pesadelo em que a Bélgica não era campeã do mundo, enfim, tenho mesmo que ver isto, isto e não só.

04 julho 2018

Hoje sonhei com Lamborghinis roxos

O homem que escreve material sagrado de um quilate como: "Prévot chora. Dou-lhe uma palmada no ombro. Digo-lhe, para o consolar: se estamos tramados, estamos tramados. E ele responde-me: se pensa que é por mim que estou a chorar..." é o mesmo que escreve menoridades como “O essencial é invisível aos olhos, e só se vê bem com o coração.”

01 julho 2018

Teremos sempre memória

Às vezes, quase sempre, o universo encarrega-se de nos mostrar que não será coisa má congratularmo-nos com a realidade que temos, que aquilo que nos parece atroz, insuportável, afinal pode sempre piorar, fazer-nos ter uma saudade imensa dos tempos passados, que no fim de contas não seriam assim tão miseráveis.

Depois de Bruno e Jesus temos Cintra e Peseiro.

30 junho 2018

Uma coisa nova por dia

Desejar do fundo do coração que Portugal ganhe mas apostar dois ordenados mínimos do Azerbaijão em como Portugal perde.

24 junho 2018

Tem cuidado com aquilo que desejas

Sousa Cintra é o presidente da SAD...

Foi chato

No início o Bruno era só como aquele tio desbocado que todas as famílias têm, uma mistura entre inconveniente e maçador, desses que dizem demasiadas palavras para explicar uma não-coisa, nós tolerávamos o Bruno, apesar de nos ter trazido Jesus, apesar daquele ar de quem levou muitos carolos na cabeça quando andava na primária, apesar daquele jeito enfatuado com que tirava e colocava os óculos, apesar dos saltinhos desengonçados com os jogadores suplentes sempre que o Sporting marcava um golo, o Bruno lá nos dava um par de alegrias, o hóquei em patins numa semana, o voleibol na outra, enfim, não seriam coisas com que pudéssemos aborrecer à segunda feira de manhã os amigos com menos gosto que nós na hora de escolher a equipa do coração, mas sempre nos divertíamos com as pequenas bizarrias do Bruno, sempre podíamos escalpelizar os problemas de carácter, sempre nos fornecia tema para umas gargalhadas.

Às vezes os tais tios desbocados que todas as famílias têm, enchem-se demasiado de si, são pequenos nadas, um dia rimo-nos por delicadeza de uma anedota de que já conhecemos o final e eles crêem dominar a arte do humor, acreditam que lhes está a passar ao lado uma carreira, noutro dia, para abreviar uma conversa, concordamos com eles num ponto menor, desses que tanto podia ser assim como de outra maneira qualquer, e logo eles se imaginam influenciadores de opinião, e um dia, quando menos esperamos, o tal tio desbocado que todas as famílias têm, toma conta da conversa na sala e damos por nós a discutir capas do correio da manhã, diz-nos como devemos beber o nosso gin e damos por nós a beber Gordon's com má água tónica e vegetais a boiar no copo, toma conta da nossa cozinha e damos por nós a ter à nossa frente sardinhas com batatas fritas.

E um dia, depois de o avisarmos um par de vezes, aborrecemo-nos de vez com o tal tio desbocado que todas as famílias têm, pegamos nele por um braço, delicadamente e levamo-lo lá para fora, para as traseiras, fechando a porta à chave, assegurando-nos que não nos aborreça mais e ele, o tio desbocado que todas as famílias têm, há-de dizer uns palavrões, há-de recordar-nos o que fez por nós, há-de ameaçar-nos com uns amigos muito grandes que ele conhece.

Mas nós já não o ouviremos.

13 junho 2018

Do Sul e Eu e Madame Pardal (III)

Enquanto Don Gigi trata de mim como só os maiores sabem tratar, propondo-me iguarias que, de tão simples, mais requintadas não poderiam ser, enquanto entremeio Dickens com Saint-Exupéry, enquanto me entretenho com empregados de mesa demasiado palavrosos, ontem um chegou ao ponto de me anunciar que tem muito boas críticas no Facebook, desesperando quando lhe comuniquei que tão conhecia nada disso do tal Facebook, enquanto corro à hora do nascer do sol até ao farol, penso em Madame Pardal, terá notado as sementes que, displicente, entornei nas imediações do ninho? terá notado a área de segurança que criei para que Cão Grande não se tentasse com um aperitivo demasiado fácil? terá já educado as Pequenas Crias para se absterem de pios obscenamente matutinos?

11 junho 2018

Do sul (II)


Do Sul (I)

À quinta refeição no Sul, quer-me parecer que os empregados de mesa receberam formação durante todo o inverno sobre a temática de dizer muitas palavras aos Clientes durante as refeições.

Está um tempinho de merda.

O Sul parece um imenso centro geriátrico. 

O restaurante da foz do Guadiana não tinha fila para jantar no exterior. Meninos.  

A água está não fria que dá para despachar um livro por dia. Estou a ficar sem munições.


07 junho 2018

Eu e Madame Pardal (II)

Combinei comigo próprio que não fotografaria o ninho onde espreitam os cinco bicos sempre ansiosos por comida, talvez Pequenos Pardais nasçam já adolescentes, meteu-se-me na ideia que Pequenos Pardais eram capazes de se assustar com o flash, isto apesar de ainda não abrirem os olhos, ainda assim é melhor não arriscar, que isto nunca se sabe das idiossincrasias de Pequenos Pardais.

Descobri um "canto morto" que me permite observar Madame e Monsieur Pardal na sua rotina de ponte aérea de transporte de víveres, sem ser visto, isto apesar de me parecer que Madame Pardal me pressente para além do vidro duplo e da camuflagem.

Cão Grande começa a mostrar-se demasiado interessado na janela do meu quarto, chegando mesmo a abandonar a sua bola de ténis favorita e até o ramo de sobreiro com cortiça roída. Desejo sinceramente que Madame Pardal ensine Pequenos Pardais a voar em condições à primeira tentativa, apostaria que Cão Grande estará atento a voos titubeantes.

06 junho 2018

Eu e Madame Pardal (I)

Madame Pardal, pousada na maçaneta da minha janela com meia minhoca a pender-lhe do bico, olha-me nos olhos, a cabeça meio inclinada, hesitando se entra ou não no minúsculo ninho onde cinco bicos se abrem e reclamam pela demora do almoço. Eu não desvio o olhar e mantenho-me imóvel, quero que Madame Pardal saiba que existe um preço para eu não poder fechar a portada do meu quarto virado a Nascente, e esse preço, o de eu acordar com a luz das seis e um quarto da manhã, é Madame Pardal confiar em mim. Monsieur Pardal aproxima-se e mantém-se parado no ar com um insecto dependurado no bico, agitando as asas, não há lugar para dois na maçaneta da minha janela, exaspera-se e acaba por entrar no ninho, desprezando o potencial perigo que eu represento, imóvel, do outro lado da janela. Monsieur Pardal apazigua as crias e volta a sair mas Madame Pardal, mais céptica, continua a olhar-me nos olhos, a cabeça inclinada, estudando-me, avaliando o risco, fazendo-me sentir a mais, um intruso nesse momento sagrado que é alimentar as crias. Monsieur  Pardal volta uma segunda vez, agora ignorando-me a mim e a Madame Pardal, entrando directamente no ninho, despachando a temática da alimentação das crias, não se demorando mais que um par de segundos. Afasto-me, saindo do campo de visão de Madame Pardal que, finalmente, sobranceira e segura de si mesma, se aproxima do ninho e provoca a algazarra das crias.

Podemos dizer que Madame Pardal ganhou esta batalha.

03 junho 2018

Apetecer-me chegar a casa

Primeiro dei conta que, de uma sexta-feira para um sábado, nasceu um ninho na minha janela, aconchegado entre a portada semiaberta e o vidro. Primeiro um ovo, depois outro, finalmente cinco ovos. A pequena ave e eu fizemos um acordo tácito, eu não a aborreceria demasiado com a minha curiosidade e não voltaria a fechar a portada até ao Outono (valerá  bem a pena acordar com a claridade do sol no meu quarto virado a nascente), ela faria o que tinha que ser feito.

Nasceram esta noite.