06 junho 2018

Eu e Madame Pardal (I)

Madame Pardal, pousada na maçaneta da minha janela com meia minhoca a pender-lhe do bico, olha-me nos olhos, a cabeça meio inclinada, hesitando se entra ou não no minúsculo ninho onde cinco bicos se abrem e reclamam pela demora do almoço. Eu não desvio o olhar e mantenho-me imóvel, quero que Madame Pardal saiba que existe um preço para eu não poder fechar a portada do meu quarto virado a Nascente, e esse preço, o de eu acordar com a luz das seis e um quarto da manhã, é Madame Pardal confiar em mim. Monsieur Pardal aproxima-se e mantém-se parado no ar com um insecto dependurado no bico, agitando as asas, não há lugar para dois na maçaneta da minha janela, exaspera-se e acaba por entrar no ninho, desprezando o potencial perigo que eu represento, imóvel, do outro lado da janela. Monsieur Pardal apazigua as crias e volta a sair mas Madame Pardal, mais céptica, continua a olhar-me nos olhos, a cabeça inclinada, estudando-me, avaliando o risco, fazendo-me sentir a mais, um intruso nesse momento sagrado que é alimentar as crias. Monsieur  Pardal volta uma segunda vez, agora ignorando-me a mim e a Madame Pardal, entrando directamente no ninho, despachando a temática da alimentação das crias, não se demorando mais que um par de segundos. Afasto-me, saindo do campo de visão de Madame Pardal que, finalmente, sobranceira e segura de si mesma, se aproxima do ninho e provoca a algazarra das crias.

Podemos dizer que Madame Pardal ganhou esta batalha.

13 comentários:

  1. Ah, mas quem ganha somos nós os privilegiados leitores de tão enternecedora série de posts! (estou quase quase a invejá-lo, bolas, estou estou)

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  2. Anónimo6.6.18

    cuidado com as "espreitadelas", eles podem abandonar o ninho, quando se sentem ameaçados.
    vw

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  3. Cláudia Filipa6.6.18

    É mesmo Susana, mas que delicia de post, começa logo pelo título. Este casal Pardal merece uma condecoração pela escolha do sítio para fazer o ninho.

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  4. Que post tão bonitinho. Uma pessoa até fica logo mais bem disposta.

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    1. Prudência, Rainha do Azul. S. Pipoco mascara agora os seus sermões à Mulher Serpente com rouparia alegórica.

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  5. É um sortudo, tem vizinhos muito especiais.

    Boa tarde, Sô Pipoco

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  6. aqui os pardais só comem aveia e não ficam parados no ar. serão pardais?

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  7. O que eu vou gostar de seguir esta história da vida real.
    Oh, se vou...faz mesmo o meu género!
    Fique atento, de câmara fotográfica pronta a filmar o primeiro voo dos seus pardalitos. Vai ser coisa de muito valor, para ver e rever, futuramente, nos serões de família.

    Já escolheu os leitores que gostaria de ter para apadrinhar os seus protegidos? Posso ser a madrinha de um deles, posso? Até já escolhi o nome e tudo. Ou melhor, como alternativa, que tal fazer um post de quadras alusivas às avezinhas e Dom Pipoco deixa a difícil tarefa de escolher as cinco mais originais, a cargo das leitoras mais chegadas ao blog. (Lady Kina- Flor- Cuca, a Pirata - Palmier Encoberto - Ana)
    Já viu a subida de audiências que isso iria originar?
    Pense nisso, com carinho.

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    1. Então, cara M.A.?!
      Um passarinho é sempre uma criatura livre do jugo de um nome. Um passarinho é todos os passarinhos.

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    2. Mas...e as lontras Amália e Eusébio?? Ficaram sob o jugo de um nome? Um nome não aprisiona nenhum ser vivo, caro Onónimo. Aprisiona?

      Gostava tanto de ser madrinha de um passarinho...

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  8. Alegoria óbvia de Os Eternos problemas das Mulheres, pérfidas e insidiosas criaturas...

    Bem, se Madame não piar muito podemos esperar uma bela amizade.

    Se piar, ofereço-lhe, amigo de meu amigo como sou, a custódia de duas gatas selvagens e seus sete pequenos tigres, que tanto gostam de brincar com passarinhos, na boquinha, com as garrinhas, até os pobres passarinhos, de tanta alegria e fadiga, se quedarem imóveis no relvado.
    Não. Não estou a falar do SCP-BC. Caraças...

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  9. Anónimo7.6.18

    Esta do ninho... Caramba, agora o que faço com a consideração que ganhei por sim?!

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  10. Deveras onónimo?
    Isso faz-me parecer quase inocente. É mau para o meu negócio!

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