29 maio 2018

Eutanásia

Mas afinal qual é a dificuldade de legislar no sentido de, não me apetecendo transformar-me num vegetal ou não me apetecendo sofrimento desmesurado, alguém se apiedar da minha condição e, a meu pedido, desligar a máquina ou fornecer-me uma dose extra de morfina, concedendo-me uma réstia de humanidade?

14 comentários:

  1. Também não percebo que dificuldade é essa.

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  2. Anónimo29.5.18

    É o medo meu caro. A morte assusta mesmo os mais arrojados.
    sc

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  3. Anónimo29.5.18

    eu concordo. sempre achei a eutanásia um acto de amor. mas tem de ser bem legislada. não sei se os nossos políticos são competentes para isso (tenho pena de dizer isto),
    vw

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  4. Anónimo29.5.18

    a dificuldade é dos que misturam política com religião, dos que empatam tudo e não dão a cara por nada, com um vestido preto nunca me comprometo.

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  5. A dificuldade é definir o que é o sofrimento desmesurado; quem é que o atesta; se a sua vontade é livre ou está lélé e quem é que a atesta.
    Essas, quanto a mim, são as únicas questões que importa verdadeiramente discutir. Mas este povo gosta tanto do conceito abstrato do valor da vida que parece pouco preocupado com o facto de não a deixarem dispor dela.

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  6. Cláudia Filipa29.5.18

    Hoje, se fosse deputada, teria votado a favor. Sei que os projectos de lei que têm estado em discussão salvaguardam as questões consideradas mais preocupantes nesta matéria, mas também todos sabemos que todas as leis podem ser contornadas desde que exista gente a querer contorná-las, por isso deixo-lhe aqui quais os argumentos do contra que me deixam a pensar, não os ideológicos, filosóficos, ou religiosos, mas estes:

    - Receio de abusos, da possibilidade de poder induzir-se a, nunca se sabe de que tipo é a parcela de humanidade que faz parte da vida do doente;

    - Receio da transformação "do direito, em circunstâncias limite, a ser ajudado a morrer, ou da não continuação da vida em condições consideradas indignas e de enorme sofrimento para o próprio, estando o próprio totalmente capaz de decidir" num negócio chorudo ao qual se associaria a imaginação fértil que saberia contornar a lei tendo em vista a obtenção de lucro;

    - A confusão entre "direito a ser ajudado a morrer estando reunidos determinados pressupostos" e um eventual desinvestimento em cuidados paliativos, partindo do princípio de que, se o doente tivesse as melhores condições possíveis no que toca a ser apoiado no seu sofrimento, estando reunidas todas as potencialidades da medicina no
    sentido de atenuar esse sofrimento, o doente não escolheria a morte. Portanto, o receio de que a possibilidade de providenciar a morte assistida, pudesse tornar-se numa espécie de "facilitismo", que iria aniquilando a vertente da medicina que visa "o acompanhamento do sofrimento, em situações sem qualquer esperança de cura, com o máximo de dignidade".

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  7. Je suis Capitã Cuca.

    Com uma achega: as pessoas tendem a dissertar sobre a eutanásia partindo do pressuposto do que faria elas, esquecendo que o ponto é o que querem os outros para si e que essa liberdade não lhes pode ser sonegada.

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  8. Ora, ora. Bem sabemos qual é a dificuldade.

    É a mesma que empesta todas as decisões provenientes daquele circo: o interesse corporativo, o pensamento atávico e ignorante, o fundamentalismo religioso, a vontade de contrariar o adversário político, enfim, o acérvulo mesquinho de gente pequenina e sicofanta que pensa dever discutir a moralidade do acto, e não meramente legislar a respeito do formalismo que lhe é devido.

    Nisto, como em tudo o resto, parecem tolos no meio da ponte.

    E estão para ficar, sob patrocínio de um pregador dominical, que se julga ora cardeal da república ora presidente do conselho, e de um alegre bufarinheiro da pátria, estes como quase todos os seus antecessores.

    Tirando isto, está tudo bem.

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  9. ... a propósito,

    nós, velhos engenheiros, pragmáticos como somos, devemos ter sempre uma caixinha de alprazolam à mão para quando assomarem as primeiras tremuras.

    Aparentemente os suicidas não entram no Paraíso. Mas, como o Papa já alertou, é provável que o Inferno não exista - pelo menos enquanto disco idealizada a oscilar eternamente entre o piano bar e a rave.

    Resta-nos Lado Nenhum ou Terras de Lupanar. Nem se coloca a hipótese de escolha.

    Penso que muita gente se deitará a dormir e acordará morta e perplexa com a cercania.

    É um Mundo fodido.

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    1. Caro Pipoco, caso o permita e o comentário "entre", colo aqui post de blogue alheio, com a devida vénia ao autor pelo excelente texto [que subscrevo ou assino por baixo];


      Obvia e totalmente a favor do direito à Eutanásia

      Com que então o cidadão é bom e adulto o suficiente para pagar impostos, para votar, para aturar (e sustentar) uma classe política ridícula e ladra com as suas PPPs roubadas ao povo Português, mas pelos vistos o cidadão já não é bom e adulto o suficiente para decidir se tem que sofrer como um cão nos últimos dias da sua vida, é isso? Mas será que esta boa malta já viu alguém dos seus a morrer de cancro numa cama de hospital? Será que já curtiu bem malta a morrer por falta de ar mas plenamente consciente? É suposto uma pessoa que está com um cancro terminal, ou que tem uma patologia neurológica/mental, etc ter que se atirar para debaixo de um comboio ou dar um tiro nos próprios cornos, é isso? Faz sentido os nossos animais de estimação puderem ter um final de vida sem sofrimento desnecessário mas os seres humanos não? Eu digo aos outros como é que devem viver a sua vida, se devem fazer estas ou aquelas escolhas para si? Então porque carga de água o Estado, pela mão de um classe de políticos na sua maioria dos casos distante dos reais problemas dos Portugueses, deve impor uma escolha pessoal e por definição difícil aos seus cidadãos?

      E mais triste do que ver alguns atrasados a querer impor aos outros as suas escolhas pessoais é saber que uma boa parte dos Portugueses (incluindo muitos da nossa fraca classe de políticos) achar que todos devem sofrer na parte final de vida por ser esse o suposto exemplo que decorre da interpretação da Igreja Católica quanto ao "direito à vida". Meus caros, "direito à vida" é tratarmo-nos todos uns aos outros bem todos os dias, ser correcto, ter ética, tratar bem dos idosos, educar bem as gerações seguintes, ajudar um colega de trabalho, isso sim corresponde à essência da mensagem de Cristo. Cristo nunca disse que havia algum valor em sofrer na parte final da vida, como se a nobreza do acto cristão estivesse na própria dor. Na Natureza nasce-se, vive-se e morre-se todos os dias. Infelizmente os Portugueses utilizam a Igreja pelos motivos errados. Vão a Fátima pedir benefícios egoístas, casam-se pela Igreja mas muitos não levam o casamento a sério, e não falta quem invoque a Bíblia para impor aos outros as suas próprias escolhas. Ao mesmo preço moral daqueles que invocam a Tora, o Corão, e símbolos do Zoodíaco, para vender o que deve ser obrigatório para os outros.

      O Deus em que acredito - nos dias em que acredito - está muito longe desta Terra e ainda mais distante daqueles que por aqui falam em Seu nome. Tal como Jesus da Galileia teve que expulsar do templo ao pontapé os que utilizavam o Seu espaço para actos mercantis e venais, tenho a certeza que se hoje regressasse à Terra seria entre os supostos bons "homens de Deus" que começaria a limpeza. E se não existir Deus, tudo bem também, resta o acto generoso sempre que possível, a arte e a criatividade no que sobrar. Lembro-me que no dia em que Lou Reed morreu (na sequência de um cancro de fígado), a sua viúva Laurie Anderson ter dito que ele esteve a fazer Tai Chi umas horas antes de partir. Parece parvo mas penso nisso muitas vezes. De como o Lou deve ter pensado nas suas horas finais que estava a abandonar um Mundo belo e cómico mas tragicamente dotado de absurdo. Estamos preparados enquanto raça para utilizar a ciência para chegar à Lua mas já não conseguimos utilizar a mesma ciência para viver melhor.

      http://obomsacana.blogspot.com/2018/05/obvia-e-totalmente-favor-do-direito.html

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  10. Je suis Impontual e Ononimo Quiescente.

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  11. No fundo, é a isso que tudo se resume. Ainda assim, prevalece a vontade de uma maioria de deputados parlamentares que se arroga o direito de mandar e desmandar nas vidas e mortes alheias, que se acha capaz de impor a um paciente em fase terminal, num sofrimento indizível, o prolongamento de uma vida à qual não consegue pôr termo com dignidade.
    O que me reconforta é o facto de estarmos muito próximos da aprovação na próxima legislatura. Já o que me entristece é o facto de muitos terem de ser obrigados a sobreviver a si mesmos em profunda agonia até lá.

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