03 dezembro 2017

Notícias lá daquilo dos incêndios (bem sei, bem sei, estou desactualizado, agora é o tempo de escrever coisas que mostrem ao mundo a minha apreensão pela seca, se calhar até se fazia uma manifestação de solidariedade pela seca, mas agora está mais fresco e estamos a ficar sem tempo para as compras de natal, não dá jeito nenhum)

"Ficasse Lisboa duas horas sem internet e acabava o mundo", dizia-me o rapaz, enquanto me fazia o troco do paio e das três garrafas de vinho do Dão, sem se lamentar mais do que isto pelas semanas em que a rede está "em baixo" lá na vila onde faz a sua vida.

Fui ver os desenvolvimentos dos carvalhos e dos castanheiros que estas mãos com unhas imaculadamente limpas plantaram vai para um par de semanas. Não cresceram coisa que se visse, mas alguns já têm rebentos verdes.

Circulei pela serra no meu potente carro alemão por mais de duas horas, parando aqui e ali para café e conversa. Durante mais de duas horas de carro só vi encostas queimadas, a lua cheia a subir por entre os pinheiros queimados é uma imagem que me vai acompanhar por muito tempo.

Mesmo que pensemos que vamos lá só para ver o Ricardo Araújo Pereira entrevistar o Palin, acabamos por ficar para a prova de vinhos e aprendemos com os enólogos como serão construídos os vinhos deste ano, depois dos incêndios.

Cem quilos de azeitona fazem dez litros de azeite, disse-me o homem do lagar.

Há quem receba palha para o gado e frigoríficos para a casa e depois venda. A palha e os frigoríficos.

Ir lá continua a ser preciso, se não formos lá não sabemos nada de como são as coisas.

10 comentários:

  1. Vou aproveitar este seu belo post para dizer isto: a nossa serra está repleta de ruínas que deitam para vistas deslumbrantes e a baixo preço. Comprá-las e reconstruir uma casa habitável há de ficar muito mais em conta do que um apartamento em Quarteira, arrisco. E se a serra tem tesouros para oferecer!

    (Também gostei de saber dessa proporção azeitonas/azeite)

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    1. ladykina4.12.17

      http://expresso.sapo.pt/economia/2017-12-03-Aldeias-do-Xisto-ja-tem-a-sua-propria-Booking

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    2. Obrigada, Lady Kina, gostei de saber.

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  2. E sabe o Tio que o estado só quer dar [quando der] dezasseis euros por cada oliveira ardida? Um prejuízo sem precedentes.
    Muito oportuno este post, embora com alguns laivos de ironia, mas isso mostra que o Tio está de volta, ou melhor, o boneco. :)

    Nem mais, para se saber como são as coisas, só indo lá para as ver in loco. Concordo, plenamente.

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  3. Cláudia Filipa3.12.17

    Um dia destes, estava a ouvir vários produtores dos nossos deliciosos produtos regionais, e falavam da importância que tem este tipo de produção na possibilidade de fixar e cativar mais pessoas para as regiões, e digo agora eu, a importância que também tem nós comprarmos esses produtos, só assim podem continuar a existir.
    Dizia, por exemplo, um produtor do queijo da serra, que o queijo da serra não poderá ser produzido num qualquer outro lugar, ou já seria uma outra coisa qualquer, portanto, é aí que têm de estar as pessoas que o fazem. E disse, relativamente aos incêndios, por exemplo, que as ovelhas (lembrei-me de ti, por causa daquela tua ideia, Susana :-))contribuíam, naturalmente, para a limpeza dos terrenos. As serras, o interior, precisam de gente, o país está quase todo encostado ao litoral, quase a tombar, e há um enorme espaço de país a precisar de gente. E repare que, estando "meia dúzia" de pessoas em certas zonas do país, fecham-lhes as escolas, os centros de saúde, os hospitais, os tribunais, as agências bancárias, e quando nos telejornais aparecem essa meia dúzia de pessoas com os seus cartazes a tentar que não lhes fechem mais uma coisa essencial para a sua vida normal, e o país que está todo amontoado no litoral não liga nenhuma, com certeza, um gasto daqueles só para meia dúzia de gatos pingados, realmente, um despesismo aquilo. Depois, as pessoas com mais idade ficam, e os outros vão embora, foi sempre assim, e como entretanto vão fechando tudo, fica difícil a cativação de pessoas para essas zonas, e é neste círculo vicioso que temos andado.
    É por isso que eu digo e volto a dizer que a culpa é de todos, é muito minha que gosto de viver perto do mar (e comprar uma data de produtos regionais que adoro nem sequer é por solidariedade, é mesmo por uma grande gulodice, e ficar com um aperto no peito cada vez que vejo os tais casos de meia dúzia de pessoas a pedirem para não encerrarem mais um serviço também não serve para ajudá-las).
    Mas eles estão a fazer das tripas coração e a organização desse evento a que foi é mais uma prova disso e;
    "Ir lá continua a ser preciso, se não formos lá não sabemos nada de como são as coisas."

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  4. Com a chuva vieram as falhas de electricidade. Ver, todos os dias, quilómetros de terra queimada e ainda impressiona. Daqui a dez, quinze anos vai arder tudo outra vez, se nada for feito. Já estão a nascer os eucaliptos. Vamos a apostas? Quero perder.

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  5. Anónimo4.12.17

    Sim, este ano a proporção de azeite/azeitonas é de 10% e é o lagar que decide quando esmaga as primeiras a serem entregues. Seria muito mais, se tivesse chovido alguma coisa em Setembro. As oliveiras este ano estavam carregadinhas. Teriam bastado uns dias de água certinha e suave, que os caroços se iriam encher e luzir. Ainda assim, apanhei umas que chamaram a si toda a água que puderam sorver. Azeitonas galegas do tamanho de pickles com uns raminhos de oregãos, umas fatias de queijo e chouriço assado, nunca cai mal.
    Assim como saber que o azeite puro, coagula com o frio e se não o faz foi misturado com óleos.
    Deixo-vos este momento de TV rural, com apreço.

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    1. O apreço é todos nosso por tão atenciosas informações.
      Muito obrigada!

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  6. Essa paisagem destruída pelos incêndios é o maior cheiro a morte que conheci. Um horror.

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  7. Anónimo4.12.17

    A Meia Maratona dos Descobrimentos que aconteceu ontem, parte dos fundos reverteu a favor dos bombeiros voluntários de Pampilhosa da Serra (concelho fustigado pelos incêndios de junho e outubro. Sim, levaram com os dois incêndios). Sabem quantos euros rendeu? 5000 euros... só! Não vi lá nenhuma blogger da moda fanática pelo mundo da corrida.

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