25 outubro 2017

Enquanto te manifestavas (3)

Em chegando ao sítio, procura pelo Café Central e saúda quem lá estiver. Pergunta se sabem de alguém que precise de alguma ajuda e logo te dirão quem mais precisa e onde te deves dirigir, ninguém te dirá que ele próprio precisa do que quer que seja. Escuta as histórias que te vão contar, sem interromper. Notarás que ninguém se referirá ao que lhe aconteceu a si próprio, mas ao que aconteceu ao colectivo. Ouve de novo, ainda que seja a mesma história. Ouve outra vez. Resiste a dizer que agora é levar isto para a frente, que o que lá vai lá vai. Agradece e aperta a mão a quem lá estiver. Aperta mesmo a mão, ainda que te estendam só o pulso, envergonhados das mãos de trabalho duro. Convida alguém a acompanhar-te a onde vive quem precisa. Ouve de novo a história que te vão contar e interessa-te pelos pormenores, como foi que um salvou a casa atacando os pequenos focos com uma enxada, um por um, como foi que outro tirou a velha senhora que não se conseguia deslocar, como foi que um outro viu a casa do avô arder e ele a salvar o quartel dos bombeiros, o vale em chamas pelo meio. Se apenas ouvires, já fizeste bastante. Nota que te dirão que não é precisa mais comida nem mais roupa nem mais cobertores. Não penses que as pessoas são mal-agradecidas, as coisas são como são. Compra roupa interior, boinas, meias. Compra novo. Não culpes o governo, este ou outro qualquer, nem a protecção civil nem os bombeiros. Os que lá estão não culpam ninguém e eles sabem melhor do que tu destas coisas. Janta num restaurante local, mete o boletim do euromilhões na tabacaria da terra, compra o que tiveres que comprar nas lojas locais. Deixa café pago para os vinte que vierem a seguir, a dona do café que decida quem menos pode pagar aqueles cinquenta cêntimos. Volta pelo menos uma vez por mês, um ano seguido. De cada vez que lá fores, apanha pinhas e lenha em vez de comprar os briquetes (é assim que se escreve, não é?) na loja. Leva os teus filhos, os teus amigos, a tua família, e planta carvalhos e azinheiras e castanheiros. Planta onde te apetecer, na maioria dos sítios ninguém se vai importar. Exige saber para onde foi o teu dinheiro, o das contas solidárias e o dos impostos. Lembra-te que os milhões que o governo anunciou e que tanto te apaziguaram não são de mais ninguém senão teus, ainda que pareça que é dinheiro do estado ou de Bruxelas, não te esqueças que o estado e Bruxelas não têm dinheiro se tu não lho deres. Escreve aos deputados, ao Presidente da República, diz que sabes que o dinheiro é teu e tens o direito de saber para onde irá cada euro. Cada cêntimo.

E sim, manifesta-te se achas que é coisa de valor.

36 comentários:

  1. E pronto... Entrando em modo romance, saio eu de cena.

    (É aquilo que já me conhece de não gostar de brincar com coisas que me são sérias. Resto de boa noite.)

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    1. Não sejas assim, Nêzinha. Espera pelo episódio 4, aquele em que o Pipico nos vai contar que isto são só blogs e as coisas são como são, que os incêndios nos mostraram que as coisas não são só pretas ou brancas, que há muitas nuances de cinzento, que nem só gente boa e genuína viu a terra arder-lhe, que nesseslugarejos do café central há quem triplique o preço dos bens de primeira necessidade, que por causa dos incêndios escasseiam, há quem burle gente de boa vontade, há quem reclame 10.000 pés de vinha ardidos numa terra onde nem mil havia, quem, a reboque do boato de 10.000 a fundo perdido para a reconstrução se apresse a reclamar uma casa onde antes havia um casebre em ruínas onde nem os animais dormiam. Que gente mal formada e mal intencionada está em todo o lado, longe, nas cidades, e lá, onde a terra ardeu, como gente boa também. Porque efetivamente as coisas são como são.
      Coração ao alto, Nêzinha!

      Amanhã voltará ao registo snob-chique e retomará as peripécias das velhinhas perdidas no aeroporto.

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    2. Anónimo26.10.17

      É melhor sair é... Depois do episódio anterior.

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  2. Anónimo25.10.17

    Estou com a NM.

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  3. Senhor Pipoco. Eu gosto de si, gosto de ler, gosto da ironia, a sério quem gosto.
    Este tipo de conto já é recorrente consigo. Mudam o tema e os,protagonistas, a envolvência, mas não diz mais do que já disse anteriormente.
    Lamento o desaparecimento daquele Pipoco interessante, que pontua aqui apenas esporadicamente.

    Beijinho. Seja sempre feliz

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  4. Eu cá gosto deste pipoco do post de hoje.
    ~CC~

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  5. Arre, que assim já é demais!!!
    Minhas senhoras, não acham descabido e intolerável vir atazanar a vida do administrador do blogue, só porque não partilhou do vosso ponto de vista de encarar a in)utilidade de uma manifestação se não for complementada por outras formas de acção?...
    Haja santa paciência!!
    Que tirania...já parece o tempo em que se dizia: «Quem não estiver comigo é contra mim»...

    Desculpe, Pipoco, sei que não precisa da minha intervenção, mas ler tanta crítica deixa-me revoltada!
    Se o entender nem precisa publicar este comentário.

    Tenham uma boa noite!


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    1. Anónimo25.10.17

      Então Maria Antonieta, não me diga que só posso cá entrar se for para concordar e adular?

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    2. Não anónimo. Deve cá entrar, aqui ou em qualquer outro espaço, para expor a sua opinião sem deixar de respeitar a opinião de quem pensar de forma diferente. Sem a pretensão de impor o seu ponto de vista a todo o custo. O respeito é, deveria ser, a base em que assenta um diálogo construtivo.
      Adular? Vê-se bem que não me conhece!!

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    3. Anónimo26.10.17

      Calma Maria Antonieta, também não disse que era a senhora que adulava.

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    1. Anónimo26.10.17

      precisa de alguma coisa?
      o que mais necessitam aí?
      vw

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    2. Anónimo26.10.17

      desculpe a insensibilidade do meu comentário de há pouco, mas é por pura ignorância. o que mais necessitam é ...TUDO.
      força.
      vw

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  7. Anónimo25.10.17

    E agora zangam-se quase todas mas voltam para espreitar à socapa que o cinismo do snob-chique é viciante e lentamente hão-de voltar apaziguadas com um post qualquer sobre uma banalidade qualquer que lhes toque lá no meio dos ventrículos e da memória já se lhes varreu o dia em que rangeram os dentes perante tal despautério e de novo sacam da caixinha de madeira onde guardam a escova, a graxa e o pano de flanela macia.

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    1. true fact!
      eu pedi para ser removida mai'los "meus" :)

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    2. Anónimo26.10.17

      E voltou para espreitar à socapa?

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    3. Anónimo26.10.17

      não senhor, anónimo! o nomezinho está ali para clicar e ver a origem, então?!

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  8. Achei extremamente triste que as visadas tivessem usado a manifestação como a decisiva oportunidade de ataque ao actual Governo. Mobilizaram-se nesse sentido com todas as ganas que possuíam e tenho a certeza que não o fariam se fôssemos governados por aqueles que ainda hoje idolatram. Por isso, só tenho que destacar e enaltecer o papel de quem se colocou no lado oposto e fez, com toda a mestria, a crítica que se impunha a quem se aproveitou da tragédia para dar força a manigâncias políticas rasteiras. O meu aplauso, D. Pipoco.

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    1. Gosto muito de o ver aqui rodeado de pessoas cheias de certezas, Pipoco, daquelas que nunca se enganam e raramente têm dúvidas...

      (e hesitei muito antes de dar continuidade a este assunto, mas confesso que, quando deixa passar o comentário supra sem o rebater - presumo que concorde que as palavras que aqui lhe deixei ontem não passassem de uma tenebrosa manigância política rasteira para trazer de volta o meu ídolo Passos Coelho - me sinto à vontade para dizer quão lamentável é viver num país onde, aparentemente, não se consegue separar a cidadania da ideologia...)

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    2. Anónimo26.10.17

      Idolatre este governo lápis e roa-se todo quando outras pessoas não gostam do estado das coisas.

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    3. Cara Palmier, o meu elogio feito a D. Pipoco é de todo legítimo a partir do momento em que o conoto com a direita e o vejo deixar o jogo do passa-culpas de lado para se focar naquilo que realmente interessa. Não havia porque não deixar passar o comentário quando a crítica é mais que fundamentada.
      Poderá dizer-me as vezes que quiser que se tratou de um acto de cidadania, mas tenho a certeza que esta se esgotaria toda caso a ideologia dos que agora governam fosse a mesma dos que governaram entre 2011 e 2015.
      Anónimo, não me conhece e só por essa razão poderá dizer que idolatro o executivo de António Costa. Está muito longe de imaginar que ideologia perfilho e a que partido pertenço, mas também não lhe vou dar o gostinho de ficar com essa dúvida desfeita. Só lhe digo o seguinte: não se ache mais indignado que eu com o que se passou. Ao contrário do que pensa a caríssima Palmier, a minha cidadania não é limitada pela minha ideologia. Assim, o meu estado de espírito perante esta situação seria o mesmo caso estivesse um governo de outra cor política em funções. Não me manifestei no sábado passado e não o faria na eventualidade de termos outros a liderar os destinos do país porque penso que não será por aí que se resolve o problema, como D. Pipoco tem frisado insistentemente.

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    4. Adoro pessoas cheias de certezas...

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    5. O primo do outro26.10.17

      Eu também. E de retórica abrilhantada.
      Não podia aqui cair melhor.

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    6. LadyKina26.10.17

      MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAU!!

      o quê?

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  9. <3 que beleza de texto. Humanista de verdade. Grande abraço

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  10. Anónimo26.10.17

    muito bom, uma vez mais. mesmo.
    continuação.

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  11. Não se trata só de criticar a inutilidade da manifestação, mas principalmente, de demonstrar incapacidade generalizada pensamento racional próprio, baseado na experiencia e consciência pessoal, em suma, de agir ou interagir sem influencia dos facebooks.
    Caro PMS, com este post desfaz os argumentos dos indignadozinhos de algibeira que têm o hábito de se juntar aos rebanhos. Mostrou um olhar lúcido, informado e objectivo sobre um acontecimento e principalmente as suas consequências.
    Provavelmente não será essa a intenção, mas deixou aqui um pequeno guia prático e real da forma em cada um de nós pode e deve ajudar. Servirá para aqueles que não se deslocaram aos locais porque só iriam atrapalhar, provavelmente fizeram bem.

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  12. Anónimo26.10.17

    gostei muito do seu post, muito mesmo.
    tenho uma amiga que também lá foi, para ajudar (mas ajudar MESMO)e veio também "assim" como o tio. coitados dos que perderam tudo...e nem forças têm para pedir ajuda. sempre soube que quem mais necessita não pede ajuda.
    força por ai,
    vw

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  13. LadyKina26.10.17

    https://www.youtube.com/watch?v=YKzDNQ3R1qE

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  14. Anónimo26.10.17

    Quem foi lá veio com a alma em pedaços. Quem quis ajudar reuniu grupos de voluntários e simplesmente partiu. E uma semana depois dos incêndios foram, ainda assim, os primeiros a oferecer alguma coisa. Sobretudo abraços.

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  15. Anónimo26.10.17

    pois... é que isto pode ser um grande aborrecimento dizer-se a alguém (com a elegância frontal que por aí só apregoam) que aceitar o convite do filho da júlia pinheiro para ir dar um passeio ao terreiro do paço está assim ao nível de um "je suis charlie" depois do "je suis charlie".

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  16. Don Pipoco, permita-me uma breve dissertação sobre discussões infundadas:

    A indignação tal como o altruísmo não necessita de muitas palavras. A indignação, porque o seu elemento pode ser a dissimulação e a sombra. O altruísmo porque não gosta de alardear as suas acções.

    Muito grato.

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  17. LadyKina26.10.17

    E numa óptica mais "pragmática":

    http://www.budavirtual.com.br/ideia-de-felicidade-ocidental-baseada-individualismo-falhou-colocar-se-lugar-outro-e-verdadeira-revolucao-afirma-roman-krznaric/

    - é ignorar conceitos como os de "um dos melhores filósofos de “lifestyle” (WTF?????) e acho que no essencial tem muito a ver com o(s) aflorado(s).

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  18. Mais nada! No fundo até é simples...
    ...dá é trabalho!

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  19. Anónimo26.10.17

    Muito bom (Impontual).

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