25 outubro 2017

Enquanto te manifestavas (2)

Não fosse o carvalho grande ter ardido, era o carvalho a que eu subia no fim do Verão para ler os livros da Enid Blyton, e talvez eu tivesse ficado, havia de ponderar dar um salto à manifestação, ou se calhar não, afinal eu não tenho isso do facebook e ninguém havia de me convocar, se fosse havia de me exasperar a debater quantos lá estávamos, havia de suspirar e pensar "como é possível?" enquanto passavam as imagens do telejornal, é certo que talvez me aliviasse digitar uns valores em euros, ou então havia de seleccionar boa roupa, nada dessas limpezas de armário que nos livra de camisas fora de moda ou de casacos com um buraco pequenino, desses que quase não damos por eles, afinal um casaco com um buraco pequenino é melhor que casaco nenhum, é ou não é?

Mas deu-se o caso de ter ido e tu havias de ir também um dia destes ver aquilo com os teus olhos, enquanto o cheiro ainda se entranha na tua roupa, enquanto não tiram as carcaças dos carros da beira da estrada da Beira, enquanto a chuva não limpar os caminhos, havias de ir à noite, que é quando o fumo do que ainda arde se mistura com o nevoeiro, para te dar a ideia de como é conduzir sem ver, e tu podes ir devagar, eles não, tinham que andar depressa, e, chegando lá, já cá venho contar-te o que tens que fazer, não tenhas medo, as pessoas não mordem.

(podes sempre continuar a manifestar-te, é claro, aproveitas, tomas um café e compras um casaco dos bons, desses sem buraquinho)

48 comentários:

  1. sabe que pensei em si estes dias. Se o seu campo teria sido atingido. E a demora em aparecer por aqui ia me convencendo mais e mais. Grande e forte abraço

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    1. O problema não é comigo, Isa, é connosco.

      (obrigado)

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  2. Não, caro PMS. As pessoas, assim no geral, não deviam ter ido (ou ir) lá. Não enquanto houver fumo. Não enquanto houver carcaças. Não, enquanto houver que fazer. As pessoas, assim geral, só iam atrapalhar se tivessem ido (ou se forem) lá. As pessoas têm mais é que ajudar como podem. E mostrar indignação e revolta, seja na rua, seja nas redes sociais, seja onde for é uma forma de ajudar como outra qualquer.

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    1. NM, as pessoas, no geral, não atrapalham se forem fazer. E fazer não é só ir ver. E misturar ir ver com ir fazer não é conversa, pois não?

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    2. Discordo. As pessoas, no geral, mesmo querendo fazer, só não atrapalham se souberem o que hão de fazer (por terem raizes e conhecerem as pessoas e por isso saberem-se orientar sozinhas para o sítio onde são precisas), ou se houver quem as oriente naquilo que podem fazer. Como bem sabemos que ninguém esteve disponível para orientar ninguém, o que as pessoas fizeram de melhor foi saírem para a rua e manifestarem-se ou fazê-lo virtualmente.

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    3. É um bom ponto. Eu terei essa vantagem de saber o que lá ia fazer.

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    4. E se não tivesse? Metia-se no carro num dia do fim de semana, rumava para onde e para fazer exactamente o quê?

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    5. Vai ter que aguardar pelo episódio 3

      (fico genuinamente feliz por ter conseguido captar a sua atenção)

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    6. Sabe uma coisa, PMS? Há o ir e o fazer, o tal levantar o rabo do sofá e o arregaçar as mangas, e posteriormente a isso há, daqueles que tiverem capacidade e facilidade para tal, o contribuir de alguma forma para a divulgação, discussão e caminho a seguir.
      Um belíssimo exemplo aqui:

      http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/do-combate-ao-fogo-numa-aldeia-a-constatacao-de-um-estado-inutil?ref=HP_DestaquesPrincipais

      Aproveitar uma oportunidade pessoal para apontar o dedo aos que não quiseram, mas também aos que não tiveram oportunidade de fazer mais, é só poucochinho.

      (Aqueles irmãos escreveram um artigo e conseguiram que fosse publicado.
      O PMS tem um blogue. Espero sinceramente que aproveite essa oportunidade para discutir algo de sério sobre o assunto.)

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    7. NM, fui ler.

      (não espere, ainda que sinceramente, muito de mim, eu próprio não arrisco tanto)

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    8. Por acaso já não esperava, mas como diz que é uma caixinha de surpresas...

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  3. Acho que fez o certo. Não só foi onde tinha que ir como não estava onde não tinha de estar. Poupou-se ao triste espectáculo que incluiu indignações assim-assim repentinamente transformadas em fúrias imparáveis de manifestantes contra outros. Um abraço de solidariedade.

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    1. Meu caro, são escolhas.

      (sempre respeitando os indignados, que exigem medidas e assim, claro...)

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    2. "(sempre respeitando os indignados, que exigem medidas e assim, claro...)"

      Enfim...

      (Adivinho-lhe uma ligação ao campo e à floresta, que nem queira saber...)

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    3. Sou uma caixinha de surpresas, NM.

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    4. Anónimo25.10.17

      E o lápis roído fez, concretamente, o quê?

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  4. Em primeiro lugar, Pipoco, deixe-me dizer-lhe o quanto lamento que o carvalho, de que tanto já o ouvimos aqui falar, tenha ardido, e que com ele tenha, provavelmente, levado muitas das suas memórias. Lamento pelo seu carvalho e pelos carvalhos dos outros. Lamento pelos meus carvalhos e outras árvores insistentemente plantadas pelo meu avô na Beira Baixa, que arderam enquanto ele ainda era vivo e voltaram a ser por ele replantadas, voltaram a arder em 2003 e novamente este Verão. Árvores que nunca chegaram a adultas porque houve sempre um fogo pelo meio. Lamento por todos nós e pelo nosso país.

    (quanto à sequência de posts, confesso que o título "vamos lá medir sentimentos (2)", me pareceria mais adequado)

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    1. Obrigado Palmier.

      (de si espero sempre o melhor, como bem sabe, é por isso que me surpreende mais o seu parêntesis)

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    2. (Pipoco, é bem patente o desdém com que se refere àqueles - onde me incluo- que se foram manifestar para que, o que aconteceu ao seu carvalho, não volte a acontecer. Atitude que não deixo de estranhar, uma vez que todos queremos a mesma coisa)

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    3. Palmier, consegue dar-me três objectivos que, na prática, serão concretizados com a manifestação?

      (ou quais eram os três objectivos da manifestação)

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    4. Mostrar que o país está acordado para esta realidade - a que durante tanto tempo aqueles que estão longe fecharam os olhos - e que vamos estar atentos às medidas efectivamente tomadas para alterar o estado de coisas, não lhe parece uma atitude válida? Mostrar que a sociedade se mobilizou para esta causa, uma sociedade que nunca se mobiliza para nada! (excepto quando é organizada pelos partidos políticos) e que vamos estar atentos aos resultados. Acha que, juntamente com todos aqueles que foram realmente afectados, a pressão dos cidadão em geral não tem utilidade? Caramba, se não servimos para nada, acho que o melhor é desistirmos deste país....

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    5. (Honestamente acho que o que se discute aqui é "eu fiz mais do que tu", quando o que devíamos estar a discutir é "o que podemos fazer todos juntos")

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    6. Palmier, em sua opinião, o que podemos fazer todos juntos sobre este tema? É que estou completamente disponível para esse debate, elimino já os capítulos 3 e 4 da série "enquanto te manifestavas")

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    7. Caramba, desculpem estar meter-me na conversa. Mas veja lá isso de se cortar à sequela... É fundamental para a blogo-nação saber-se da continuação.

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    8. Pipoco, um foi lá, porque tinha uma ligação directa e podia efectivamente ajudar alguém, outro ficou aqui porque ir lá não adiantava nada, só atrapalharia. Ambos fizeram o que, dentro das suas possibilidades e em consciência era o melhor. Porque razão acha o Pipoco que os segundos devem ser desprezados? Aceitar as duas atitudes é desde logo fazer alguma coisa em conjunto, queremos todos a mesma coisa (esta era a parte em que, se soubesse, usaria um sublinhado), é o nosso país, caramba, de todos nós, dos que vivem na cidade e dos que vivem no campo, não devemos todos exigir melhor, ou acha que os que estão a salvo do fogo se devem limitar a um encolher os ombros e a não ligar pevide?! Honestamente não compreendo o porquê dessa divisão entre les uns et les autres...

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  5. Mal está a sociedade que, de forma egoista, só se manifestar/interessar/alegrar/entristecer por aquilo que lhe diga respeito diretamente.

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    1. De acordo Mirone.

      (mas podia ter escrito "mal está a sociedade que não lê livros" e eu concordaria de igual forma)

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  6. Cláudia Filipa25.10.17

    Quando alguém vai ganhando o meu respeito, pela forma como se posiciona, aborda, ou lida com certos e determinados assuntos, principalmente quando verdadeiramente sérios, acontece-me aquela coisa muito humana e egoísta, que é ficar secretamente a desejar que não me desiluda.
    Este meu comentário é assumidamente egoísta, não quero dizer mais nada a não ser que, pelo que acabo de ler, nem preciso aguardar pela continuação, já posso dizer e quero dizer, muito, mas muito obrigada, Pipoco, por ainda não ter sido desta que me desiludiu, muito pelo contrário.
    E também quero deixar um abraço por tudo o que significa "Não fosse o carvalho grande ter ardido...".

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    1. Obrigado Cláudia Filipa.

      (embora a nossa vida seja enriquecida com as pequenas e grandes desilusões)

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    2. Cláudia Filipa25.10.17

      (neste caso, creio que não enriqueceria em nada, a diversidade de pontos de vista enriquece muito mais, e foi por isso que escrevi o que escrevi no outro comentário, aquilo do respeito e do agradecimento, quer concorde consigo ou não, podia não se ter dado ao trabalho, teria sido mais cómodo, eu, por exemplo, não disse o que pensava, por aqui, claro, ando a calar-me, por aqui, cada vez mais, só para "não arranjar chatices" e não, não me orgulho disso, isso faz-me sentir uma coisa que detesto, faz-me sentir cobarde)

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  7. Anónimo25.10.17

    este texto é demasiadamente bom.
    saúde, Pipoco.

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    1. É razoável, é razoável...

      Saúde.

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  8. Anónimo25.10.17

    A única questão séria que tenho é quantos dos indignados de Facebook e manifestações foi efectivamente votar.

    E não, não estive lá para nada, limitei me a partilhar perdidos e achados e informação às populações.

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    1. É um bom tema. (e quantos serão sócios do Benfica? e quantos terão lido Ulysses? perguntas, perguntas...)

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  9. Anónimo25.10.17

    Entre o cinismo do Pipoco e a indignação pragmática da Palmier, estou com ela. Uns e outros, consoante as circunstâncias, devemos todos mostrar indignação e intolerância perante um governo que não é capaz de evitar estas situações, graves, chocantes e repetidas.
    O carvalho ardeu e foi lá tratar do assunto. Muito país ardeu e fomos lá marcar uma posição.

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  10. Caro PMS,
    só vim manifestar-lhe a minha solidariedade.
    Sem perguntas nem esperando respostas, só porque sei que está a sofrer, não só e apenas pelas suas perdas, mas também com toda a dimensão desta tragédia. Afinal, como todos nós!...

    ( nunca esperei que fosse diferente )

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    1. O primo do outro26.10.17

      Ah, na mouche.
      Pela dimensão desta tragédia está a sofrer horrores. Nunca mais o coração se lhe vai solidificar

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  11. Sequelas à parte, calhando o carvalho velho não ter ardido, calhando o fogo nem lá ter andado por perto, o que faria o Pipoco em relação aos carvalhos de outros, ou as casas, ou os carros, ou o gado, ou aos outros propriamente ditos (mais de 100 outros)?

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    1. Anónimo25.10.17

      Tirou-me as palavras da boca... Também tenho uma curiosidade imeeeeeeeeensa em saber o que faria o Pipoco se não lhe tivesse ardido o carvalho.

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  12. Anónimo25.10.17

    Como é costume, o Pipoco é o superhormem, o heroi aquele que arregaça as mangas e desbrava matas e a quem as velhinhas abraçam agradecidas. Não foi à manifestação nem sequer ao terreno, isso são balelas para quem lhe dá conversa mas não desilude quem o conhece, porque a tagarelice encapotada é o seu forte.
    Desminta-me com fotos, peço -lhe.

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    1. Não fosse o tema dos sérios e havíamos de nos entreter um bocado com esta abordagem.

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    2. Anónimo25.10.17

      Haja algumas lúcidas no meio de tantas lambe-botas.

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    3. Anónimo25.10.17

      Gabarolice ou não. "Desminta-me com fotos"?????????????? Mas isso foi um momento de ver e ser visto? Fotos???? Mas está estúpido? Espero sinceramente que não tenha fotos, nada justifica a merda que o anónimo acabou de dizer. O bom senso não prolifera por aí.

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  13. Uma sociedade civil que se manifesta exerce pressão sobre o poder político. Creio que foi essa a intenção das pessoas que se manifestaram. Há coisas que se podem fazer no local e há outras coisas que se podem fazer, fora do local, exercendo pressão.
    Se no regresso compraram uma camisolinha, tanto melhor que isso faz a andar a economia.
    (Pior é ser-se como eu, que só comprei a camisolinha)

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  14. Claro que pode argumentar-se que essas pressões redundam numa inutilidade pragmática. Mas não é essa a única arma da sociedade civil?

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  15. Sem qualquer relação com o texto, peço isto: o favor de retirar da coluna à direita de quem lê, a hospedaria. Abomino a leitura anónima, o corrupio, principalmente por via das vias mui concorridas :)

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  16. Anónimo26.10.17

    até que enfim, uma piada. assim para descomprimir, quiçá.

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