27 setembro 2014

Alabardas aldrabadas

O que me foi vendido como "O último Saramago" é uma fraude. Sessenta e seis páginas impressas com um tamanho de letra igual à que se usa nos livros para crianças, linhas separadas por espaçamento generoso, realces a vermelho daquilo que acabámos de ler no texto, tudo entremeado com desenhos de página inteira, ainda que sejam desenhos de Gunter Grass, é um logro. O que está a ser vendido como livro inacabado de Saramago é apenas um livro mal começado, que se lê no intervalo de tempo que decorre entre o anúncio do comandante de início da descida para Lisboa e o anúncio do comandante à tripulação "portas em disarm", ainda que os textos (sofrível o de Gómez Aguillera, melhorzinho - mas pouco - o de Roberto Saviano) funcionem como uma espécie de enchedores de chouriços, mais um contributo para esticar as poucas páginas de Saramago e fazer de conta que assim se faz um livro, tão à pressa que ninguém deu conta da bizarra noção de geografia "...porque se o Chile não devolvia à Bolívia o que lhe tinha roubado no norte, menos lhe abriria de não beijada uma estrada no sul através dos Alpes".

"Afinal, talvez ainda vá escrever outro livro", dizia-nos Saramago nas suas notas. Não escreveu.

21 comentários:

  1. Anónimo27.9.14

    Do que li, ninguém escondeu o número de páginas existentes.

    Soube também que o livro não era um livro com início e fim. Irei comprá-lo. Vale mais do que muito do que é editado por "jovens escritores" em Portugal.
    Tal como o "The original of Laura (Dying is fun), de Nabokov, não é um livro terminado, são rascunhos. Mas ainda assim com valor.

    Não se queixe se não investiga.

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    1. Não me queixo do número de páginas do livro. Aliás, nunca me queixo de nada.

      Mas não havia necessidade de vender a coisa como "o romance inacabado de Saramago" (como o vende a Fundação Saramago) ou que afinal Pilar del Rio (citada hoje por José Mário Silva no "Actual") diga que "corresponderia a uma novela" quando estamos a tratar de umas poucas páginas com uma potencial boa ideia.

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    2. Beatriz27.9.14

      Livros póstumos fazem-me sempre sentir desconfortável.
      Se os escritores não os quiseram editados em vida, por algum motivo foi.
      Como disse anteriormente, o livro de Nabokov não era para ser editado, o filho achou por bem fazê-lo e foi muito criticado.

      A "Claraboia" de Saramago não foi um livro esquecido (como pretenderam vender), foi dos primerios livros escritos que Saramago não achou bom. Comprei, li e não é de facto um livro grandioso, não sendo mau, vê-se um Saramago em construção, o que é bom. Mas a Sra del Rio, toma e pode tomar este tipo de decisões.
      Acho-a uma mulher de fibra, mas não posso concordar com tudo o que faz e diz. Há também muitas coisas escritas pelas media, que nem sempre correspondem ao lhes é dito.

      Kawabata e Salinger também têm livros descobertos, serão editados dentro em breve, em inglês. Como são escritores de que gosto, fico atenta, mas faz-me sempre pensar que estou em território proibido.
      Neste caso concrecto, a culpa não é de Saramago, é de quem quer vender. E o que me agasta é que tenha escrito este post como se assim fosse.
      Sou a anónima do primeiro comentário

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    3. Beatriz, naturalmente, a culpa não é de Saramago nem nado no post indica que seja essa a minha linha de pensamento (se há, que fiquemos esclarecidos desde já que nem de perto era minha intenção menorizar Saramago, de quem li praticamente tudo o que foi editado).

      Evidentemente, a culpa é de quem edita não-livros, de quem se cola a Saramago sabendo que o que quer que seja publicado venderá - ainda para mais estando a chegar o natal.

      Que fique claro que nas poucas páginas está lá a marca de Saramago, que a história tem um tremendo potencial. Mas não é um livro de Saramago, isso não.

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  2. Anónimo27.9.14

    Ah Pipoco, está mesmo muito acabadote !
    Já lhe vendem fraudes ? cai nelas ?
    Não defraude cá o nicho de leitores, veja lá isso que ainda esperamos por si em melhores dias.

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    1. É verdade que estou acabadote. No mesmo dia venderam-se duas fraudes (talvez três, ainda não ouvi todo o novo Cohen).

      A segunda fraude foi o franchising da Aghata Christie, havemos de falar nisso.

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  3. Obrigada pela informação, caro Pipoco. Assim, talvez já nem vá comprar o livro e poupe a desilusão.

    Desejo-lhe um bom fim de semana, sem mais fraudes.

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    1. Obrigado, Susana.

      (espero que sim, que sem fraudes deixem o Estoril jogar à bola e ganhar o jogo...)

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    2. Anónimo27.9.14

      Acho bem já que para fraudes chegou o jogo de ontem em que o Porto foi escandalosamente roubado de um penalti.
      O que o impediu de ganhar o jogo. Não viu?

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    3. Não vi. Mas vi o Porto levar um banho de bola.

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    4. Anónimo27.9.14

      Muito repartido o jogo, caro Pipoco: Com alguma prevalência para o Sporting na primeira parte, e até podia ganhar que não lhe ficava mal.
      Mas do que o Pipoco falou foi de fraudes. E fraude houve uma num penalti a favor do Porto a quem o árbitro fez vista grossa, isto independentemente do Porto merecer ganhar ou não, que não merecia, mas o está em causa é um penalti não assinalado contra o Sporting.

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    1. Bom saber também para si, Arrumadinha!

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  5. Anónimo27.9.14

    Tanta viagem, tanta milha e ainda não aprendeu que não é o comandante que dá a ordem "portas em disarm" mas o supervisor/chefe de cabine? Hum...

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    1. É verdade. E se juntarmos largas dezenas de aterragens e descolagens no cockpit, o estrago ainda é maior.

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  6. Que diria o próprio Saramago de uma edição destas...

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    1. Não diria, Cuca. Com Saramago vivo, não existiria uma edição destas. Não é por acaso que Claraboia é uma edição póstuma, conforme já aqui fio dito.

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  7. A pilar ainda vai arranjar maneira de editar a lista de supermercado que o homem escreveu

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  8. Não senti curiosidade qb para ler o livro, até agora. Debato-me entre o ler ou não ler, mas com esta crítica...

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  9. Não apenas publicou o que ainda não o era, como andou por aí a explicar como deveria ser lido o livro. Esta mulher é um pesadelo, esmifrou o homem em vida e esmifra-o depois da morte.

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