01 novembro 2013

Um dia com Pipoco

São cinco e meia e Pipoco acorda sem necessitar do incentivo do seu despertador em modo prioritário i-Pod, Halellujah de Cohen como música seleccionada, estão sete graus na escala inventada pelo senhor Celsius, o que corresponde a um pouco mais na escala do senhor Fahrenheit e a muito mais na escala do senhor Kelvin, que era lorde e não se chamava Kelvin, Pipoco, depois de aprimorada sessão de higiene pessoal, decide, contrariamente às suas convicções filosóficas, avançar para a sua viatura preta sem ingerir qualquer tipo de alimento, selecciona Rigoletto, que estreou no La Fenice, Pipoco pensa que há um ano, por esta altura, estava precisamente no La Fenice e é nesta quietude que Pipoco chega ao parque número dois do aeroporto com o firme objectivo de tomar café e algum alimento no Harrods, que tem café Delta lote Diamante, acontece que Pipoco passou o Harrods ao mesmo tempo que efectuava uma chamada relevante e, em passo rápido chega à porta de embarque número dezasseis, são sete horas e cinco minutos e comunicam a Pipoco que o voo para Madrid será com tripulação reduzida, Pipoco sabe demasiado bem que tal informação, devidamente descodificada, significa que não haverá café a bordo, é nisto que Pipoco pensa enquanto lhe estendem um saco com ração de combate, são oito e meia da manhã em Lisboa, nove e meia em Madrid e meio dia e meia hora em Tbilisi, Pipoco nunca esteve em Tbilisi nem mesmo em Nairobi, onde é menos uma hora que em Tbilisi, Pipoco embarca no metropolitano que o deixará em menos de nada em Nuevos Ministerios, plena Castellana, bebe um café que não é nem por sombras Delta Diamante e está agora pronto para enfrentar o primeiro embate do dia, não corre mal, a mulher que faz a Pipoco uma apresentação em Prezi é, com grande dose de certeza, a mulher menos bonita que Pipoco viu a fazer apresentações em Prezi, melhor assim, não há desfoque, apertam-se mãos, não é mau sinal, Pipoco está agora a caminho de Barajas, com o firme propósito de chegar a horas a uma outra reunião que decorrerá na bela cidade do Porto, são quinze horas em Madrid e às quinze e trinta, hora local, Pipoco estará na torre das Antas, com o estômago ainda a recuperar da viagem em andamento Prestissimo, não sendo alheio ao desconforto as anchovas e o pão molhado em azeite que escolheu almoçar em Barajas, Pipoco inicia a sua prelecção, não sem antes se dar conta que não tem consigo a minúscula pen onde guardou os catorze slides que desejava partilhar com a audiência,Pipoco informa quem o queria escutar que tem alergia a apresentações, que a palavra lhe bastará, há sorrisos na sala, algumas pessoas tinham informação confidencial e sabiam, porque os prepararam, que Pipoco tinha uns belíssimos slides com gráficos e cores para mostrar ao vasto auditório, Pipoco fala para além do tempo previsto e ninguém reclama, não lhe correu mal o improviso, nunca corre, e isso, parecendo que não, é exactamente o maior problema de Pipoco, são nove da noite e a viagem para o aeroporto é feita num modo descontraído, cinquenta minutos de voo e Pipoco está de novo na sua cidade, liga o telefone e tem uma mensagem de um amigo em desespero, parece que a mulher não sei quê, Pipoco resolve jantar com o amigo, que acaba por interiorizar que as coisas são como são e vai para casa mais apaziguado, é uma hora da manhã e Pipoco está a caminho de casa, numa rádio qualquer passa o Halellujah que não é de Cohen, Pipoco pensa que deve ser um sinal, como sempre, Pipoco não sabe que sinal será mas isso não é importante, nada é importante a não ser que são duas horas e Pipoco está em casa, não sem antes quase ter atropelado um mocho encadeado pelas luzes no meio da estrada, Pipoco fica feliz por ter evitado o passamento do mocho e pensa que é capaz de ter sido a coisa mais útil que fez no dia.

25 comentários:

  1. Olha, e já te ocorreu que falas à cromo da bola? Tanta finesse, pá, tanta finesse e tratas-te na 3ª pessoa. Olha que francamente...

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  2. As coisas cansativas de enfadonhas que uma pessoa tem de fazer para ganhar a vida, não é? (não era voluntariado, pois não?) O que lhe vai valendo são os momentos que passa aqui connosco, aposto.

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  3. após o 'delta', ainda perdido entre a 'pen' e 'nairobi' (prolixo atrapalha-me), informo:

    pc/pad/lap/etc. -> servidor (chamam-lhe cloud agora, como se tivessem reinventado a roda) -> 'metro' -> avião -> uma coisa parecida com um 'metro' -> seminário -> sorriso -> telemóvel (eufemismo, refiro-me àquela coisa pequenita que só não tira café e dá para fazer chamadas) -> servidor -> telemóvel -> pigarro -> telemóvel -> projector (e.g. hdmi) -> aplausos e sorrisinhos (ia qualificar mas abstenho-me) -> fast-rewind (ainda não li até ao final...)

    a 'pen' está a entrar na era 'floppy'.

    o Ruben? esteve de férias?

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  4. Pipoco, fofo, altere lá o necesitar para necessitar que estraga logo o texto todo.

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  5. Anónimo1.11.13

    Bravo, bravo!
    Muito melhor ler um desenbuchar destes que ver um filme de acção ou sem acção, normal. Mais divertido e muito tempo poupado.
    :)

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  6. Anónimo1.11.13

    Isa tem toda a razão! este sr. acha-se o máximo

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  7. Anónimo1.11.13

    Só isso em aprox 21 horas? Pfffff.

    Uma mulher

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  8. Anónimo1.11.13

    Acha-se um charme? Eu detestaria um homem assim... Só serve para solitário.

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  9. Gostei da descrição, gosto do personagem que vem construíndo por aqui. Não lhe invejo a rotina ;) Quando tinha uma rotina um pouco nada mais semelhante, a minha música antes de entrar em combate era Low Rider dos War.

    E por mim, pode até falar de si na 3ª pessoa do plural, que não me dá cócegas.

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  10. Que belo dia e como compreendo o caro Pipoco, apesar de só ter tido alguns dias assim e não como rotina. Há algo de extremamente melancólico nas viagens rápidas de trabalho, nos aeroportos, nos hotéis, nas refeições em trânsito, nos pequenos mimos como uma garrafinha de whisky no minibar ou a simpatia de uma hospedeira (excepto em tripulação reduzida). Uma pessoa sente-se como um fantasma que deambula meio perdido numa engrenagem muito bonita, porque em parecendo que não, para falar à Pipoco, é bonito este mistério da economia a rolar e de, onde quer que se esteja, haver apresentações e pessoas alérgicas a apresentações e assistências sonolentas que estão sempe em pânico de apanhar uma valente seca.

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  11. O sinal... o sinal era a sobrevivência do mocho!

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  12. Ufffffff... cheguei ao fim a arfar. Só conheço outro blogger que consegue escrever assim, saramagueando. Grande post.

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  13. ... ainda sem ter terminado, atrevo-me a conjecturar o seguinte suponhamos:

    1) ninguém percebeu nada, passe a dupla negação
    2) foi tudo pelo Cohen, esse Trovador
    3) é um dia do Tio visto pelo Ruben com os olhos (e o resto) emprestado por aquele, o Tio, espero que com devida autorização e sem excessos
    4) a proposição n.º 3 opõe-se às hipóteses de o Tio:
    4.1 - ser jogador de futebol (embora a torre das antas inicialmente me tenha iludido)
    4.2 - estar acometido por sintoma dissociativo ou miasma neuro-degenerativo
    4.3 - dirigir-se a si próprio como um Monarca (seria no plural Nós, Eu(Ele) e Deus suponho, nunca na 3.a pessoa
    5) o amigo Salgado deitou-se na sua merecida sesta e sonhou uma outra vida, na qual encarnava mocho
    6) substâncias ilícitas, hipótese que repudio veementemente

    ... ou, como diria uma insigne escritora, 'sei lá!'.

    p.s. mas sei (ou imagino):
    - que a Palavras não gosta de Cohen
    - que é melhor não irritá-la
    - que as rápidas de trabalho até podem ser moderadamente prazerosas
    - que as memórias flash actualmente se perdem num buraco de agulha
    - que o fantástico post me recordou Bolaño
    - que estou a usar demasiados que
    - e que um mocho tem um melancólico simbolismo...

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    1. ...mas o Halellujah do Cohen é bonito, vá. E eu também gosto de Saramago. Tenho um livro autografado, com dedicatória, que deve valer uma pipa de massa no ebay.

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  14. Anónimo2.11.13

    Para dizer com franqueza o que me choca mesmo muito é toda esta Alleluia , que devia ser um Requiem por um feriado finado !
    A terceira pessoa não acho desapropriada.
    Boa noite a todos

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  15. Ao ler isto senti-me a fazer dieta: com vontade de desistir a cada cinco segundos.
    Que coisa aborrecida, Sir...

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    1. Mas resistiu a ler a coisa até ao fim?....

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    2. Dias Cães2.11.13

      Tive de ler, não é?!
      Que eu sou uma pessoa de fé e acredito sempre que a coisa se pode salvar no último segundo.
      (Mas não salvou... Desculpe lá)

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    3. Está enganada. O mocho salvou-se...

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    4. Dias Cães2.11.13

      (É Sábado. Sábado à noite. E uma pessoa finda-se aqui. Fala de mochos e finda-se. Está a compreender bem o fim infeliz que aqui se desenhou? Não. o mocho não se salvou)

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    5. A única pessoa que aguentou ler até ao fim não apreciou. Estou desolado.

      (assentas é com dois ésses)

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    6. Dias Cães3.11.13

      Deve estar.

      (isto corre-me sempre mal, é o que é)

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  16. Anónimo3.11.13

    Saber apreciar que a única coisa útil que fez foi não passar um mocho a ferro, depois de um dia a levar anestesias sociais, é digno e até nobre.

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  17. Teleconferência é muito mais "verde"e menos cansativa que avião para Madrid, não precisa de se levantar a essas horas pornográficas e pode degustar o seu próprio cafezinho platina enquanto ouve a apresentação em prezi. Qto à pen já lhe explicaram que é da idade da pedra e que pelo computador ligado ao projector terá acesso quiçá até a entrar no seu pessoal. Sobre o halleluijah, a versão da moda é a cover daquele parolo do rufus e toda a gente sabe que a única cover de jeito, até melhor que o original em duvida, é a do buckley. De nada.

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