03 junho 2013

E foi assim que tudo se passou

Estava eu em doloroso processo de habituação à ideia de o Luís Sepúlveda ter abalado antes da hora em que eu me desembaracei de coisas cá minhas e cheguei à Feira, é certo que já passavam cento e vinte minutos da hora anunciada para o autor terminar a sessão de autógrafos mas eu sempre me habituei a que esperem por mim quando me atraso, estava eu nesse processo de ter que me habituar à ideia de não ter uma dedicatória escrita num livro comprado de propósito para ter dedicatória, "Para Palomito de Maíz Más Salado, un amigo de siempre, gracias por todo, Luis Sepúlveda", e depara-se na minha visão periférica com um ror de pessoas, livro do José Luís Peixoto na mão, havia mesmo uma senhora com este último, o da Coreia do Norte, ainda estive para ir aconselhar a boa senhora a trocar de livro, escolher o "Cemitério de Pianos" ou mesmo o "Livro", e havia um ror de gente porque uma senhora de idade insistia em contar ao bom do Zé Luís a sua própria experiência coreana, eu sei que o tema era este porque a senhora de idade falava muito alto, como se quisesse que todos nós tivéssemos acesso em tempo real à mesma informação do Zé Luís, e as pessoas à espera, e a senhora a contar a história, e o Zé Luís a olhar pelo canto do olho para as pessoas da fila, como que a pedir perdão pela espera, as pessoas da fila a sorrir um sorriso cúmplice para o Zé Luís, a senhora a gesticular, entusiasmada, finalmente o Zé Luís a levantar-se e a estender a mão para a senhora de idade, a senhora a exigir um beijo repenicado ao Zé Luís, e um abraço, o Zé Luís a mandar avançar a próxima pessoa da fila, a senhora de idade a não se afastar, a ficar ali à beirinha da mesa, o Zé Luís a fazer um gesto interrogativo, se a senhora de idade estava precisada de mais alguma coisa, que queria atender em condições a jovem rapariga que estava defronte dele, a senhora de idade a anunciar, impante, "essa é a minha filha, também esteve na Coreia, ela conta-lhe o resto", o Zé Luís a mudar de cor, as pessoas da fila a sentarem-se no chão, antevendo que longa seria a espera, eu a agradecer aos meus pais terem-me obrigado a estudar, para não ter agora de assinar livros a senhoras de idade na Feira do Livro.

9 comentários:

  1. Perdida de riso. O escritor runner nao correu dali pra' fora?

    ResponderEliminar
  2. E deu para comprar algum livrinho naquele bonito recinto? Aquilo é só pessoas de qualidade por lá.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Meu caro Ricardo, deu-se mesmo o caso de fazer compras num certo stand e, acredite ou não, ocorreu-me que aquele era o "seu" stand

      Eliminar
    2. De quando em vez é o "meu" stand, e quando quiser um livro autografado, sem riscos de atrasos ou desencontros, é só pedir.

      Eliminar
  3. «"Para Palomito de Maíz Más Salado...»

    IMPAGÁVEL! Sir Pipoco, Muchas Gracias!

    ResponderEliminar
  4. Sin embargo, Luís Sepúlveda no esperó por toda lá história de Corea, Y se marchó. Ahora como ficaram Maíz Y Palomito ??? ... Señor, me mata de curiosidad!

    ResponderEliminar
  5. o Luis Sepulveda esteve na Feira do Livro de Lisboa? :O e nós aqui no Porto nem direito a Feira do Livro temos :(

    ResponderEliminar
  6. Anónimo4.6.13

    Não me parece, que seja a falta de estudos - e por analogia, a falta de intelecto- o que leva José Luís Peixoto, a assinar livros a senhoras de idade, na Feira do Livro, por falta de estudos...

    ResponderEliminar
  7. Eu agradeço aos meus pais terem-me obrigado a estudar, que assim tenho autógrafos do Luís Sepúlveda na minha mesa de trabalho.

    ResponderEliminar