05 julho 2017

Focando-me

Se algum valor ainda tiverem as minhas recomendações, Ruben Patrick, eu sei que têm, era apenas um exercício de redução ao absurdo, evita as mulheres da tipologia "From Dusk Till Dawn", para ti é o "Aberto até de madrugada", a coisa começa de maneira favorável, há ali coerência e uma narrativa alinhada, um esboço de perfeição, o problema é que a partir de determinado momento crítico, sem que ninguém entenda exactamente porquê nem onde, a coisa perde o rumo, de um momento para o outro as mulheres semi-nuas e de generosas curvas lá do bar transformam-se em monstros desfigurados, bem sei que Tarantino aviou vinte shots de absinto e outros tantos de grappa e a seguir foi gravar a segunda metade da película, mas foca-se no essencial, e toda a gente sabe que o essencial é invisível aos nossos olhos, é Saint-Exupery quem o diz, não sou eu, para mim e para todos os homens de bem o essencial é precisamente o que está defronte dos nossos olhos, olhos que não vêem coração que não sente, lá diz o povo e o povo é sábio, as coisas são como são, podes não crer no que te digo, mas ainda agora estava a pensar nos cheiros da minha vida, nada dessas bizarrias de relva acabada de cortar ou da terra acabada de receber uma chuvada das antigas e afinal...

10 comentários:

  1. Más experiências na margem sul deixam-nos filosófico-melancólicos.

    Pensei avisar, logo que vi a foto, mas ocorreu-me "ainda não sou presidente da república para estar cá com avisos, nem nadador salvador, e D. Pipoco sabe olhar por si, ele e os seus 4 guarda costas ex spetsnaz".

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  2. Lady Kina5.7.17

    Ruben, o que o teu tio quer dizer mas parece não chegar-lhe a língua é o que me dizia a minha avó muitas vezes: "quem não tem competência não se estabelece".

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  3. Anónimo6.7.17

    Só quem não se focar na essência deste texto, não lhe vislumbra a grande beleza e sabedoria; por isso, Ruben Patrick, crê em tudo o que te ensina o Tio, excepto esta parte: "...para mim e para todos os homens de bem o essencial é precisamente o que está defronte dos nossos olhos"...
    Aqui, o Tio baralhou-se um bocadinho. Os homens de bem acreditam no que se não vê, porque está mais além...de resto, tudo bem.

    Tia Katryna

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  4. Cláudia Filipa6.7.17

    O que penso ter sido o problema de Saint-Exupéry com essa frase, Pipoco, é o que acaba por acontecer-nos a todos quando tentamos resumir uma ideia, ou uma data delas, numa única, e não esquecer que, aquele livro, que eu penso ser mesmo um tratado sobre "o essencial", foi escrito para crianças, Exupéry terá simplificado. Repare, (sim, eu sei que repara, mas), por exemplo, "Apresento-vos o Francisco, mais um amigo com quem vão poder brincar", agora imagine este tipo de reacção, "O Francisco é gordo, o Francisco é gordo", "olha o badocha", se a criança Francisco já for forte o suficiente para não ficar encolhida a um canto e acabar por ir cativando os outros, por exemplo, imagine que já é um verdadeiro Principezinho em termos de carácter, terá fortes possibilidades de vir a tornar-se, o amigo Francisco, e, "gordo", quando muito, passará a "arremesso" carinhoso, em vez de agressivo, e é então, que Exupéry simplifica, para dizer às crianças e às criançolas, que ser gordo não é o essencial sobre o Francisco, mas é claro que tudo isto aconteceu ali, defronte dos olhos de todos, a percepção foi possível porque o Francisco estava ali, mostrou-se, ele e as suas atitudes, o que foi possível apreender do Francisco foi sendo apreendido aos olhos de todos, tivesse ficado o Francisco a um canto encolhido após a primeira investida dos outros meninos e continuaria a ser um Principezinho em termos de carácter, mas ninguém tinha dado por isso, o essencial do Francisco ficaria mesmo invisível aos olhos e isto não aproveitaria a ninguém. Da mesma forma que se a personagem representada pela Salma Hayek, (só vi o trailer), tivesse ficado calada, a personagem representada pelo George Clooney, provavelmente, continuaria encadeado pelas suas curvas e não teria sentido aquela vontade de fugir dali o mais rápido possível, sim, depois daquela passagem de bela a monstro, aconteceu ali, bem ali, em frente aos seus olhos. Da mesma forma que o que me ocorreu ao ler este seu texto, e estou agora a escrever, tem por base aquilo que posso percepcionar do que me permitiu ler, mais do que isso não consigo, por não saber o que iria na sua cabeça quando o escreveu, pela mesma razão, sou incapaz de interpretar essa ligação/associação, só lá muito sua, aos cheiros.
    (sim, já disse, mas vou repetir, este seu tipo de textos, gosto deles a valer)

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  5. ahahahahahah
    acabo de descobrir o From dusk till dawn no Imdb
    ahahahahahah

    pobre Ruben, evita as drogas.

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  6. No seguimento da leitura do comentário da Cláudia, e do seu post, claro, queria lembrar outras duas pérolas d'O Principezinho. Uma é a da flor que pergunta a que horas o menino virá visitá-la, para poder começar a ficar contente com antecedência, a outra é a do bêbado que bebe para esquecer que tem vergonha de beber. Isto de cabeça.
    Diverte-me, caro Pipoco, a sua embirração com esta obra de Saint Exupéry (que parece ser a fingir, mas não dá para ter a certeza).
    E depois lembro-me de referir o cheiro a lareira que emanava do xaile da sua avó.

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  7. Lady Kina7.7.17

    Descobri tarde demais que ao conselho da minha avó havia de empregar inclusive naquelas situações de descoberta de belos monstros, pelo menos enquanto despreparada para o traumatizante momento em que hão-de transformar-se em homens nus...

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  8. Cláudia Filipa7.7.17

    Ah! Claro! Acho que já percebi a ligação que fez aos cheiros, e foi depois de ter lido o comentário da Susana, foi mesmo. É fazer o mesmo tipo de raciocínio para a frase: "Olhos que não vêem coração que não sente", que para a frase:"O essencial é invisível aos olhos", uma ideia transforma-se em chavão, e um chavão pode ser bastante redutor e, por vezes, não traduzir de forma nenhuma aquilo que se passa na realidade, por exemplo, pegando no que a Susana disse, quando recorda "o cheiro a lareira que emanava do xaile da sua avó" os seus olhos não estão a ver, mas o seu coração, de certeza, estará a sentir.
    Susana, também sem certeza nenhuma claro, mas parece-me que a embirração do Pipoco terá mais que ver com chavões que toda a gente repete sem pensar muito neles e que se tornam verdades absolutas e depois, bem vistas as coisas, uns, sem serem um pouco mais aprofundados ficam muito incompletos e outros, serão válidos para algumas situações, mas em relação a outras, acabam mesmo por não traduzir de maneira nenhuma o que se passa na realidade. Talvez o problema esteja na descontextualização. Se não for nada disto, o Pipoco que escreve, dá-nos mote e depois permite que estejamos aqui à conversa, bem merece, pelo menos, ficar a sorrir com tanto acerto ao lado...

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    1. A sorrir e a fumar aquele Cohiba dele que só lhe faz é mal (manter-nos-emos alerta para novo mote, evidentemente, Cláudia).

      (tu devias ter sido uma boa psicóloga, devias devias)

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  9. Anónimo8.7.17

    Olá, tio! Tinha muitas saudades de vir até aqui.
    Agora que já li este conselho maravilhoso e que me deixou a pensar em todas as escolhas erradas que poderei ter feito na minha vida em matéria de vampiros.

    Tio mais lindo do mundo, não queira que a juventude troque um momento de beber cerveja que escorregou pelo corpo voluptuoso de uma mulher por sensatez. Somos humanos, tio, só humanos.

    Fica-nos o que é próprio da idade e de cada idade, e é tão bom que assim seja.

    p.s. - Bebia uma Corona, só porque sim (da garrafa, claro).

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