16 junho 2017

Dos objectos que nos sobrevivem

Questiona Don Xilre, aqui na casa de Capitã Cuca, ide ver, se os objectos que nos sobrevivem serão os mesmos objectos que eram quando eram nossos. Não são. A pedra de lava de um vulcão, uma pedra mágica que carreguei por mais de muitas milhas marítimas, não será mais que uma pedra sem préstimo, preta e leve, no caso improvável de eu afinal não ser imortal, alguém se encarregará de a colocar nos caixotes de lixo indiferenciado, sem cuidar do quanto acariciei aquela pedra só por me ser agradável ao tacto, e aos riscos acrescidos que corri quando a transportei vulcão abaixo, onde cada grama a mais faz diferença. A minha colecção de cartões de hotel que dizem "Do not distrurb" irá para o contentor azul, quem nunca esteve naqueles mais de setecentos hotéis, and counting, não lhes achará préstimo, por não ter estado lá, por não saber que o "do not disturb" é o verde código verde para se entrar na minha vida. E os meus livros, que só eu sei o que me ensinaram, o que senti enquanto os lia, só eu recordo se os li devagar por necessitarem ser digeridos em suaves prestações ou depressa pela urgência de saber afinal como tudo se encaixaria no final, serão só livros normais, desses que quem sabe de livros dirá se são bons ou maus, agnóstico ao facto de alguns bons me terem parecido maus e muitos maus me terem parecido razoáveis.


12 comentários:

  1. Nunca me senti tão de acordo com alguém como me sinto neste momento consigo, caro PMS.
    Um dia, quando eu for cinza, pó e nada, a quem irá interessar os objectos que me sobreviverem e me são tão queridos, aqueles que guardam bocados de mim, das minhas doces vivências? A quem interessará o primeiro romance que comprei com o meu próprio dinheiro, amealhado escudo a escudo e andei a namorar meses a fio, na montra de uma livraria de uma cidade do interior? Tanta coisa que faz parte de mim e só para mim tem valor. Não tenho dúvida alguma e isso dói tanto; o seu destino será o interior lúgubre de um qualquer contentor.
    Porque vim hoje aqui? Para me entristecer (ainda mais?)
    Maldito masoquismo...

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  2. E quando guarda uma pedra e anos depois já não faz a mínima ideia de onde veio? Os livros não se perdem, pelo menos de uma geração para outra. E achei muito original os do not disturb e a associação ao verde código verde, boa metáfora, bom dia :)

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  3. e de As Pessoas que nos Sobrevivem, no sentido de estarem melhor sem nós?

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    1. Esse é um pensamento terrível. Mas será que nos sobrevivem mesmo, ou carregam com elas uma parte de nós de que até podem não se aperceber?

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    2. sempre, e no entanto vivem melhor.

      é um pouco como remover o apêndice. fica a memória, e a nova experiência de uma vida mais agradável na ausência da coisa ruim.

      pode sempre haver felicidade definida pela ausência. uma felicidade quase tão completa quanto aquela outra que nos inunda com a presença, e certamente um pouco menos ilusória.

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  4. Há um conto de Borges no qual duas espadas (ou facas, não sei) lutam uma com a outra, usando-se das pessoas que por acaso estão ali por perto delas. Essa pedra de lava, por exemplo, já nunca mais poderá ser apenas uma pedra de lava porque agora tem uma história que lhe foi dada por si.

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    1. Lady Kina16.6.17

      Eu cá acho que uma pedra é sempre só uma pedra, aliás, só é uma pedra porque é assim que lhe chamamos. Creio que à pedra do Pipoco é em absoluto indiferente a história que, supomos, ele lhe acrescentou. Pode é não ser só uma pedra PARA o Pipoco, mas com isso já a pedra não tem a ver. E acho que aprecio cada vez mais nos objectos, precisamente, o respectivo mutismo e natureza estática, a desumanidade que os constitui, na medida em que me vou distanciando de todas as histórias que poderíamos inventar-lhes.

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  5. Cláudia Filipa16.6.17

    Pois é, os objectos, bem mais imortais que nós, perdem as quantidades de subjectividade que acrescentamos à sua simples objectividade, mas sabe, gostarmos muito de certas pessoas, pode ter como consequência acrescentar à nossa vida objectos que não eram nossos, mas que guardamos como mais uma forma de conferir a essas pessoas a tal imortalidade que não conseguiram, mesmo que não saibamos as histórias que levaram a guardar determinados objectos específicos, pelo que sabemos da pessoa, podemos presumi-las, e então, passamos a guardar junto dos nossos próprios objectos, que guardam as nossas próprias histórias, aqueles objectos cujas histórias não conhecemos, mas que, de certa maneira, devolvem-nos, quando os olhamos, quando pegamos neles, um pouco daquelas pessoas que foram tão importantes para nós, que amamos.
    Estou certa, que mesmo não conhecendo as subjectividades que tornaram alguns dos objectos que guarda muito mais do que simples objectos, alguém os guardará, e o que irá estar guardado juntamente com esses objectos, não serão as histórias certas, mas será, sem dúvida nenhuma, o amor que lhe tinham a si, uma forma de continuar a tê-lo, guardá-lo na vida delas, da única forma palpável possível.


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  6. A Canção existe apenas no nosso pobre cérebro.
    O Valor não é intrínseco ao que quer que seja, e morre quando A Canção termina, que é, para O Indivíduo, o fim do seu Mundo, o único que alguma vez conheceu. E assim também A Pedra morre.

    E agora? Vamos Jantar?!

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    1. Lady Kina17.6.17

      Alguém que dê de comer a este homem, porra!

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    2. Lady Kina17.6.17

      E, onónimo, pela parte que me toca, casa-se a minha prima do LuxAmburgo nesse dia, mas sabe porquê? Porque aquela caricatura do "jantar de bloggers" que o Tio aqui rascunhou estará mais para o retrato do que outra coisa. As coisas são como são e as pessoas já não estão para aturar certas e determinadas.

      (vá passando por aqui, quem sabe nos cruzamos um dia, uns com os outros:

      https://scontent.fopo2-2.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/17757526_1277773412271910_3892355528771852740_n.jpg?oh=29e1e2aef4a1c061926a73f221a200a9&oe=59D0B6F1)

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    3. Até estremeço quando leio um comentário da minha garbosa Lady Kina, sempre sem saber se será dia de sofá, assustado pelos dantescos urls que tanto podem direccionar-me para a máfia russa como para a calabresa.

      Ultimamente interrogo-me se não estaremos todos a ficar como o Avó Marcelo, rapidamente avançando para um qualquer destino com a sensação de estar a fazer algo só por estar em movimento.
      Ou se estamos a ficar como o peixinho de aquário que esquece tudo aquilo que abandone o campo visual durante mais de um segundo.

      Mundo perdido.
      Vamos lá casar a rapariga.

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