11 dezembro 2016

Aznavour (*)

Na viagem de regresso a casa, depois de Aznavour, tive uma necessidade absoluta de escutar as músicas tal como eu as recordava, uma espécie de apaziguamento pela constatação de Aznavour já não as cantar límpidas, pujantes, fortes, uma necessidade de um Aznavour que não evitasse os tons altos, de um Aznavour sem tremuras de mãos, de um Aznavour que não fosse periclitante nem quase frágil, depois dei por mim a pensar que não é todos os dias que se assiste a um concerto assim, um homem que já era antigo quando eu nasci conseguir encantar-me durante quase duas horas, que não cantou à boleia das senhoras dos coros, que explicou que aquele aparelho nos ouvidos estava ali porque já não ouvia em condições, que apelou à nossa generosidade e nos contou que era possível que os olhos se fixassem no teleponto porque talvez não recordasse todas as letras, um homem que está ali tal e qual, ciente de que a idade não perdoa mas os artistas a sério só param no último dia, nem um segundo antes, e decidi então ouvir um concerto de há pouco mais de um ano, um Aznavour de agora, um mito que se aplaude de pé.

(*) o tal sinal...

20 comentários:

  1. "um homem que está ali tal e qual, ciente de que a idade não perdoa mas os artistas a sério só param no último dia, nem um segundo antes" adorei :)

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    1. Na verdade, os artistas são todos assim, não se reformam, exercem a sua profissão até ao último dia, veja Pomar, Eunice Muñoz, Manoel de Oliveira, talvez seja porque aquilo que são é também aquilo de que vivem.

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    2. Sim, e porque é mais forte do que eles... A criação toma o criador, embora este decida em que termos a apresenta ao mundo.

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    3. Creio que é um pouco por aí. Eu sou eu e tenho a minha profissão, que é algo que não me define. Um artista é a sua profissão.

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    4. com certeza, ser artista é parte da identidade.

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  2. Como Amália, já passado o pico da voz, ou José Afonso, no concerto derradeiro. Ou Patti Smith, na cerimónia do Nobel, em lugar de Dylan. Mas o meu álbum favorito de Billie Holliday é o penúltimo que gravou, já muito longe do auge, a voz à beira do abismo, a vida já passado o limite do precipício. A voz já lá não está mas, pela lei das compensações, a alma avivou-se, ganhou a cor que só o tempo dá.

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    1. Precisamente. É outra maneira de interpretar as velhas canções, senti-me um desperdiçador, a precisar de escutar as versões dos anos sessenta quando tinha acabado de ter o privilégio de as ouvir com patine.

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  3. E isso do sinal que bizarria é?

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    1. Cuca, é confidencial. Se lhe dissesse teria que a matar a seguir.

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    2. Pelo sim, pelo não, vou copiar isso. Não se vá dar o caso de ser uma moda e eu não estar a segui-la...

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    3. (Cuca, é um ponto final despenteado, toda a gente sabe)

      Ou seja, uma espécie de estilo.

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    4. Nunca se sabe, Susana...
      Pode ser uma sinalética para indicar, por exemplo, o local de descarregamento de diamantes...
      Coisas que não sabemos o que são, à cautela, também queremos ter!

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  4. Anónimo11.12.16

    Apaixonei-me definitiva e perdidamente por Aznavour na ultima entrevista que passou numa das nossas televisões. Os homens antigos e sabedores das coisas da vida serão a minha perdição...

    (um asterisco??)
    sc

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  5. Quando é a alma que canta, a voz é mero acessório.

    Boa tarde Sô Pipoco

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  6. Ficamos presos às canções mais antigas de Aznavour, essas que conhecemos na voz dos anos sessenta e setenta, mas acabamos por nos surpreender(e a surpresa é boa) com a vitalidade das canções de hoje... Eu senti assim.

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  7. Inteiramente de acordo, caro Pipoco.

    "...um Aznavour de agora, um mito que se aplaude de pé."

    Mais palavras, para quê?


    (*) este é o tal sinal...

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  8. afinal não e descabida aquela ideia de a idade trazer a sabedoria na lapela.

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  9. Anónimo12.12.16

    bravo...aplaudo este post do tio...de pé,
    vw

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  10. Um senhor, ou melhor dois, um a cantar o outro a escrever posts como este.

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  11. Pense que o Senhor tinha 15 anos quando começou a II Guerra Mundial.
    Calculo que para si tenha sido muito especial que ele fechasse o concerto com Emmenez-moi.
    Beijinho.

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