27 setembro 2016

Há um país...

... a menos de dez minutos de um nó da autoestrada que sai de Lisboa e chega ao Porto, ou vice-versa em sendo por volta da hora do jantar, onde há sítios que nos apresentam pão acabado de sair do forno, mas forno mesmo a sério, desses que queimam restos de madeira das obras, onde nos servem queijo sem plástico protector nem rótulo a dizer que aquilo foi convenientemente esterilizado, onde se pode escolher entre cozido com tudo aquilo a que se tem direito ou mais nada, onde a senhora que serve às mesas nos trata por menino e se ri só com dois dentes quando dizemos que o vinho da casa é um néctar melhor que muito vinho francês, e não é, onde nos servem couves com sabor a couves e batatas com sabor a batatas, onde o dono da casa nos oferece aguardente de medronho do ano passado que acompanha o café de uma marca que eu pensava que já não existia, onde as sobremesas têm nomes daquilo que realmente são, onde a conta se faz no papel da mesa e se arredonda para um valor certo.

É um país que se suporta uma vez por ano. Duas, vá...

31 comentários:

  1. Anónimo27.9.16

    É desse país simples e autêntico, que o Doutor Pipoco suporta uma vez por ano, duas, vá...( com muito boa vontade ) que eu gosto e me orgulho de pertencer. Mas isso, sou eu, uma pessoa simples. Quando mostro algum dos muitos livros que possuo, de GGM, não os exibo, com pompa e circunstância, (leia-se vaidade) em cima de um bruto carrão...
    Isso é coisa de 'novos-ricos', meu caro!

    JM

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    1. Anónimo27.9.16

      Lembrei-me e vim a correr...Antes que venham por aí as guardiãs da boa reputação do Doutor Pipoco, armadas até aos dentes.

      Aquilo do post anterior, eu sei que foi tudo para dizer a letra com a careta, que é como quem diz, a cor azul dos olhos do cão de GGM, da cor azul bebé do carro e dos olhos do proprietário do mesmo. Ufa!! Espero ter-me livrado a tempo...

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    2. O pipoco agora conduz uma mesa?

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    3. O Aladino conduzia um tapete!

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    4. Lady Kina27.9.16

      ahahahahahahahahahahahahahah

      (e é logo uma BM(de Mesa)W! )

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    5. Mas agora é para trocar as nossas potentes viaturas alemãs por mesas? E tem de ser uma mesa específica ou pode ser um modelo à nossa escolha? E qual é a média que a mesa deve cumprir dos 0-100 km? Por favor, Pipoco, não me deixe inquietação...

      (era muito importante para mim esclarecer esta questão...)

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    6. onónimo27.9.16

      tem de ser mesa de esplanada. a mesa da sala, por exemplo, não é adequada - necessita de carta de pesados de passageiros.

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    7. Anónimo27.9.16

      Ehehehehehehe
      Esta teve montes de piada. Gostei!
      Só pode ter sido de alguém que eu cá sei...

      JM

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    8. Anónimo27.9.16

      Ha fenomenos que nao se explicam....o Pipoco come um cozido com tudo a que tem direito e ha uma pessoa, que nao o proprio, a quem o cozido provoca azia...o Pipoco bebe o vinho da casa e outro,que nao o proprio vê carros onde há mesas...

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    9. Anónimo27.9.16

      Se não se explicam, vai ver são do Entroncamento!!

      Também comi cozido à Portuguesa, no domingo, ( confeccionado por mim ) com tudo o que tinha direito e não me fez azia, sabia?
      Tão pouco me fez o do Doutor Pipoco...

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  2. A última vez que vi isso num restaurante foi em mil novecentos e noventa e qualquer coisa, onde todos os fins-de-semana pedia molho de manteiga para febras e aquilo parecia-me divinal na altura, as sobremesas idem (devido à minha idade dispensava o vinho e o bagaço/aguardente).

    Agora na praça onde vou ao pão, peixe e fruta/legumes é tudo assim, em caneta e papel e onde as coisas sabem ao que são.

    Mas será seguramente daqui a uns anos um mito urbano.

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  3. E que bem se come, nesses sítios, e que bem me sinto no meio de gente com sabor a gente de verdade, não dessa com invólucro de plástico e pasteurizada :))

    Bom dia Sô Pipoco

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  4. Duas, no máximo. Mais do que isso já requer uma desparasitação estomacal que não é a brincar e que faz o motivo pelo qual tivemos de passar por esse doloroso processo parecer pouco valioso.

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  5. É um pais que está a desaparecer...
    ...pergunto-me é como e porque é que conseguimos suportar o resto que está à volta desse país...

    :)

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  6. Cláudia Filipa27.9.16

    Agora fez-me ter vontade de dizer tanta coisa... pronto, vai sair um comentário enorme (Pipoco, por favor, não se iniba nunca de puxar-me as orelhas se tanta tagarelice for demais)
    Fez-me lembrar as histórias reais que os velhos que tanto gosto de ouvir foram-me contando, o tal tempo da autenticidade, dos genuínos, dos pobrezinhos mas felizes, o tempo em que as meninas desse país de que fala iam trabalhar, muitas com apenas seis/sete anos, a maioria com doze, como empregadas domésticas internas para a casa da meia dúzia de portugueses que podiam conhecer vários néctares do seu próprio país e do resto do mundo, os meninos iam trabalhar para o campo ou onde existisse trabalho e todos comiam o que o campo dava em cada época do ano das mil e uma maneiras de fazer aquilo. Fez-me lembrar a tristeza por não saberem ler nem escrever, ou por só terem tirado a segunda classe, ou quando chegavam à quarta, que já era um luxo, a professora dizer que era uma pena que não continuassem, que podiam ter um futuro brilhante, mas não podia ser, tinham de ajudar os pais (e na altura, em muitos casos, a resma de irmãos) e mais uma vez o tal sorriso triste pelo que não foi possível acompanhado do tal "é a vida", estou a lembrar-me dos Xutos, "o meu país não deixou", parece que na altura não deixava mesmo, mesmo à séria, para a maioria...
    Os sorrisos são de uma ternura que apetece abraçar, pelo menos a mim apetece-me, já os vi só com um dente, com nenhum e a maioria já com a "modernice" da prótese dentária, é que ir ao dentista era coisa de tal forma luxuosa que também era só para a tal meia dúzia que os contratava para criados, em crianças, praticamente a custo zero, também me contaram que era normalmente o barbeiro da zona que cumulava funções e fazia o biscate de dentista.
    Era o país da falta de hipótese de escolha, sim, tinha essa vantagem da delicia dos produtos vindos directamente da terra e aperfeiçoados pelos saberes da confecção sem artificio plastificado que iam passando de geração em geração com que nós, parece que actualmente, mesmo assim, em grande número, que vamos ao dentista desde que temos dentes e que andamos na escola tão mas tão para além da quarta classe e que já vivemos com leis referentes a isso do trabalho infantil, nos deleitamos.
    Mas sim, ainda há tanto daquele outro país, ainda há o país que pode escolher e o que não tem alternativa, ainda há o país que faz iguarias artesanais por opção, por preservação desse enorme valor e ainda há o país sem dentes que o faz por não ter tido hipótese de escolher outra coisa, este último custa-me um bocado suportar que ainda exista, mas tenho esperança de que cada vez exista menos desse país, do tal que não conseguiu escolher, mesmo que a contrapartida seja uma comida com menos sabor.

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    1. Anónimo27.9.16

      Já dizia o RAP e com carradas de razão:-"Eles falam, falam, falam, mas eu não os vejo fazer nada".

      Eu digo: Tanta conversa e tudo espremido não sai nada...
      Nem sempre os extremos se tocam, em termos comparativos.
      Vou à vida que eu não estou a bloggar no posto de trabalho...

      JM

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  7. onónimo27.9.16

    GGM, RAP, JM, AV, CSI, NCIS, PJ, MRS (tb presidente), ANPC, CGD, OVI, AIC,...

    ele são tantos acrónimos que não se percebe o que quer que seja.

    confesso. no meu caso mostro os livros aos amigos a crepitar na lareira (os livros). todos concordam que com chama púrpura são livros muito bonitos. também existe consenso acerca dos livros do JRS: a chama não é lá muito bonita mas duram e aquecem bastante. estão reservados para os dias mais frios.

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    1. Anónimo28.9.16

      A isto eu chamo ter sentido de fina ironia. Uma dádiva dos deuses atribuída a poucos mortais.

      Poderia explicar o significado dos acrónimos - aqueles que sei que desconhece - se soubesse ser isso de alguma importância. Não é. Até porque sei haver apenas uma sigla que desconhece.
      A propósito, lembro uma das regras da escrita profissional: apenas se devem escrever siglas ou acrónimos após a descrição das palavras por extenso.

      JM

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  8. Pipoco, leio com agrado o seu blog há muito tempo, talvez há mais do que 77 anos. Sei que tem agrado em provocar, é o lado snob, que tem muita piada quando se refere às futilidades de que a vida também é feita. Acho um piadão à sua queda pela literatura, ou melhor, pelos livros. Recordo-me agora que foi uma publicação semelhante a esta que despertou a ira de um tal Sr. Rentes de Carvalho, e embora eu não considere assim tanto o Sr. Rentes de Carvalho como o sr. o considera, compreendo que na altura a sua publicação lhe terá tocado numa corda íntima, muito profunda que só desenvolveu quem conheceu VERDADEIRAMENTE esse país. Não que o resto não seja também país, mas é-o como se de um avesso se tratasse. Esse país de que nos fala não deve ser tratado com a mesma leviandade com que se trata o último livro de um qualquer brincalhão dos livros, ou como o último fato que o pipoco estreou. E não vale a pena vir fazer penitência com textos sentimentais sobre o sentido da vida em geral e em particular, porque na verdade o pipoco, ao vir a esse país duas vezes por ano, está a enfrentar-se com o que não suportaria muito tempo diante de si, e o que não aguentamos muito tempo diante de nós sem sofrer é uma das possíveis definições do sagrado. É um mistério tremendo, e para cada um é diferente essa presença sacra. Por isso, Pipoco, quando for a esse país, em vez de achar que daria uma boa publicação de blog, sofra a sua parte, e reserve-lhe o silêncio de que for capaz.

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    1. onónimo28.9.16

      já ensinava Escrivá, aquela cruz negra é a tua cruz.
      imagino-a uma verdade, "pelo sofrimento do silêncio se expia o pecado da ironia".

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    2. Temos portanto que portugalidade é agora sacrossanta e desfaz-se uma linha da bandeira sempre que alguém fala sobre o assunto sem ter a gravata posta...
      É nova, está.

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  9. onónimo28.9.16

    que diabo meu caro, os colegas levam a sério tudo aquilo que o meu caro escreve. conte-nos o segredo. ser-nos-ia útil no trabalho, na discoteca e em outros locais de prazer.
    infelizmente, à minha modesta pessoa ninguém dá o devido crédito. logo surgem olhares enviesados que gritam "lá vem o chato".

    e aproveite para nos revelar "o sentido da vida", tal como o JRS faz nos seus livros do Tomás. certos colegas já compreenderam que o meu caro é aqui pródigo nestes assuntos. no entanto, para os mais densos como eu será necessário ser bem mais explícito.

    sempre grato, espero que o conhecimento nos ilumine e a verdade nos ofusque.

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  10. Anónimo28.9.16

    Credo, Doutor Pipoco, mas onde foi que o sr. se meteu?
    Venha a terreiro defender o seu direito à ironia, carago!
    Não me refiro a que venha interceder a meu favor, nada disso; eu cá sei desenrascar-me muito bem, acredite.

    Não deixe é que fique tudo ao cuidado do Caríssimo e sábio onónimo(?)
    Seu sortudo! Quem tem amigos desses nunca está só...

    JM

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    1. onónimo28.9.16

      caro JM, permita-me a correcção:

      caríssimo e sábio(?) onónimo.
      (prometo passar a fazer login logo após recomeçar pilates)

      Abraço.

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    2. Anónimo29.9.16

      Sinta-se à vontade, caro onónimo. Corrija-me sempre que eu errar. Passeio neste blog com um único objectivo: aprender.
      Quanto aos exercícios físicos para alisar o abdómen, não se preocupe, uma ligeira saliência abdominal é tão sexy...num homem, está claro.
      Não fique a pensar coisas estranhas, pense no contrário, no contrário...

      Um abraço.

      JM

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  11. Estou aqui sem perceber, se esses lugares são assim tão maravilhosos e se suportam mais de duas vezes por ano, qual será a estranha razão da desertificação e de o facto de as pessoas que lá vivem insistirem em trocar o idílio pelo horror dos centros urbanos.

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    1. Anónimo29.9.16

      Já que o anfitrião não mexe uma palha para esclarecer as mentes confusas, aqui vai: O tema focado não foram as terreolas; foi a gastronomia caseira e autêntica, a simpatia e honestidade igualmente autêntica dos seus habitantes e, principalmente, o arredondar das contas, feitas num pedacinho de papel, dizia eu, o arredondar das contas para baixo...
      Logo, tais paraísos, são óptimos para se visitarem e elogiarem, não para se viver, percebeu?

      ( quem passa a vida em pleno mar alto, a saquear todas as naus que se atravessam na sua rota, desconhece as minudências ocorridas em terra, cara Cuca, a Pirata. Não se amofine, isso é natural...)

      JM

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    2. Lady Kina29.9.16

      Já a mim, se é que me permitem o alvitre, deu-me para inventar outro tipo de leitura: por analogia, os blogues são hoje em dia espaços públicos aonde vamos se quisermos, e se não quisermos não vamos, acho que é assim o ditado. Que ainda os há em países muito próximos a palitar as escancaradas e intratáveis cremalheiras, trazendo-nos directamente dos seus fornos cujos ocultos interstícios sustentam desde há várias gerações incontáveis famílias de roedores, fumegantes e deliciosos empadões de carne a saber genuinamente ao jantar de há duas noites.

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    3. JM,
      Julgo ter percebido. Tanto que até concordei.
      O que não percebi foi a polémica, daí ter dito que se esses sítios fossem bons para se viver, mais pessoas aí viveriam.
      (Nós, os do mar alto, saqueadores de naus, alheados da terra, somos de muito difícil amofinamento...)

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  12. Cláudia Filipa29.9.16

    Para mim, a maravilha destes posts, é o potencial que têm para suscitar leituras diversas. Um post como este podia servir de exemplo para explicar como foi que o Pipoco Mais Salgado me cativou, não foram os lindos olhos que nunca vi, não foi o chique, não foi o snob, não foram os livros que lê, as músicas que ouve, as viagens que faz, não foi a potente viatura de marca alemã e por aí fora, não foi nada disso, foi a mestria com que faz isto de dar o mote, isto é que não é para todos, criar várias vias possíveis sem sequer revelar a sua própria visão das coisas, até pode parecer, mas só parece, conseguir com um post dar espaço para várias leituras mas sem induzir a, interessante e difícil isto de saber provocar reações sem ser por aquela outra via quase infalível que é a de ser-se apenas parvo. Também diverte-me pensar que, às vezes, quando induz a, até induz a uma visão completamente diferente da sua, mas isto sou eu a especular.
    Gostei muito de ler o comentário da/do T.C. embora não concorde nada, não concordo nada que este seja um tema sagrado, o que pode acontecer, de facto, é considerarmos um sacrilégio a forma como determinado tema está a ser tratado, mas não acho mesmo que tenha sido o caso, muito menos a intenção que já referi qual penso que foi, pura e simplesmente um post à Pipoco Mais Salgado e com outro tipo de critérios no que diz respeito a coisas sagradas.
    Vai ser mesmo uma pena quando este senhor de idade avançada, que escreve sempre o mesmo post, arrumar as chuteiras, as chuteiras de um número dez como existiram e existirão poucos, umas chuteiras dignas de um Rui Costa...

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    1. Lady Kina29.9.16

      Li hoje no facebook:

      “É instaurador de discursividade todo aquele cuja obra permite que outros pensem algo diferente dele.”
      Michael Foucault

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