03 janeiro 2015

Disto dos blogues

Lembro-me bem da primeira vez que percebi o conceito dos blogues e de quanto me maravilhou a ideia de poder escrever e de me deliciar com a ideia de desconhecidos me poderem ler. Lembro-me de usar a tecla de "next blog", que tanto me podia levar a um blog lituano já desactualizado ou a um blog brasileiro de amigos que partilhavam fotografias da última viagem, era incrível a sensação de estar ali a espreitar-lhes as aventuras, fascinava-me que alguém pudesse chegar ao meu blogue desse tempo, há quatro blogues atrás, e interessar-se pelos livros que lia, pelo que escrevia, em que as caixas de comentários eram uma espécie de salas de chat, com discussão em tempo real.

Lembro-me bem do primeiro comentário, de pensar como teria aquela pessoa chegado ali, que generosidade era aquela de perder tempo, o seu tempo, só para me dizer que sim que tinha lido e que desejava comentar o que eu (caramba, eu!...) tinha escrito.

Os tempos são outros, os blogues perdem terreno para outras plataformas, este é o tempo em que o objectivo de muitos que começam um blogue é ganhar dinheiro, é o tempo em que se perdeu a inocência dos primeiros tempos, é o tempo em que pensamos antes de publicar as nossas fotografias, em que protegemos os nossos sítios, em que publicamos em diferido, com filtros, em que temos estratégias para coisa nenhuma, em que as pessoas se zangam sem ser por debater ideias, em que se moderam comentários e se inibe a magia de argumentar, porque tem que ser assim, porque nunca se sabe quem vem, porque as coisas são como são.

(inspirado neste belíssimo post do Alfaiate Lisboeta)

14 comentários:

  1. É tudo extraordinariamente belo e humilde, mas uma palavrinha de agradecimento ao Scott Schuman (entre outros & outras) não teria decerto falta de cabimento. Mania da História, diria, eu.

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  2. O número de plataformas multiplicou-se, mas o mercado total – como sucede nestes casos – também: só o Tumblr comporta mais de cem milhões de blogs (e os blogs que de forma mais ou menos aberta se abastecem no Tumblr sem dar créditos, também explodiu).
    Como acontece frequentemente, também aqui, sobre o que era inicialmente um trabalho inteiramente voluntário, nasceu um modelo comercial.
    Mas se os artigos promocionais pagos fossem um bom modelo, a imprensa tradicional tê-lo-ia adoptado há muito. Não o faz, porque sabe que isso conduz à fuga dos leitores e à desvalorização rápida da credibilidade da marca. Imagine-se o que seria um Economist cair em tal tentação...
    A auto-publicação na Internet não vai desaparecer, os blogs não estão em risco, não faltam nem os leitores, nem as pessoas com capacidade de criar – apenas há uma evolução de plataformas, utilizadores, conceitos. Quem acha o Twitter, ou o Facebook limitados, criará um blog. A fluidez entre os meios tenderá a ser cada vez maior. Afinal, sempre haverá quem queira ler algo bem escrito, em formato curto. E, igualmente, sempre haverá quem aprecie escrever em tal formato. As plataformas são apenas “brokers”. E os mercados nunca foram determinados pelos intermediários.

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  3. Eu comecei o mey blog algures em 2008 so pq sim, pq sempre gostei de escrever e achei isto dos blogs interessantes. de repente escrever num blog passou a ter um nome: ser blogger e pouco depois passou a ser cool e ate uma profissao para alguns. Outros tempos :)

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  4. Sinto-te nostálgico de há uns posts pra cá, tudo bem?

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  5. A blogosfera democratizou-se e todos sabemos que há um mau, péssimo, sentido nessa expressão. Não há inocência que se mantenha depois de anunciados cursos para bloggers com módulos como a melhor hora para postar coisas e a forma de ganhar dinheiro com os blogues. Noutros tempos a ideia teria gerado uma onda de desprezo coletivo. Noutros tempos não haveria alma que linkasse ou frequentasse blogue comercial. Mas os tempos são estes e aparentemente as pessoas não apenas não se importam que lhes impinjam produtos de forma subreptícia como até gostam que o façam. A falta de qualidade dos blogues é rigorosamente proporcional à falta de qualidade dos leitores e não há razões para que a blogosfera, democratizada, não traduza a mesma mediocridade que já conhecemos da literatura que vende, dos programas de tv que rendem audiências, etc.
    A boa notícia é que, na blogosfera, como na literatura e como no resto, continuará a haver gente teimosa a fazer coisas com qualidade e a resistir a adaptar-se às fórmulas do sucesso rápido. São os mesmos que já cá estão há setenta anos e que vão continuar depois de passar a moda dos blogues.

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  6. Avançamos para uma sociedade onde a publicidade/marketing é cada vez mais feita/credibilizada pelos seus consumidores. É esta a democratização da Internet, a mudança de paradigma no poder da comunicação e em quem o detém. Não vejo mal nenhum em quem cria um blog para vender produtos ou serviços, de forma mais ou menos disfarçada, é uma estratégia tão válida (e trabalhosa) como outra qualquer. Quem quer lê, crê e compra, quem não quer, não o faz. O que não entendo é a urticária causada por este conceito, bem menos agressivo do que aquela publicidade infindável televisiva entre programas. Tanto desdém mais soa a inveja.
    Todos tentamos vender/trocar alguma coisa, tanto na vida, como na internet. Pode ser um creme anti-rugas, uma marca de sapatos, pode ser a imagem de que somos mais cultos do que os restantes, ou mais informados, ou quais os artigos de luxo que possuímos, entre tantas outras posturas exibicionistas.
    Quem realmente não gosta, nem sequer lê os tais indecoroso blogs comerciais e populares.

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    1. Essa forma de publicidade não é menos agressiva e é seguramente mais insidiosa. E é também desregulada. Não é à toa que existem leis específicas aplicáveis aos anunciantes que, desta forma, encontraram uma maneira de as contornar. A publicidade obedece a regras (regras que protegem os consumidores e a concorrência) e essas regras não são cumpridas nestes anúncios encapotados.
      No mais, os blogues comerciais não são um mal em si, são apenas um sintoma de um mal maior.

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    2. E acha que, quando a Cuca fala da sua mala Gucci, não está também a fazer publicidade?
      Tudo, numa sociedade, obedece a regras, que se vão renovando, consoante a transformação da mesma. Portugal pode não ser o maior exemplo, mas a coisa vai acabar por acontecer por cá também. O cidadão comum, através da internet, apercebe-se que pode ter (e tem) o poder de influenciar uma comunidade de leitores. Cabe a todos e a cada um, continuar a deixar-se influenciar por aquilo em que acredita e que prefere.

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    3. Citar esse post (onde é manifesta a falta de intenção de promover qualquer produto) revela "dificuldade em lidar maravilhosamente" com a honestidade intelectual. :)
      Do que estamos a falar é do exercício remunerado da atividade publicitária que também nos blogues está sujeita às normas do Código da Publicidade, e da proibição da publicidade não identificada como tal, que os blogues por sistema não cumprem.
      E de facto é como diz, de repente o cidadão comum apercebe-se que tem a possibilidade de influenciar uma comunidade de leitores. E o que faz? Aproveita essa possibilidade para lhes vender publicidade!
      Se há algum problema ético nisto? Provavelmente não, desde que se cumpram as regras e não se venda publicidade de forma encoberta. Se há razões para ter nostalgia dos tempos em que a blogosfera era um reduto de transmissão gratuita de ideias? Provavelmente, sim.
      Se essa urticária, como lhe chama (e que é só um certo sentimento de inocência perdida) muda alguma coisa? Com toda a certeza que não.

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    4. Não, Cuca, não tenho dificuldades em lidar com a sua honestidade intelectual, muito menos com a sua inteligência. Tenho problemas é em lidar com a hipocrisia e com o pedantismo intelectual, mas isso é cá um problema meu. O que lhe quis dizer, e reafirmo-o, e que todos nós, de uma maneira ou de outra, promovemos alguma coisa e eu não vejo mal nisso. Quando a Cuca contou uma história de um referido objecto de luxo, parte do que fez, mesmo que inconscientemente, foi promover (ou despromover) a referida marca. Poderá ter alterado comportamentos aos seus leitores.

      Felizmente o uso dos computadores, ao contrário das tv, é individual. Cada um de nós escolhe onde quer ir e onde quer regressar. E com tanta liberdade, admira-me como há tanta gente a criticar blogs que "supostamente" nem lê. Era só isso.

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  7. Cláudia4.1.15

    Fazendo uma comparação, as outras plataformas equivalem a fast food, enquanto que os blogues, representam aqueles sítios, onde vamos com mais tempo comer um belo peixe grelhado, os blogues que vendem coisas e que foram criados com esse objectivo, são a extensão desse conceito de fast food, chamam-se blogues, mas podiam chamar-se outra coisa qualquer, os seus autores ficaram a saber que alguém, Pipoca Mais Doce, estava a conseguir obter dividendos com o seu blogue e quiseram também tentar a sua sorte, ali não há o mínimo espírito de blogue, são estabelecimentos comerciais virtuais, são, no fundo, uma cópia do que se passa nas outras plataformas, mas com o nome de blogue, penso que a maioria dos visitantes desses blogues, são precisamente os que invadem as outras plataformas e ali encontram um produto semelhante. Mesmo que não existissem as outras plataformas, as pessoas que as percorrem viravam-se todas para os blogues? não creio. Os blogues dignos desse nome, são produtos diferentes, para muito melhor, quem os procura de propósito, procura essa diferença, o interesse por esses blogues só morrerá, se os próprios bloggers os matarem, tornando-os só mais uma coisa igual a todas as outras. (Os autores dos blogues criados para vender produtos, não são bloggers, são comerciantes).

    (A inocência caro Pipoco, é coisa que se renova, não se esqueça que há sempre gente a descobrir as coisas pela primeira vez).






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  8. Anónimo4.1.15

    Eu ainda leio o teu blog com o mesmo objetivo que teria se tivesse lido o teu primeiro blog. Os tempos mudam, mas por vezes os fregueses não ...

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  9. A publicidade faz parte das coisas!

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