29 novembro 2014

O problema dos políticos

É que ganham pouco, obscenamente pouco. O primeiro ministro ganha menos do que eu e aposto que não pode, como eu posso, ir à praia sem ninguém o incomodar, aposto que não tem tempo para ir correr com o cão nem para ler livros a sério, dorme menos tranquilo do que eu e tem que lidar com gente mais incompetente e aborrecida do que eu.

É por ganharem pouco que os políticos são corruptíveis. A maioria deles chegam aos partidos por via lá daquilo das juventudes, vão subindo a partir da concelhia de Ferreira do Zêzere e, chegados à cidade grande, tratando por "tu" os que aparecem na televisão, deslumbram-se. Um dia chegam a presidentes de câmara e toda a gente os trata por "senhor presidente", a eles que ainda há meia dúzia de anos se esforçavam para acabar a matemática do décimo segundo ano, a eles a quem os pais pagaram, esforçadamente, um curso de gestão ou de ciência política, nessas universidades onde o Tozé Seguro dá aulas. E deslumbram-se, agora são reverenciados, dizem "vamos lá ver isso" quando os velhinhos os abordam na rua a clamar por mais reforma, têm uma secretária que os anuncia ao telefone quando ligam para pessoas importantes. E, deslumbrados, percebem que o que ganham não chega para vestir fatos de bom corte nem viver em condomínios fechados como os outros, os que os tratam por "senhor presidente", os que lhe devem favores, percebem que o mundo está ao contrário, que quem tem maiores responsabilidades é quem ganha menos.

Mandasse eu, que não mando, e um primeiro ministro havia de ser um gestor e havia de ganhar uma fortuna. E havia de ter prémios de objectivos, um milhão de euros por cada ponto percentual de diminuição de desemprego, outro milhão de euros por cada ponto de crescimento do PIB, mais um milhão de euros por cada cem milhões de redução de dívida. E os ministros haviam de ter também os seus ordenados indexados a objectivos, o da educação havia de ter como objectivos diminuir o abandono escolar, o do desporto havia de ter como objectivo aumentar o número de praticantes, o da economia havia de ter que se preocupar com as exportações.

E todos ele haviam de vestir bem e ter casas em Paris e em Nova Iorque. E tudo isto havia de nos sair barato, muito mais barato do que sai agora.

(e aposto que, não fosse este parêntesis, na caixa de comentários havia de se discutir que Pipoco ganha mais do que o primeiro ministro - bastante mais, já agora... - em vez daquilo que realmente importa)

45 comentários:

  1. O Thomas Moore também pensava positivo ( mais igualdade e justiça e menos milhões, claro)... pensamentos quiméricos... de perder a cabeça...

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    1. More, sim, claro... more or less, depende do ponto de vista

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  2. E para aquele que recebeu uma gratificação de doze milhões? Qual será a explicação...?

    (as pessoas não são corruptíveis por ganharem pouco, as pessoas são corruptíveis porque são desonestas e/ou amorais...)

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    1. O dos doze milhões tinha uma família para sustentar..

      ( mais a sério, não era político e por isso não entra no que me interessa discutir)

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    2. A ideia não é discutir o dos doze milhões, a ideia era dizer que não é o facto de ganhar pouco que torna uma pessoa corruptível...

      (e sim, também acho o ordenado de um Primeiro-Ministro ridículo e sou de opinião que devia ser bem mais generoso. Mas como forma de chamar pessoas mais competentes para o cargo e não para evitar se deixem corromper. É que por essa ordem de ideias, há sempre alguém que tem qualquer coisa que nós nunca poderemos ter, pelo que, por mais alto que fosse o vencimento, nunca seria suficiente...)

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    3. Palmier, termos competência a disputar o cargo seria uma segunda derivada.

      E pessoas inteligentes sabem que não se pode ter tudo. Mas poder ir passar férias a um sítio bonito no verão e esquiar no inverno, poder ir jantar de vez em quando ao Eleven, beber um bom vinho, tudo isso é justo que um primeiro ministro possa pagar do seu bolso.

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    4. Acho uma falácia pensar-se que um vencimento chorudo substitui princípios morais...

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    5. Um vencimento chorudo tira campo de acção à necessidade de corrupção.

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    6. Tio Pipoco... "necessidade" de corrupção?! A sério que é uma necessidade? :D

      (Quem é corruptível é sempre corruptível. Quanto muito o que está a fazer é elevar a fasquia... se não se deixa corromper por mil, deixa-se corromper por um milhão)

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    7. Palmier, substituo a "necessidade" por "possibilidade" . De facto, "necessidade de corrupção" não ilustrava a minha ideia.

      Se as pessoas ganharem o que é justo para as responsabilidades que desempenham, a coisa fica mais equilibrada.

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    8. Voltamos ao princípio. Acho os cinco ou seis mil euros/mês, que penso ser o ordenado de um Primeiro-Ministro, pouco. No entanto, não penso que é por ganharem pouco que "as coisas" acontecem... caso contrário não teriam acontecido com o senhor dos doze milhões...



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    9. Concordemos em discordar.

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    10. Lá terá de ser... :)

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    11. Ainda assim, gostava de ver a minha teoria vertida em vida real.

      Quero crer que não faltará muito.

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    12. Acho que a leitura está incorrecta, Palmier. O dinheiro não compro principios morais, mas paga bom gestores. Um politico recebe pouco e por isso só atrai determinado tipo de pessoas. Os tais da juventude que tiraram o curso numa dessas privadas que passa diplomas a um Domingo. Os bons gestores, preferem ganhar mais e chatear-se menos. Não podia estar mais de acordo, Pipoco.

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    13. Já somos dois nesta causa, Clara.

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    14. Clara, se reparar, há-de ver que disse acima que acho os vencimentos dos políticos baixos e que deveriam ser mais generosos para, lá está, chamar pessoas mais competentes (o que não é sinónimo de menos corruptíveis). Agora... se os bons gestores não tiverem princípios morais...

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    15. O problema não está na falta de pagamento, é mesmo um problema de falta de Ética. Falta Ética na política e falta nos negócios. É por isso que "compensar" os políticos com "prémios de produtividade" não iria resultar em melhores soluções para os cidadãos. Iria sim resultar em manipulação dos indicadores, falsificação de estatísticas e outras técnicas afins, que bem conhecemos desde que a Eron estoirou.

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    16. Concordo com Palmier encoberto:
      - os princípios morais são independentes dos valores dos ordenados (e não é por se ganhar muito que não se é corrompido. Como também já foi referido, apenas se passa para um outro nível)
      - também acho ridiculamente baixos os ordenados dos nossos governantes.

      Concordo com o Pipoco: os políticos deveriam ter objectivos e serem recompensados por tê-los cumprido. Em termos práticos tenho alguma dificuldade em imaginar quem especificaria os objectivos (de modo a serem "sérios" (e não ridiculamente alcançáveis ao fim do primeiro mês) e outras coisas que tais.
      Ahhh e acho que, infelizmente, para a grande maioria dos políticos que temos, as suas prestações são muito bem pagas - e que nenhum político vai para o cargo para enriquecer, antes como rampa de lançamento.
      Governar o país não é o fim, mas o meio. E, entretanto, vai-se agradando a uns e a outros com compromissos que, para o resto, por vezes, só prejudicam. Isto, creio, mais do que os vencimentos, é o verdadeiro problema dos políticos que temos.

      (Sim, foi um comentário longo. Não, não foi um comentário irónico)

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    17. Anónimo30.11.14

      Necessidade e Possibilidade são conceitos bem distintos, mais ainda neste contexto, e quem os toma por sinónimos também já deve estar corrompido (uma vez que se gaba de ganhar "o necessário", deduzo que seja o sexo que anda fraco). Roubar um pão porque se tem fome é uma coisa, roubar um anel é outra. E não é porque a montra da ourivesaria está a descoberto e sem vigilância que eu,- pessoa dada aos brilhos e encantos dos metais preciosos, que só os não ostenta por ser pobre, - o vou meter ao bolso!

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    18. Catarina2.12.14

      Tio Pipoco, se gostava de ver a sua teoria vertida para a vida real vá ali a Itália dar uma voltinha. Os ordenados da classe política são bem maiores e não me parece que estejam melhores do que nós no que toca à corrupção, muito pelo contrário.

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  3. Totalmente em desacordo.
    Isso seria pagar-lhes para serem incorruptíveis, ou no limite, tratá-los como comerciais a trabalhar por objectivos e à força de team-buildings.
    Todos os homens têm uma mola que os faz levantar. A mola perde a força à medida que o homem sobe na vida, e é preciso dar-lhe cada vez mais gás para eles se sentir à altura do seu céu particular (que é o limite).
    Na realidade esta problemática da ganância não se reslove com mais dinheiro e milhões nos bolsos dos políticos. Resolve-se sim com valores filiais, e com honestidade, coisa que à partida o dinheiro arrasa.
    Temos portanto o caldo entornado.

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    1. Uva, seria pagar para que a corrupção perdesse espaço de manobra.

      (isso dos valores, tirando uns discursos inflamados no dia de ganhar eleições, não tem dado grande resultado, pois não?...)

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  4. Licencinha... caro Pipoco, a Palmier ali em cima disse tudo:
    "as pessoas não são corruptíveis por ganharem pouco, as pessoas são corruptíveis porque são desonestas e/ou amorais". Assino por baixo.

    Gosto quando escrevo este género de textos. Os outros de encher chouriços, passo. Encher chouriços é mais para blogs género... o meu. Daí a diferença de 60 para 1157. Agora é só fazer as contas, como disse o outro senhor, que vai na volta também ganhava pouco.

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    1. Maria Madeira, ninguém competente vai para ministro do que quer que seja. Iria perder dinheiro, iria ter o Correio da Manhã a escarafunchar-lhe a vida, teria que aturar sindicatos e essa coisa bizarra que é "a opinião pública".

      Se se eliminasse o factor "perder dinheiro", talvez valesse a pena e atraísse os mais competentes. E os mais competentes, com a pirâmide de Maslow dos bens materiais composta, seriam menos permeáveis à corrupção.

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  5. Mark Twain disse que a falta de dinheiro é a raiz de todos os males. Tendo a concordar com ele.

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    1. Eu acrescentaria mau sexo como segunda raiz. E também teria razão.

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  6. Não tarda e o Pipoco deduz que pobreza é sinónimo de sujidade...

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  7. (e agora começou o jogo, tenho que me concentrar...)

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  8. Em alternativa, podemos votar apenas nos ricos ...

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  9. O tio, para alguém que ganha mais que o primeiro ministr, é um bocadinho ingênuo. Acha mesmo que o problema da corrupção radica nisso, na possibilidade de ir ao elevem, beber um bom vinho? Ó tio, até eu posso comprar uma das garrafas que por vazes aqui exibe, a questão é que... Não faço questão. O que falta, na política, é a noção de que não é uma carreira mas um serviço. Temporário. É assim que as coisas funcionam nos países mais evoluídos - e, diga-se, nem assim imunes ao fenômeno. A corrupção pode ser por dinheiro, mas é, essencialmente, motivada pela cobiça de ascender a um determinado círculo. Os amigalhaços, a ânsia de poder são muito mais corruptíveis que o dinheiro.
    Dito isto, concordo que um bom salário confere, sim, dignidade ao cargo - seja ele qual for- e a quem o exerce, mas não imuniza. Falta, e muito, é aquela ética republicana e o sentido de estado. E de serviço - é que eu também ganho mais que um administrativo, mas isso não o desculpa se, por umas dezenas, se esquecer de uns papéis no fundo de uma secretaria.

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  10. E agora a sério, a coisa pública é para quem tem amor à coisa pública. Quem é corrupto continua a ser corrupto mesmo depois de já ter os fatos e os carros e as casas e o dinheiro para o Eleven. Há funções no estado que só podem ser exercidas por pessoas que se movam por um interesse maior do que o dinheiro. Resta saber é se ainda há pessoas para essas funções.

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  11. Em conclusão.
    Depreende-se portanto que um vencimento menos chorudo para um político no exercício das suas funções, legitima a desonestidade.
    Sempre a aprender.

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  12. Cláudia30.11.14

    Sempre ouvi dizer que o poder corrompe, que traz subjacente uma certa ideia de estar-se acima de tudo, mesmo da Lei, até porque o poder de que está o Pipoco a falar, é também o poder legislativo, elaborar as leis pelas quais todos se devem reger, isso pode ser inebriante, porque é o maior poder de todos, mais que o dinheiro, é o poder que pode levar a pensar estar-se acima dos outros.
    Mas, se for só uma questão de dinheiro, quem se rege pelo dinheiro, vai sempre achar que pode sempre ter mais, arranja estilos de vida correspondentes a esse dinheiro, que depois vai querer a todo o custo manter e é nesse âmbito, do todo o custo, que mora o perigo da corrupção, não faltam exemplos. Para além disso, acredito verdadeiramente que certos valores em nós entranhados, nos impede de ser corrompidos, ou de corromper. Ter que dar muito dinheiro a alguém, para que esse alguém se porte bem, não vá enveredar pela actividade criminosa, desvirtua tudo, porque, gente que só não sucumbe, se tiver muito dinheiro nas mãos, é gente que nunca devia ser líder de coisa nenhuma, muito menos ser primeiro ministro de um país.

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  13. Anónimo30.11.14

    Em resumo, opá LIBERTEM O ZÉ!, que ele ganhava era pouco!

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  14. Anónimo30.11.14

    Vou fazer de conta que não li o parêntises e fazer-te a vontade e falar do teu ordenado (quiseste o tempo todo que alguém o fizesse, confessa).
    Então ganhas muito mais do que o PM? Muito mais é quanto, 5,00 €? Se me pedirem 5,00 € ppor uma bica mal tirada no café aqui da rua, vou achar que é muito, uma barbaridade de muito. 10,00€? Então é mesmo muito, um roubo. Se me pedirem 15,00 € vou olhar para os lados e agir com desconfiança, deve ser p'ara um programa de "Apanhados". Por 20,00 € penso se devo ou não chamar as autoridades, judiciais e médicas, o dono do café precisa de ser internado compulsivamente, está louco, só pode estar (ou estarei eu, se me dispuser a pagar aquele valor). Ganhas mais 25,00 € do que o primeiro ministro, é isso? Uma quantia que te permite dizer que jamais cederias à tentação de te deixar corromper, não é?
    Eu percebo-te, todos nós temos um preço. Resta saber qual.

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  15. Anónimo30.11.14

    Concordo com a Palmier. E o problema do país é haver uma grande maioria que pensa como o Pipoco. Nos países Nórdicos nem os gestores (em comparação com os trabalhadores), nem os políticos ganham assim tanto e a corrupção é bem menor que em Portugal.

    Os políticos, as pessoas, são corruptas porque são desonestas e uma baixa moral, comparando com a sua alta confiança, de que nunca serão apanhados (há uns livros que explicam isso).

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  16. E o que é ganhar bem? Com quantos milhões ficam satisfeitos os que trabalham por milhões? E onde estão os bons gestores? Quem são eles?
    Poder. É tudo uma questão de ego e poder.

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  17. Busto do Napoleão1.12.14

    O problema começa (e torna muito à volta de) no principio amplamente exposto neste blogue (e particularmente neste post) de que o sentido da existência é ir jantar ao eleven, E, mesmo descontando aquela coisa do isto é só blogues e tal, o boneco que é aqui apresentado para gerar fascínio (e com sucesso) é bem sintomático da coisa.

    Para os mais jovens, acreditem que nem sempre foi assim, não é assim em todo o lado e não tem que ser necessariamente assim

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  18. Anónimo1.12.14

    Este post era tão, mas tão escusado! As coisas que um homem tem de fazer, a ginástica mental que tem de dar, para, no fundo, dizer que ganha muito bem. Um minuto de silêncio para todos os que acham que isso é o mais importante!

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  19. Ah, meu caro, já ninguém tem sentido de humor. Esta ocasião natalícia desperta o altruísmo que não há em nós, ou é coisa sazonal.

    Ai de mim se tivesse um blog e falasse da minha utopia tecno-anarco-socialista pós escassez. Enfim, é mesmo um constructo idealizado ao extremo.

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  20. Eu concordo consigo, acho que os políticos devem ser bem pagos e até acho que devemos garantir e pagar um período de nojo para quem sai da política (e nem sei se não é necessário algo mais definitivo, que garanta que quem queira enfrentar interesses instalados hoje não veja a sua subsistência ameaçada amanhã - não tenho a certeza).

    Mas o seu post passa a ideia de que incorruptibilidade e conhecimentos de gestão seriam suficientes para garantir bons políticos e boas políticas e acho que o Pipoco sabe que não é assim. Numa sociedade pluralista e democrática há sempre interesses antagónicos, e ainda bem que é assim.

    A política é muito mais do que a gestão pública, a política é um conjunto de escolhas e opções. E muito raramente há escolhas e opções politicamente neutras que beneficiem ou prejudiquem todos os interesses por igual - aliás, basta olhar para os indicadores que sugeriu como objetivos para esse seu super-gestor, nenhum deles é neutro e ainda menos neutros seriam os caminhos para lá chegar.

    Na dúvida, prefiro sempre um governo que sirva ou defenda interesses opostos aos meus, como o atual, do que discursos tecnicistas, que se escondam atrás da complexidade dos assuntos, da inexistência de alternativas ou da necessidade de conciliar todos os interesses.

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