07 agosto 2013

Meu excelente José Rentes de Carvalho...

... as coisas não são exactamente como o meu caro diz que são. Eu, que adivinho ter o tempo contado para que um destes dias eu própro seja mais um emigrante, eu que já estive fora deste país o período suficiente para ver as coisas com aquela perspectiva de quem, vendo as coisas sem estar embrenhado nelas, percebe melhor o que não fazemos bem, eu que passei o melhor do meu tempo de férias numa terra que tinha um rio ao fundo e terras à volta e festas onde me calhava sempre em sorte dançar com as filhas de emigrantes mais bonitas, aprecio genuinamente os méritos dos que, por opção, por estar zangados com esta terra, por não se sentirem parte daqui, por fuga ao que quer que seja ou por não terem aqui o sustento que merecem, emigram. Não somos, nunca somos, uns mais que os outros, isso é coisa que se aprende cedo e que, em não se aprendendo, a vida se encarrega de nos escarrapachar, mais cedo ou mais tarde, quase sempre mais cedo, que é para termos oportunidade de ainda viver em paz com essa verdade. Por isso, meu excelente José Rentes de Carvalho, que venham abraçar os seus, que celebrem estar vivos, que paguem rodadas a torto e a direito, que chamem pelos filhos Patrick e Sandrine, que não resistam a enfiar-nos pelos olhos dentro a prosperidade, que falem alto para que ouçamos bem o quão melhor as coisas são por lá, mas não, deste lado não há nojo nem discriminação. E, já agora, meu excelente José Rentes de Carvalho, os emigrantes não são versão de coisa nenhuma, muito menos de nós próprios. Pois não temos nós mundos tão diferentes, voltas da vida tão diversas, experiências tão díspares, que, no fim de contas, nos levam a essa riqueza de não termos que ser versão de ninguém, que nos dá essa formidável liberdade de escolher quem gostamos a valer e aqueles que podemos bem passar sem eles?

18 comentários:

  1. Acabo de me apaixonar pelo Pipoco

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  2. Vejo que assentiu em meter o " Tempo Contado" ali na sua barra lateral.
    Vê? Até escreveu um post que , pelo seu antagonismo, encaixa quase na perfeição no do grande mestre ( da vida) JRC.

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  3. O importante é ter uma vida a sério (sem gaiolas) aqui ou lá fora.

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  4. Caro Pipoco Mais Salgado,
    Coisa aborrecida, esta de me dirigir a um pseudónimo, mas enfim, assim seja.
    Receba em primeiro lugar os meus cumprimentos, pois tendo-o descoberto por indicação amiga em Março passado, prezo-me de ser seu leitor diário.
    De par com a elegante prosa a que me habituou, ao correr da sua leitura descobri também que nos separa mais que uma falésia. Ele são os nomes ressonantes de que por vezes fala, as marcas de charutos, os sabores refinados, os jantares suculentos, a familiaridade com as grandes cilindradas. Agachado num canto, arregalam-se-me os olhos, cresce-me água na boca, e como, vista a idade, não tardarei a passar para as estepes onde o Senhor deixa que pastem os corcéis da eternidade, tenciono solicitar-Lhe que na próxima reincarnação me deixe nascer em lençóis que se assemelhem aos seus. Então falaremos de igual para igual, de certeza também lançarei um par de caralhadas aos filhos da puta que não deixam a faixa do meio.
    Mas por enquanto ainda cá ando, sou quem sou, pisei o seu calo. E outros também, como poderá descobrir se fizer uma excursão pela blogosfera nacional.
    Aqui chegado, as boas maneiras aconselhariam, talvez, o pedido de desculpa pela pisadela ou, pelo menos, uma explicação de rendilhada delicadeza latina. Mas na minha maneira de ser e de pensar nada disso cabe, pelo que terá de ser duelo: escolha as armas, mande as testemunhas.


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    1. Meu excelente José Rentes de Carvalho, desculpar-me-á o atabalhoamento mas acabo de ser confrontado de forma abrupta com o facto um escritor a sério, daqueles que escrevem de tal forma que têm o poder de me deslumbrar, me ter dado conversa. Imagine o meu caro que me desafiou para um duelo. Homem sábio, é certo que me estraçalharia em dois tempos, havia de esperar que eu me virasse, os homens de boa raça são assim, havia até de aguardar, parcimonioso, que eu carregasse primeiro no gatilho. Havia de se desviar com elegância e havia de disparar, um só tiro, fatal e certeiro (escolhesse eu a espada e em dois tempos teríamos um belíssimo carpaccio de Pipoco). Estou aqui a pensar como escapar-me ao duelo sem parecer um qualquer fanfarrão, ajude-me o meu caro, que também é homem das letras, a fazer isto com a elegância possível.

      (quase lhe respondi que os Benevides de Athayde são afinal Silvas Almeida, que os Cohiba não passam de grissinos, que os jantares suculentos de perdiz afinal são arroz de tomate com pataniscas de bacalhau, mas, caramba, há uma reputação a manter e não desejamos que o respeitável público sofra uma desilusão das antigas...)

      (já as cilindradas e as viagens e os livros e as músicas...)


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  5. Uau! Senhor, batalha hercúlea a que tem pela frente. Senhor JRC , quanta honra conhecê-lo fora dos seus livros e reconhecê-lo tão arguto como nos mesmos.

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  6. Caro D. Pipoco,
    Valho-me do inefável José Quitério para dizer que acabo de refeiçoar extra muros, o que nas latitudes nórdicas se torna indigesto, devido às gordurosas sobremesas e à genebra de muito álcool. Daí o atraso em responder.
    Testemunhas ainda não me visitaram, pelo que suponho ser sua intenção, e avisado passo, deixar o assunto em águas de bacalhau, olear de novo o arsenal e recolhê-lo ao armário. Tanto melhor. Poupa-se sangue e não se incomoda a autoridade.
    Acho, contudo, que seria dommage perder a oportunidade de zaragatear, pelo que amanhã, com remanso, lhe farei uma proposta que, sem desonra nem hemorragia, permita a ambos salvar a face e, na silly season, contribua para divertir aqueles que nos lêem e apreciam mais a faena do que a estocada.
    Já cordialmente seu,
    JRC


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    1. Rumpus, rumpus !

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    2. Meu caro e excelente José Rentes de Carvalho, "faites vos jeux"...

      (que os Deuses me protejam)

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  7. OCorvo7.8.13

    Arguto coloco sérias reservas.
    Quando a imaginação depassa a ficção, o homem cresce e a obra nasce. Mas quando a imaginação não alcança a compreensão, particularmente não vejo grande agudeza de espírito.
    Que é assim a modos de como quem diz; isto são só blogs.
    De qualquer maneira, em caso de resolução extrema, o estimado Pipoco pode contar comigo como padrinho. Madrinha deixo à sua escolha.

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  8. OCorvo7.8.13

    Ó Pipoco! E então as vistas da janela? Não lhe merecem referência?

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  9. Anónimo7.8.13

    Pipoco, "julgue-se melhor" (que o é!) e escreva um livro...

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  10. confirma-se, Sir Pipoco, um blogue nunca é apenas um blogue e os Melhores são sempre os que nos surpreendem com a sua simplicidade e inteligência.


    (e quem diria que a silly season de 2013 viria a ser tão interessante?...)

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  11. Uma pessoa vai de férias durante uns dias e é isto...

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  12. Já não saio mais daqui. A parte boa é que vai ser de graça. Grátis, que eu cá sou do povo!

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  13. Anónimo8.8.13

    Estou embevecida.
    Que bonito.
    AnaB

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  14. tens que estar por demais orgulhoso. Tu és bom... mas esse homem, (JRC) escreve que se farta.
    Boa sorte para o duelo. não te esqueças das luvas brancas.

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  15. ... é o que dá estar três semanas em Marvão, sem internet, chego agora aqui e tenho esta inusitada surpresa! ah, li (quase)tudo do excelente J. Rentes de Carvalho, enquanto lá estive ( sim, também li os novos Maias, e ele não merecia estar naquele conjunto, essa é que é Eça!)

    Mª Eugénia

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