16 agosto 2013

De como J. Rentes de Carvalho, tranquilamente, vai ganhando vantagem na contenda

Caro Dom Pipoco,
O introito da sua anterior missiva também se me assemelhou longo, mas sorri e desculpei. Na juventude facilmente nos deixamos arrastar pelo anseio de "fare la bella figura", pecadilho meridional que, na prosa, imita o esforço do pavão a soprar excessivamente para que sobressaia o colorido inchaço da plumagem. 

Tarefa pesada a de responder às muitas perguntas que faz, sobretudo porque as espalhou pelo texto, mas deixe que reaja primeiro à atitude dos seus seguidores. Ao contrário do que aventa, eles nem por sombras imaginam o jovem e destro Dom Pipoco ferido, derrotado, mas seguem a intuição e há muito "farejaram" de que lado sopra a aragem da vitória.
Graças a Deus evito queixumes, nem me sinto inclinado a imitar a figura célebre que dizia "Sou apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim", ou o manhoso Fernão Mentes Minto, lançando um "Pobre de mim!" a cada duas páginas da  "Peregrinação".
Para lhe ser franco, admiro e invejo, pois creio que, mesmo em modesta escala, deve ser de grande conforto sentir o incondicional apoio que multidões reservaram a Gandhi, à Madre Teresa de Calcutá e aos Beatles.

Isto dito, passemos então à sua curiosidade. Pelo que sinto, o que sei, e me parece, o meu destino é idêntico ao de milhares de compatriotas que, ao longo dos séculos, por montes de razões se viram em terra estranha e nela deixaram marca.
Seria hipócrita se escondesse a satisfação que dá saber que nos Países Baixos, vai quase meio século, embora escrevendo apenas na língua-mãe, me considerem um bom escritor holandês, me tenham como tal em críticas, estudos, enciclopédias, bibliotecas, no "Letterkundig Museum" (Museu da Literatura) de Haia e em muitos milhares de estantes domésticas. Mas o descaso, o esquecimento, o desdém, a sobranceria do trato, deixam marca. Se de Lisboa e arredores me chegam cumprimentos, logo se aviva a lembrança de quando diziam que eu não sabia conjugar verbos nem escrever direito, que talvez nunca chegasse a aprender como se cria um personagem. E de que nos quarenta e tal anos seguintes me descartaram, deram-me por defunto e enterrado.
Dói? Não. Entristece. Cansa. É muito o esforço para impedir que o azedume cresça ou o sarcasmo leve a melhor, pois nesse particular nem a bonomia ou o sorriso tenho de natureza, são atitudes que me ensinei. Tal como canta o samba do clássico "Batatinha", também eu posso dizer com verdade: "Meu desespero ninguém vê, sou diplomado em matéria de sofrê."

Carlos da Maia não respondeu à curiosidade de João da Ega, nem provavelmente o faria se o amigo continuasse vivo. A ideia que me vem é que, num tempo ainda sem televisão, internet ou Facebook, e chegado àquela idade, tendo gozado o que havia para gozar, visto o que havia para ver, Carlos da Maia, homem de posses, comprou uma versão duriense do "Petit Trianon" de Maria Antonieta, descobrindo a contragosto que ninguém foge ao seu destino, nem a simplicidade é o que parece. A confidência que em tempos me fez um Diogo Calejo, sobrinho do "Tormenta", antigo feitor da Quinta da Pestaninha, levanta uma curiosa hipótese: mau grado os oitenta anos que então tinha, Carlos da Maia parece ter decidido a compra da propriedade de um momento para o outro. Dizem as más línguas que perguntou se aquela rapariga Felisbela lá trabalhava, e fechou o negócio. Dizem. Sugerem. Neste mundo há muita aleivosia.

Sobre o "Ulysses" poderia alongar-me, mas de forma resumida encontrará aqui o meu sentir: http://tempocontado.blogspot.nl/2013/06/birras.html Embora na juventude fosse leitor obsessivo, para aguentar não uma, mas duas leituras de "Ulysses", feito heróico, muito contribuíram os estudos de Hélène Cixous e a biografia de James Joyce de Richard Ellmann.

E agora, satisfazendo a sua última curiosidade: nos três primeiros meses o "Tempo Contado" teve caixa de comentários. Infelizmente, eram tantos os  tarados que lá entravam, que logo a fechei. Acontece a poucos, como a Dom Pipoco, que os  comentadores sejam aquele tipo de gente com quem dá gosto conviver e larachar. Dá-se também o caso de que tenho má sina. Não é só na caixa de comentários, é na rua, nas lojas, nos cafés, nas repartições, nas filas do autocarro, nas salas de espera: bêbedo ou candidato a Rilhafoles que ande perto, vem direito a mim como se tivesse bússola e eu fosse o norte. E assim me condeno à conversa de sentido único, abrindo rara excepção para os comentadores de provado juízo e boas maneiras.

Creio que chegamos ao fim. Pareceu duelo, mas foi teatro e, pela minha parte, o que neste palco afirmei, sou bem capaz de com igual à-vontade desdizê-lo amanhã. Nada obriga aquele que por cima do casaco veste o sobretudo da fantasia.
Saiba-me grato e aceite um cordial abraço.

J. Rentes de Carvalho

5 comentários:

  1. Vou marcar lugar cativo, aqui neste espaço de nosso Senhor, vou sim !
    Há ler o Ulysses e compreender o Ulysses... no meu tempo de liceu, JJ fazia parte, por isso eu li o Ulysses ( confesso que foi "secante" e que consegui acabá-lo à "tangente") Ainda hoje não sei se cheguei a entendê-lo, ainda ando to and fro.

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  2. Muito interessante este duelo! Como já disse anteriormente a fazer lembrar contendas de outros tempos, travadas nas páginas dos jornais. Um dos oponentes partiu em clara desvantagem no que ao talento literário (reconhecido) diz respeito mas, isso não tornou, de todo, o despique menos interessante. O duelo não teve vencidos. A vida real não foi beliscada - Rentes de Carvalho continua a ser Rentes de Carvalho e Pipoco alguém que se diverte com isto.

    Parabéns cavalheiros!

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  3. Sheila Carina17.8.13

    Por mim já decidi e ganhou o senhor JRC que se bateu galhardamente e desfechou a estocada final com honra de cavalheiro. Meus respeitos, senhor.
    Não li Ulisses nem pretendo ler que a minha bonita cabecinha não foi feita para coisas muito complicadas. Vá, que no meu Liceu não era leitura obrigatória, mesmo porque não o fiz em Portugal.
    Seguidamente e dirigindo-me directamente ao senhor JRC, cujo cavalheirismo aqui patenteado sem dúvida perdoará a ousadia, vou passar a ler tudo quanto o senhor escreveu: Prometo!
    Não posso deixar passar sem referência o seu natural entristecimento pelo menor reconhecimento da sua obra pela sua pátria, mas, lá está, senhor JRC, ninguém é profeta na sua terra.
    E não me queira muito mal que eu até sou boa rapariga.
    Um beijinho muito sincero para si, mesmo porque fiquei a gostar muito de si porque não é um pretensioso que só usa camisas de manga comprida.
    Não me leve a mal, eu sou mesmo assim.;)

    Sheila Carina.

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  4. É maravilhoso saber que Rentes de Carvalho, tal como eu, se reserva ao direito de mudar de opinião constantemente. Quanto a Ulysses não tenho nada a dizer. Felizmente não o conheço. Dizem que é um chato de galocha! Sir Pipoco, vá... confesse: Não é verdade que se Rentes de Carvalho, em vez de ser José fosse Antónia, poderia nascer um bonito caso de amor virtual e, talvez, serôdio. Uma pena as almas terem sexo. Seria um cruzamento perfeito, com filhos absolutamente geniais. O meu enorme respeito aos dois. Aceitam um beijo?

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  5. quem ganhou aqui fui eu que aprendi e descobri leituras novas (para mim) com estes textos. obrigada aos dois.

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