30 julho 2012

Das coisas mais curiosas que observo na minha vida...

...é o meu coeficiente de atractividade ao género feminino ter um hiato, um longuíssimo hiato, que acontece quando elas entram na idade dos seis anos e só termina quando elas chegam aos setenta anos, as coisas são como são e elas acham-me piada até aos seis anos, quando ainda não são auto-suficientes na leitura e precisam de alguém que lhes leia as legendas do Rei Leão, uma leitura com entoação certa e uma voz que ora se adapta ao Rei Leão ou ao Simba, ora é uma voz de falsete para interpretar a amiga do Simba, que agora não me recordo do nome, num exercício de rapidez de leitura e de troca de vozes que me deixa extenuado e morto de riso, é também nessa altura que elas precisam de alguém que dê protecção quando elas querem afagar a cabeça de cães grandes ou quando precisam de quem as ampare quando aprendem a andar de bicicleta, isto sem esquecer a necessidade de ter alguém que lhes conte histórias inventadas, que as adormeça, sempre sem repetir as histórias nem os imaginários.

Depois, mais de sessenta anos depois, elas voltam a interessar-se por mim, quase sempre na forma de velhinhas perdidas em aeroportos ou em senhoras que precisam de quem as ajude a descer escadas.

Em verdade vos digo

Se me apresentarem um blog, basta apenas um, comprovadamente escrito por um representante do género masculino que não seja um blog bem escrito, ditem-me uma penitência e garanto que a cumprirei.

(ok, esse, aquele cujo nome nós sabemos, não vale...)

Adenda: Naturalmente, as indicações de maus blogs masculinos deverão vir acompanhadas de um perfil robusto, daqueles que dão para blogs verdadeiros, isso é que é o sal da vida...

29 julho 2012

Pipoco Mais Salgado foi a um casamento Rubenpatrickiano e sobreviveu

A coisa percebia-se logo ao início, ele eram elas com piercings no nariz, ele eram eles com o nó da gravata em cima do terceiro botão da camisa desapertada, ele eram as criancinhas com fatos brancos e pulseiras de ouro por cima das mangas, ele eram os homens de patilha larga e fio dourado com crucifixo. A música de entrada da noiva foi uma coisa da Celine Dion, pelo menos eu creio que era Celine Dion, e a noiva entrou enquanto eu pensava no Titanic, que não é coisa boa para se pensar num dia como este, a coisa acabou com o Alegria e eu achei que estava tudo muito bem, música de circo não estava mal pensado, depois serviram-me coisas para beber e a melhor oferta era Martini em copo de plástico, recusei, enquanto pensava nos bons tempos em que o meu cantil com Old Bushmills nunca me deixava ficar mal, depois os homens, todos de igual, com gravatas cor de rosa demasiado curtas, cumprimentavam-se e diziam todos a mesma coisa, "Então - inserir nome do abraçado, que variava entre Adérito, Sertório e Antenor - comequeé?", e o Adérito, Sertório ou Antenor responde sempre que "Tá-se", enquanto as mulheres tentavam equilibrar-se em saltos altos, com aquela linguagem corporal que os homens terão lá para as dez da noite, a avaliar pelos brindes com Long John que vão fazendo, caramba, nem sabia que ainda há Long John no mercado, e ainda nem sequer almoçámos, há homens que jogam às cartas na mesa, enquanto aguardam que se monte a mesa dos presuntos e do camarão, sei que a mesa dos queijos estará vazia e dou graças por isso, a rapariga de voz esganiçada que toca órgão electrónico canta que "o melhor dia para casar é 31 de Julho porque a seguir entra a gosto", é um hit nisto dos casamentos marca Rubenpatrickiana, fico até às três da manhã, não sei bem porquê, talvez seja porque gosto da pinta dos noivos, gente de bem, se será por querer ficar para ver até que ponto a coisa pode ser uma experiência kitsch, reparo que estou sempre atrasado no que respeita a despir peças de roupa, já me tinham avisado ao almoço que eu era o único que mantinha o casaco vestido, avisam-me agora que sou o único a manter a gravata, tento resistir a que a irmã do noivo me tire a gravata, "com este calor, senhores...", ela acaba por ganhar e eu, sem saber como nem porquê, dou por mim sem gravata a dançar o Apita o Comboio enquanto penso que estou aqui, aposto que a seguir estarei a cantar a plenos pulmões "de quem será o pai da criança" quando podia estar em Alvalade na apresentação da equipa a gritar a plenos pulmões que "o Sporting é o nosso grande amor".

27 julho 2012

Está vazio o meu sótão

Ao longo do dia, eles foram saindo, devagarinho, primeiro os mais velhos rumo a Sines, ao festival não sei quê, depois os restantes, a separação ficava selada com abraços fortes, sem palavras, eles porque a emoção lhes toldava a voz, eu porque fico sempre sem palavras quando percebo que doze mamíferos conseguem despejar por dia um frigorífico dos grandes cheio de provisões, isto para além de ainda não lhes ter perdoado terem descoberto o compartimento secreto onde guardo os Haagen Dazs no congelador, "para o ano havemos de voltar", dizem eles com as suas vozes angelicais, "nem que vocês se fodam", penso eu enquanto lhes sorrio e aceno com a cabeça que sim.

Pipoco partilha as suas pequenas idiossincrasias

E de repente, quase sem eu dar por isso, no ranking das coisas que me fascinam em mulheres, surge em primeiro lugar a pronúncia do Norte, o fascínio por "nieste momientu estou a bier que gostas de istar à minhabeira" ultrapassa o fascínio pelas mulheres que me ganham a jogar xadrez, ultrapassa o fascínio por copas D (caramba, tinha escrito copas B, que gaffe tremenda) que desafiam a lei da gravidade, sendo que o impressionante da coisa é que chega mesmo a ultrapassar o fascínio por mulheres que sabem que o Collares branco acompanha divinalmente ostras.

26 julho 2012

Aconteceu mesmo, hoje

E lá estava ela, atenta aos números, primeiro reparei nos olhos, reparo sempre primeiro nos olhos, bem sei que não é de homem reparar primeiro nos olhos, depois reparei que apostava demasiado alto e acho que foi isso que em fez reparar no resto, no vestido bem cortado, nas medidas quase perfeitas e nos sapatos de sola vermelha, não é normal ver mulheres de sapatos com solas vermelhas tão atentas aos números, depois percebi que fazia as perguntas certas, as mulheres que sabem fazer as perguntas certas colocam-me sempre em sentido, depois o telefone dela tocou e ela atendeu sem sair da sala e eu imaginei como seria um Aston Martin com um naperon em cima do tablier a servir de base a uma Senhora de Fátima daquelas que brilham no escuro.

Pólo Norte, a enorme Pólo Norte

É meu grato privilégio ter o gosto de, pelo menos uma vez por ano e apenas nos anos que as nossas atarefadas agendas o permitem, tomar um café na companhia da Pólo Norte, proprietária do baby-blog mais divertido do espectro blogosferístico. Por coisas cá minhas, a minha desmotivação em fazer amizades a partir disto dos blogs levou-me a adiar por décadas o primeiro café, mas a insistência da Pólo Norte, motivada pela ânsia em privar de perto com o meu lendário sentido de humor e com o meu encanto pessoal, a meio caminho entre a aura de mistério e a inteligência desarmante, acabou por me fazer ceder e abrir uma excepção, não sem antes me ter certificado que a Pólo Norte lia no que escrevo para além das futilidades e, naturalmente, estando eu absolutamente certo que a Pólo Norte era mais, bastante mais, que aquilo que nos mostrava e que poderíamos sintetizar numa foto de cerveja fresca que segurava abaixo da linha do pescoço.

Acontece que ontem a Pólo Norte quase, e aqui chamo a atenção para a palavra quase, me emocionou com a sua acção de generosidade pura e com a capacidade de fazer acontecer e de não fazer de conta que não estava no sítio certo à hora certa. A onda de generosidade que a Pólo Norte foi capaz de fazer acontecer não é para qualquer um, só está ao alcance dos raros que sabem ter a percepção de que aquele é o momento e que, mais do que isso, sabem usar os meios que têm à sua disposição. Isto da Pólo Norte mostar que ter um blog pode ser algo mais que um instrumento de diversão ou uma forma de mostar ao mundo como saímos hoje vestidos à rua é um estudo de caso e inspira-nos, deve inspirar-nos a todos, a ser melhores pessoas e a acreditar que sim, que podemos mudar o mundo.

Parabéns Pólo, és enorme.

(todo o texto"linka" o tal baby-blog de que vos falei, pode sempre acontecer que haja alguém na blogosfera que ainda não conheça o blog da Pólo)

25 julho 2012

Os problemas das mulheres

Demorar demasiado tempo para perceber que as coisas são como são.

Ainda da série "posts fofinhos"

De todas as coisas que aprendi, e isto aprendi cedo, talvez demasiado cedo, é que nada é certo, o trabalho fantástico que tenho hoje pode acabar ainda hoje e ser substituído por um trabalho como porteiro do Estádio da Luz, o Bordéus colheita 1952 pode ser trocado a qualquer momento por cerveja Mahou morna, o quarto com vista para os sobreiros pode ser substituido por outro com vista para o skyline de Massamá Sul, o Nokia pode vir a ser trocado por um Blackberry, e até mesmo as primeiras edições de Eça podem de um momento para o outro ser trocadas pela Dica da Semana.

Talvez por saber disto há muito tempo, afinal aprendi demasiado cedo, em vez de me amedrontar com a perda que chegará um dia destes, aproveito o prazer que as coisas da vida me dão, aproveito as viagens até ao tutano e ainda hoje recordo o detalhe da preparação das viagens que fiz há mais de vinte anos, recordo com gosto o sabor do meu primeiro Old Bushmills bebido, aspiro com prazer o ar que me entra pela janela do quarto, deliciando-me sempre com o nascer do sol que quase sempre me apanha a correr, dou graças por cada dia de trabalho que vou começar e não me esqueço de me deleitar com o prazer que é voltar para casa ao fim do dia.

24 julho 2012

Em verdade te digo, Ruben Patrick

Cuida dela como se não houvesse outra no mundo, Ruben Patrick, na verdade não há outra igual, jamais a compares a outras que tiveste, ela é única, cuida dela ainda que se dê o caso de ela não estar ao pé de ti, aliás, cuida dela principalmente se ela não estiver ao pé de ti, se algum dia te esqueceres de a tratar como ela merece pode muito bem acontecer que alguém o faça por ti.

Pipoco abre as portas da sua intimidade e por uma vez não fala de mulheres de longas pernas a sair de carros desportivos

Sei quase nada sobre isso de envelhecer bem, por mim vou envelhecendo como posso, na verdade contento-me com pouco, basta-me uma semana por ano para esquiar, outra para mergulhar no mar e outra para subir e descer os Alpes, de resto fico bem se tiver meia dúzia de livros novos para ler em cada semestre, se puder ouvir ópera uma vez a cada dois meses e, se não for pedir muito, não me tirem um ou dois filmes por semana e meia dúzia de concertos escolhidos por mim a cada três meses. Fora isto, uma dúzia de fins de semana por esse mundo fora, de preferência que me avisem com uma dúzia de horas de antecedência e que não me falte ânimo para fazer os quilómetros que sejam precisos para ir aos sítios onde me dizem que está o tal restaurante que não posso perder, o resto do tempo que seja passado com os amigos e com quem é importante acima de tudo, o que sobra que seja passado em silêncio, a verificar se a Ursa Maior está no sítio do costume ou a pensar nisto da vida e de como não sei nada sobre a temática de envelhecer bem.

23 julho 2012

Há doze sobrinhos no meu sótão e nem tudo vai bem

Os que deixei a jogar futebol às duas da manhã, depois de dançarmos nas festas cá da terra ao som de uma banda de música de fusão, afinal fundiam Tony Carreira com Quim Barreiros, são os mesmos que encontro a pé a comer cereais e crepes com gelado de natas às sete da manhã, quando regresso da corrida matinal, os que ficaram a jogar Monopólio até cair de sono são os que me ligam a meio da manhã a dizer que houve um pequeno problema com o sobreiro, os que deixei a jogar às escondidas noite dentro na casa assombrada são os que me mandam imagens por telemóvel, lá estão eles com a canoa no rio, a televisão continua desligada, havemos de ver hoje episódios dos "Pequenos Vagabudos" e eles já não se atrevem a trazer para casa do Tio Pipoco os computadores portáteis nem as consolas de jogos, olho para eles a tomar banho de mangueira no momento exactamente anterior a fazerem menção de me atingir e encharcar o fato Ermenegildo Zegna e a gravata Prada, sei que desviarão o jacto de água no último milésimo de segundo, e pergunto-me onde irão eles buscar tanta energia (mas depois vou ao frigorífico e percebo).

Da série "Posts fofinhos"

Nisto dos aeroportos, enquanto estou ali à espera que as pessoas cheguem, vou observando quem espera, os amores que se reencontram e que se abraçam como se fossem as únicas pessoas no terminal, os que, como eu, nem sequer olham para saber se há quem os espere, que não há, a miudagem que regressa dos Erasmus e tem os amigos à espera, os casais que regressam de lua-de-mel, ainda sorridentes e com o ouro das alianças a faiscar. Ontem havia uma menina com um urso de peluche, que assim viu chegar ao anúncio do Martini Man um tipo de má cara, saltou dos braços da mulher que a segurava e saiu disparada para o tal tipo, o urso de peluche a voar com ela, e tentou saltar para os braços do tipo, que a recebeu com uma tal frieza que me incomodou, felizmente que as coisas são como são e a mulher que segurava a mão da menina do ursinho de peluche cumprimentou o tal tipo de má cara com uma frieza ainda mais gélida.

22 julho 2012

A propósito daquilo dos sobrinhos do Tio Pipoco

Acabo de observar o Tio Pipoco em hiperventilação, um dos sobrinhos mais novos apareceu com o livro autografado pelo Saramago e perguntou se era mesmo uma assinatura do Saramago, enquanto se ouve Steve Miller Band pela casa e só há Steve Miller Band em vinil e nem eu tenho autorização para tocar os discos de vinil do Tio Pipoco...

Há doze sobrinhos no meu sótão e tudo vai bem

Todos os anos, por esta altura, a meio caminho das férias do sul e das férias de subir montanhas, acontece-me ter doze sobrinhos no sótão. Todos os anos, como os salmões ou os golfinhos ou os elefantes ou lá o que é a caminho do que quer que seja, chegados de automóvel ou de avião ou de autocarro, doze sobrinhos desaguam no meu sótão e ficam por uma semana, sei-os a ler os meus livros velhos e sei-lhes as conversa longas que duram até tarde, pasmo com o que eles aprenderam este ano e começamos sempre a primeira conversa do primeiro jantar com o que correu mal a cada um de nós este ano, eu fico quase sempre sem assunto, mas este ano não, este ano perdi para sempre uma das amigas de uma vida inteira, agora estão na cozinha, a equipa responsável pelo jantar diz-me que há risotto de cogumelos e pedem-me conselho para o vinho, este ano os mais velhos já me acompanham no vinho, admiro estes miúdos, afinal trocam uma semana de coisas deles por uma semana no meu sótão, acho que a felicidade é bem capaz de ser isto.

20 julho 2012

Ruben Patrick fala às corderosinhas

Vamos a isto, corderosinhas, é substituir Manoel de Oliveira por José Hermano Saraiva e podem aproveitar quase tudo o que tinham escrito no sábado passado e felizmente não chegaram a publicar, é dizer ao mundo o quanto aprenderam com ele, o quanto apreciavam a grandeza da obra, o quanto sorveram o seu saber, o quanto demoraram a entender na plenitude os seus ensinamentos.

Verdadeiramente cool é pedir desculpa a uma mulher porque te enganaste.

Isso de ser conhecido do porteiro do Lux ou ser fotografado para uma dessas revistas de vagamente famosos a sorrir com a publicidade da Moda Lisboa por detrás não é cool, Ruben Patrick, o que é verdadeiramente cool é chegar cedo à praia e só estares tu, o teu cão e o livro que levaste, verdadeiramente cool é ter um royal flush na mão e não ir a jogo porque sabes que quem está do outro lado não está em condição de perder, cool é receber os teus amigos de sempre, abraçá-los porque estás verdadeiramente feliz pot tê-los por perto e ficar noite fora a saborear os vinhos que cada um deles te quer dar a provar.

Às vezes...

... anunciam na rádio que já a seguir temos Fernando Alvim e eu fico afrontado, com suores frios, tento mudar de estação, com o atabalhoamento acabo por me demorar no processo e entra-me mesmo pelo ouvidos o Fernando Alvim, afinal é só um senhor que toca guitarra portuguesa, acalmo o espírito, afinal não foi nada, suspiro de alívio, já passou, pronto, já passou.

19 julho 2012

Em verdade vos digo

De vez em quando há temas da moda aqui por isto dos blogs, esta é a semana em que se fala do livro que acompanhará os banhos de mar, o não sei quê de Gray, ou lá como se chama aquilo e é tiro certo, haverá quem escreva sobre o tema e haverá quem vá dizendo que o livro é fácil, e tal, que é leve e que aquilo é só sexo, como se isso fosse coisa ruim, afinal o livro ser só sexo foi o que fez com que a desiludida leitora o comprasse (o género masculino prefere outra literatura de férias, uma coisa em bom, a ser sobre temática sexual que seja um Miller, vá lá, um Nabokov) e será o que levará quem lê o post a comprá-lo também.

Para mim, tenho que ler um mau livro é sempre melhor que não ler livro nenhum, como escrever um mau blog é sempre melhor que não escrever blog nenhum, acredito que quem começa por maus livros, ainda que seja já em idade de estar a ler os russos mais complicados, acabará por ler mais uns maus livros, cansar-se, exigir mais e, nos casos mais felizes, acabar a ler livros de média dificuldade, um Saramago, um Pamuk, talvez um Sepulveda.